HQ É PRA CRIANÇAS... E QUAL O PROBLEMA NISSO?

20/04/2010

HQ É PRA CRIANÇAS... E QUAL O PROBLEMA NISSO?

Tenho mais de 5 mil gibis aqui em casa. Pus "HQ" no título, mas não gosto dessa denominação: sempre digo gibi, mesmo. Eu os leio e compro desde, sei lá, dez anos de idade e, de lá pra cá, não mudaram em nada. Foram e são feitos para seres humanos dessa faixa etária. Claro, há alguns criados para pessoas mais velhas. São aqueles feitos para gente de 14 a 16 anos. Não passa disso.

Devo salientar que não se trata de ofensa. Jamais. E é um absurdo que alguém tome isso como um insulto. E chega a ser patético quando homens e mulheres com seus 20, 30 ou até 40 anos na cara aparecem chacoalhando revistinhas de homens de capa ou cueca por cima da calça dizendo "isso aqui é literatura". Pode ser, e provavelmente seja, mas é para a criançada. Também não há dúvida de que seja uma manifestação artística, assim como o desenho do Bob Esponja. Cada qual, porém, em seu compartimento. A arte aceita tudo.

Também não adianta dizer que "não entendo do assunto", pois, como disse, leio esse negócio desde os 10 anos de idade e tenho 33. Claro que, agora, não compro feito um alucinado, mas tenho todos os tais "grandes clássicos" e as "Graphic Novels" celebradíssimas, bem como as obras de Alan Moore transformadas em filme para a indignação dos fãs. E isso merece uma análise separada.

Por que diabos tanta raiva? Os já crescidos e barbudos se levantam e gritam: "DETURPARAM A OBRA"! Que obra? É um gibi! Parece que adaptaram Dostoiéviski ou Cervantes para um musical da Broadway. Mas não. O que fizeram foi rearranjar personagens ou modificar alguns trechos de... UM GIBI! Menos, né? Mas o pessoal não enxerga o próprio ridículo e tratam a adaptação como se alguém tivesse pichado a Monalisa ou atacado a marretadas o David, de Michelangelo.

Watchmen é uma história boa? Sim, mas não exatamente formidável e, sejamos honestos, coberta de clichês. Quem chama aquilo de "revolução" está de brincadeira ou então nunca leu mais nada na vida, ou só pode estar usando como parâmetro o sentido revolucionário para a circunscrição de literatura cabível a um garoto de 13 anos (nesse último caso, as opções seriam gibis de Walt Disney, Turma da Mônica, ou mesmo Marvel e DC tradicionais da época - e aí, realmente, Watchmen dá de mil a zero).

Já citei aqui um exemplo besta de Watchmen. Alguns fãs ridicularizavam os neófitos porque não sabiam a "referência", no filme, para a cena dos helicópteros sobrevoando o Vietnã ao som de "A Cavalgada das Valquírias", de Wagner. Na idéia deles, seria menção ao filme "Apocalypse Now". Pois bem: não é só isso. Trata-se, sobretudo, de referência à divisão de infantaria e blindados do exército alemão da segunda guerra, que efetivamente marchava ao som dessa música - e ESSA foi a referência utilizada por Coppola no filme original. Sobra cultura pop e falta banco escolar para fã de gibi.

De todo modo, é mais do que óbvio que os quadrinhos possam servir de "meio" para mensagens adultas, subversivas, políticas etc. Há vários exemplos nesse sentido, como "Maus", "Persepolis", "Palestina", além das obras de mestres como Robert Crumb, Gilbert Shelton e tantos outros - no Brasil, p.ex., temos Luiz Gê, Angeli, Laerte, Glauco, Fernando Gonzáles etc. Mas o centro do texto são os gibis mais famosos, em especial aqueles adaptados para o cinema ou motivo de CULTO por fanáticos, que não permitem ver tais "obras" violadas pela grande indústria - quando, na verdade, elas próprias são lançadas e distribuídas por multinacionais.

Pura bobagem. Quarteto Fantástico foi feito para o público infantil. Homem-Aranha é para crianças. Superman, idem. E assim vão Batman, Wolverine, Vingadores, Homem-de-Ferro e, claro, também Watchmen e quase tudo de Alan Moore, talvez salvando "V de Vingança", obra em que ele traduz para a molecada alguns clássicos - mas, sem conhecê-los, entende-se pouco das entrelinhas - os desconhecedores de 1812, de Tchaikovsky, até hoje não sabem o porquê da música estar no filme.

Mas é isso. Há espaço para todos no mundo, só não vale dizer que gibis são uma arte intocável, porque não são. E nem ficar ofendido pelo fato de que se trata de uma coisa para criança. Qual o problema? É divertido, mesmo assim. Dr. Manhatan é muito bem feito, assim como Charlie e Lola. Os X-MEN foram um marco na criação de um grupo, assim como os Backyardigans.

Não briguem comigo por isso, ok?


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transubstanciado por gravata às 20.04.10 | 18 comentários



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Comentários:


Comentário de: Da C.I.A. · http://angelodacia.blogspot.com

Falou de Gibis, HQs mas não falou de MAD ou Groo? Só perdôo porque, inexplicavelmente, você meteu os Backyardigans na história mesmo não sendo HQs.E Backyardigans é Backyardigans, como diria o filósofo!

PermalinkPermalink 20.04.10 @ 02:11



Comentário de: @caducotavio · http://caducando.wordpress.com

Não creio poder concordar contigo, é algo pra se pensar. Certamente que Watchmen não é importante como Dom Quixote, mas pro universo dos quadrinhos representa uma virada interessante, talvez uma revolução - pro universo dos quadrinhos, não pras artes.

A barreira de idade é relativa, porque envolve muito mais a cultura de massa que um filão específico; acho que é um dos motivos pra tanto marmanjo ler gibi, hoje em dia. Ou será que sofremos de síndrome de Peter Pan.

Ay, caramba!

PermalinkPermalink 20.04.10 @ 02:26



Comentário de: Renato Camargo · http://www.twitter.com/renatocamargo

Sempre arrumando um jeito de trollar os nerds hein, Gravataí!? Mas sempre com sutileza.

No mais, excelente texto, pra variar!

Abraço

PermalinkPermalink 20.04.10 @ 06:15



Comentário de: O Coisa · http://coisafilosofica.blogspot.com/

Arte intocável?! Existe?
O Click do Manara é bem "tocável". rs

PermalinkPermalink 20.04.10 @ 06:34



Comentário de: Ângelo Mello

Eu já ia criticar seu texto, citando exatamente Maus e a obra de Joe Sacco (Palestina, Área de Segurança: Gorazde) como exemplos de Quadrinhos realmente adultos. Sobre os quadrinhos de heróis, concordo com você. Mas faço uma ressalva: Preacher, que é uma publicação da DC Comics pelo selo Vertigo também é gibi para adultos e da melhor qualidade. Esse eu recomendo a leitura!

PermalinkPermalink 20.04.10 @ 08:28



Comentário de: Curiosa

Adoro Backyardigans! :)

PermalinkPermalink 20.04.10 @ 12:38



Comentário de: Sandro · http://arkhanasilum.blogspot.com

No ano que completam 20 anos que leio HQ's, acho que, assim como em outras midias, existem publicos-alvo (?) para cada produto.

Se cinema adulto é Almodovar e qualquer filme de Riddley Scott é infantil, entao concordo que todo gibi é para criancas, mas, mesmo sem a profundidade de um "Guerra e Paz", encontramos alguns gibis com temas menos juvenis. E nem to falando de Moore ou Morrison com suas referencias culturais profundas, falo de Y, the last man, 100 balas, Maus...

podem nao ser marcos literários, mas infantis é que nao sao.

PermalinkPermalink 20.04.10 @ 13:26



Comentário de: Jezz

Olha, se tu quer dizer no texto é que Marvel e DC em geral são para um público infantil e adolescente, concordo.

Agora generalizar os gibis/HQ como infantis é taxar o conteúdo pela mídia. Mesmas coisa que dizer que filmes e livros são para adultos, desenhos e jogos para crianças. Alias, tu mesmo diz que as HQ são usadas como '"meio" para mensagens adultas, subversivas, políticas etc', o que é um livro, filme ou HQ senão um "meio" ?

PermalinkPermalink 20.04.10 @ 14:10



Comentário de: Malva Mauvais · http://malvamauvais.wordpress.com/

Não vou brigar, não, mas continuo tendo orgulho da minha edição autografada pelo Luiz Gê da história de S. Paulo. E da minha coleção de Sandman. E do "Edifício", do Eisner. :)) Uns primores!
Mas que daria uma boa briga, essa questão dos gêneros, lá isso daria....

PermalinkPermalink 20.04.10 @ 15:18



Comentário de: tio patinhas

Pôrra! E tem gente que entra aqui pra comentar "intelectualmente" essa esse papo bobo! Cacete! Você continua o mesmo, gravata. Só fala besteira!

PermalinkPermalink 20.04.10 @ 16:23



Comentário de: Danilo Ferreira · http://autozine.com.br

Cara, eu assino turma da monica, no auge dos meus 30 anos. A desculpa é que é para ficar para meu filho, hoje com 3, mas... eu também leio!

PermalinkPermalink 21.04.10 @ 17:22



Comentário de: flor

Bom não sou mais criança
mas amo HQ.

E vou continuar amando.

Serei uma eterna criança.

PermalinkPermalink 22.04.10 @ 01:57



Comentário de: Bernardo

Este blog era bom, AGORA SÓ TEM ASSUNTO IDIOTA!!!!!!!!!!

PermalinkPermalink 22.04.10 @ 08:55



Comentário de: Lady Metal · http://ladymetal.blogspot.com

Li o texto ouvindo o fino da música infantil norueguesa - Knutsen & Ludvigsen.
Ia justamente perguntar sobre o Crumb (que eu não gosto, pode jogar pedras, eu deixo), mas você mesmo já respondeu.
Sinceramente acho frescura reclamar de filmes de super-heróis, se o troço é bem feito, qual o problema?

PermalinkPermalink 22.04.10 @ 11:38



Comentário de: Cassia

Sabe que essa é uma das poucas vezes em que eu não sei muito bem o que pensar de um dos seus textos?

Lógico que, como sempre, ele está muito bem escrito, e há vários pontos com os quais eu concordo - principalmente com o fato de que as pessoas estão levando os gibis a sério de mais (sim, para ojeriza dos puristas, eu também chamo as HQs de gibis). Mas não sei se concordo que eles são totalmente coisa de criança - afinal, há alguns que realmente não se enquandram nessa categoria - e não me refiro aos com temática "mais adulta", como os do Milo Manara, por exemplo.

No mais, você está coberto de razão. Do jeito que as pessoas andam chatas com relação a esse tema, ultimamente, daqui a pouco ler gibis será como ter uma arma: só será possível a alguns poucos eleitos, que tenham um 'porte' conferido por alguma autoridade superior... credo.

Vocês nos deu bastante em que pensar. Beijos!!!

PermalinkPermalink 22.04.10 @ 18:28



Comentário de: Charada

Trollagem. E o pior é que não colou! O pessoal leu o teu aviso na última parte (rs).

PermalinkPermalink 23.04.10 @ 10:23



Comentário de: Gabi · http://twitter.com/gabidogato

Discordo em parte. O que vc falou até rola pros gibis americanos, mas tem mangás (que pra mim é gibi do mesmo jeito) que é mesmo literatura pra adulto, com O Vampiro que Ri, Espirais de Terror e afins.

Cheers.

PermalinkPermalink 23.04.10 @ 15:55



Comentário de: Claudio

É isto mesmo!!!!
Quadrinhos são claramente uma arte infantil. Tal qual literatura. Afinal, existem livros infantis, logo os livros só podem ser feitos para o público infantil. É isto mesmo. É impressionante este argumento. São iguais os filmes. Filmes são claramente uma arte dirigida para o público infanto-juvenil. Outro dia, vi um western clássico e notei isto na hora. História óbvia, bons contra maus, isto só pode ser coisa para o público jovem. Logo, todo filme é feito para o público jovem. Realmente brilhante. Adorei. Afinal, como qualquer um que conheça um mínimo de quadrinhos sabe que estes se esgotam nos super-heróis, não é mesmo?
Por fim, para que este post conseguisse ficar mais rídiculo (e olha que eu gosto dos dois blogs do blogueiro), ele ainda me vêem com uma babação de ovo absurda em cima de algumas obras de arte (existiriam algumas obras de arte que seriam intocáveis, seria um pecado fazer qualquer coisa ou adapatação destas e por aí vai). Lamentável.
Vamos colocar uma ordem nestas coisas:
1- Igual qualquer linguagem artística, os quadrinhos podem ser destinados a qualquer faixa etária específica.
2- Os quadrinhos não são inevitavelmente infantis ou sobre super-heróis. Aliás, quadrinhos de super-heróis são um SUPER pé no saco.
3- Não sei o que é arte, mas qualquer babação de ovo em demasia é ridícula. Você quer fazer uma adaptação do Dostoievsky para o cinema deturpando toda a obra? PODE!!!! Você quer fazer uma gozação em cima de alguma sinfonia do Wagner? PODE!!!! Você quer fazer alguma colagem pornográfica em cima da Mona Lisa? PODE!!!!!
4- O problema da relação cinema x quadrinhos é muito parecida com aquela do cinema com a literatura (e as críticas são muito parecidas). Entretanto, a crítica majoritariamente ouvida por aí é outra!!!!! Esta diz que os quadrinhos encarcerraram o cinema dentro de sua linguagem. Os filmes atuais feitos sobre algumas histórias famosas parecem refilmagem dos quadrinhos quadro-a-quadro. Nenhum diretor ousou usar a idéia original para fazer outra coisa, utilizando as potencialidades da linguagem cinematográfica. Você vai no cinema e fica com a sensação que leu a história em tamanho gigante.
Saudações
PS: Já que é assim, compra a obra do Lourenço Mutarelli para os seus sobrinhos pequenos.

PermalinkPermalink 27.04.10 @ 13:47



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