"UM NOVO CONCEITO": BOBAGEM DO MUNDO PUBLICITÁRIO

25/04/2010

"UM NOVO CONCEITO": BOBAGEM DO MUNDO PUBLICITÁRIO

Odeio receber panfletos enquanto estou no carro, nunca aceito, acho uma porcaria e isso só serve para sujar as ruas (eu não jogo na via pública, mas muita gente faz isso). Mas quando há mais gente no carro, alguns passageiros pegam e, justamente por não jogar fora imediatamente, acabo lendo no elevador. Foi o que houve recentemente e me deparei com a máxima: UM NOVO CONCEITO EM MORADIA.

O que seria isso? Cozinha-dormitório? Banheiro com sala de jantar? Piscina no corredor? Obviamente, um apê como outro qualquer: sala, quarto, cozinha, banheiro, tudo devidamente apertado, com aquelas instruções ridículas do tipo "a tantos metros de tal lugar" e "próximo daquela região ", arapucas imobiliárias clássicas para dizer que não é perto de nada. Novo conceito? Porra nenhuma.

Isso acontece com todo tipo de produto, seja medicamento, creme dental, tênis, aparelho de barbear... Sim, até mesmo APARELHO DE BARBEAR! Haja metalingüística para "conceituar um novo conceito", mas é esse o centro deste desabafo. Talvez o apelo ajude a vender ou prenda a atenção do consumidor, mas quem é o idiota que cai nesse tipo de truque?

E os carros? A cada MÊS surge um "novo conceito em automóvel", todos eles com as tradicionais quatro rodas, o invariável volante e todas as demais peças indispensáveis ao funcionamento de um veículo automotor absolutamente normal. Quando muito, surge um sensor de distância para estacionar ou aparelho de som adaptado para tocadores de mp3 - nada ALTERARE O CONCEITO do produto. O carro continua sendo um carro.

É importante frisar essa sintaxe: "novo conceito EM...", jamais "de". Se é para esculhambar, eles vão às últimas conseqüências.

Alguns anúncios exageram tanto na dose que falam coisas como "você vai mudar sua forma de olhar um conjunto residencial" ou "você jamais verá uma motocicleta da mesma maneira" ou ainda "nunca um pacote de salgadinho significará a mesma coisa". Tudo cascata, por óbvio. Nada mudará. Condomínios, motocas, salgadinhos, carros, vidros de palmito, fornos de microondas, enfim, tudo continua a mesmíssima merda.

No campo da tecnologia, é verdade, há algumas revoluções, e justamente essas empresas não fazem lambanças congêneres. Sim, sem dúvida, há exposições para deslumbrar usuários, mas não anúncios para tapear donas de casa ou crianças em idade pré-escolar. Os 'geeks' vêem um iPod, iPhone ou iPad e sabem que aquilo é casca-grossa o bastante, ponto final. Não precisam de uma frase de panfleto imobiliário dizendo que se trata de UM NOVO CONCEITO 'EM' TECNOLOGIA DE TOCADOR, TELEFONE MÓVEL OU TABLET.

Aliás, há aí uma questãozinha engraçada. Seria apenas obra do acaso o fato de que esses produtos sejam direcionados aos publicitários, enquanto todos os outros sejam lançados pelos profissionais da propaganda, tentando 'encantar' pessoas normais, abusando de uma expressão que já se tornou piada velha? Talvez valha uma análise desse conceito.


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Comentários:


Comentário de: Lucas · http://lucasradaelli.wordpress.com/

Uma vez me questionei sobre o mesmo motivo. Não fui muito longe, ao achar uma explicação absurda, mas que faz muito sentido, onde eu concluia que essas frases "produto x vai revolucionar a sua vida de uma maneira nunca vista antes", ou variantes, provinha de um programa de computador com uma inteligência artificial bem tosca. usando da clássica maneira de escolher algo, "minha mãe mandou...", pegava uma frase qualquer e jogava no panfleto. Ok, não é assim na realidade, mas polparia tempo e daria o mesmo resultado se fosse.

PermalinkPermalink 25.04.10 @ 05:14



Comentário de: Renato Camargo · http://www.twitter.com/renatocamargo

Parabéns, você descobriu o mundo da Publicidade. (Sem ironia)

A Publicidade é realmente isso tudo que você falou, mas não há nada de errado nisso.

Ela apenas dá o que as pessoas querem. Pega aquela dona-de-casa que comprou uma capa de sofá pra enganar a vontade de comprar um novo, pega o cara que pintou a casa pra não comprar uma nova e dá motivos pra eles quererem essas coisas novas.

Sobre a parte da tecnologia, você está certo em partes. Não quer dizer que tenha menos firula por ser vendida pra pessoas mais esclarecidas, mas a própria tecnologia gera em seus produtos a facilidade e a necessidade que a Publicidade gera nas outras áreas.

Realmente é tudo bobagem, mas não do "mundo publicitário", mas sim "nossa", que procuramos justificativas pra todas nossas ações.

PermalinkPermalink 25.04.10 @ 05:23



Comentário de: Braulio

Boa abordagem. Alguém (e eu não me lembro quem) já disse que os altos custos que as cias arcam com marketing é a paga pela ausência de criatividade, ou seja, se o produto é tão diferenciado assim ele certamente irá se destacar. Qualquer outra abordagem é pra convencer o "pagador" a dar seu dinheiro pra um ao invés do outro, simplesmente porque ponho uma roupa legal e falo coisas bacanas sobre mim.

PermalinkPermalink 25.04.10 @ 09:25



Comentário de: Fábio

Gravz,
isso não passa de uma tentativa falha de "gerar" um diferencial, um apartamento continua sendo a mesma porcaria que qualquer outro, mas quando se usa a dignissima publicidade, com seus avançados rescursos, se cria esse diferencial na cabeça do consumidor. Ora, aquele apartamento do outro lado da cidade é um lixo, esse também, mas é um conceito novo!
Tudo na tentativa de aumentar a "utilidade" do produto e poder se cobrar mais caro por isso. Azar deles que os consumidores brasileiros são muito espertos pra cair nessa armadilha, né?
Abraços.

PermalinkPermalink 25.04.10 @ 14:22



Comentário de: Homem Invisível · http://www.reinoinvisivel.wordpress.com

hahahahahaha.... MUITO BOM!
Sou publicitário, Grava, e concordo com gênero, número e "degrau" com vc.
Se me permite, explico o que acontece. o que não tira TODO o mérito e verdade desse post. Mas, como publicitário, sei como as coisas acontecem (e que não mudam o resultado final).

- Um deles é a culpa do (mau?) publicitário. CLARO que é mais fácil "usar a fórmula". O que menos cansa a cabeça, e é mais fácil de falar, é o que está na sua cabeça no momento. E pra quem escuta todo dia isso (e quem está no meio ouve até mais que o consumidor "comum") sai rápido, fácil e ligeiro.

- Outro problema é a culpa das agências. Porque trabalham, quase sempre, com prazos irreais e aceitam tudo do cliente (que paga, e bem), e dane-se a qualidade do trampo. Money & Business, baby. Morra trampando 17 horas por dia, sem fins de semana, e faça o texto às 23:30 da noite (qdo se entrou às 9:00) pq o pessoal tem que acabar amanhã cedo pra levar pro cliente à tarde, pq fechamos esse trampo às 17:00h. Ridículo! Aí o fodido sem dormir que tá trampando, faz o quê? Faz nas coxas (e vira um (mau?) publicitário - vide problema acima)...

- O terceiro é a culpa do cliente, que além de querer prazos irreais (95% das vezes incompetência deles), e muitas vezes por pagar "os tufos" pra uma agência e querer fazer o trampo quase sozinho. Ele te manda o texto pronto, ou frases-chave obrigatórias, e foda-se: coloca aí no anúncio pq o diretor quer e gosta delas. E olha que muitas vezes tem que corrigir o português do "sabidão" ainda... E aí... (vc se rende, pq o chefe obriga - vide problema acima - e vc acaba fazendo nas coxas ou contra a vontade - vide o primeiro exemplo).

Junte-se os três elementos e vc terá o quê? Culpa de muita gente e, óbvio, culpa do "filadaputa" do coitado que tá trampando 17 horas por dia... rs.

Sem defesa mesmo... tem muito BOSTA no mercado. Some esse elemento na conta final também. É quase certeza que vc ouvirá SEMPRE as expressões "da moda". E dá-lhe "novos conceitos em...".

Atente tb ao "diferenciado", "exclusivo", "inovador" (geralmente seguido do "conceito" - conceito inovador é o "must") e qualquer coisa que possa te dar um sentido de responsabilidade social e/ou ambiental.

Pronto. Use a fórmula e faça vc mesmo seu comercial, Grava...

Abraço e parabéns pelo post.

PermalinkPermalink 27.04.10 @ 02:16



Comentário de: Malva Mauvais · http://malvamauvais.wordpress.com/

Estamos precisando de um novo conceito em conceito...

PermalinkPermalink 27.04.10 @ 17:09



Comentário de: FERNANDO

Outro termo que me deixa puto é o tal "soluções". Soluções nisso, soluções naquilo, outro dia vi um: "soluções em madeiras", que diabos!!!

PermalinkPermalink 28.04.10 @ 15:54



Comentário de: Cláudio

Fernando,
Também destesto essa tal "solução". É só mais uma desculpa para cobrar mais caro. Corra quando um vendedor vier com esse papo.

PermalinkPermalink 04.05.10 @ 19:07



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