HOUSE, O CLÍNICO GERAL

21/03/2010

HOUSE, O CLÍNICO GERAL

Séries de TV não são documentários, mas obras de ficção, fantasia etc. - e aí está a maior parte de sua graça. Imaginem a chatice de LOST sem a criatividade dos roteiristas (tá bom, eles extrapolam). Desta feita, é risível supor que House, seriado médico aparentemente verossímil, não seja totalmente fantasioso.

Ele é. E do começo ao fim.

Pra começo de papo, nada disso tira o mérito da coisa. Eu gosto, não ligo para a fórmula batida:

"Paciente aparece com alguns sintomas, enchem de remédios errados, fazem exames equivocados, tudo piora, já vai quase morrer, enquanto o bonitão vê uma partida de curling comendo tremoço. Então um assistente pede um dos salgadinhos e ele pensa: "tremoço..." - corre até o quarto do sujeito já moribundo e diz: "seu avô visitou Bangladesh quando era moço?" e, sem esperar resposta, inicia tratamento para algum parasita asiático. Acabou."

O erro não está na descoberta milagrosa, nem na sucessão de diagnósticos furados, nem num médico maluco com roupas descoladas vendo uma partida de curling e viciado em opiáceo. Tudo isso é bobagem. São os detalhes feitos para dar charme à série e personagens.

House exerce a clínica geral. Num hospital grande e dos bons, ele no máximo pegaria pacientes com piriri - se o caso for muito grave, nem isso, pois logo passam para o "gastro". Seu papel "real" seria dizer "é virose", seguido do "repouso de tantos dias" e "toma isso aqui". Fim de papo.

Não teria uma equipe, não teria acesso irrestrito à sala de ressonância magnética, muito menos à de cirurgias. Jamais trataria cirurgiões como "inferiores" e, bom, seu salário mereceria um capítulo à parte - para ilustrar, ele nunca daria ordens a um neuro (de formação excepcionalmente melhor) ou um cirurgião plástico consagrado (mil vezes mais rico). As viagens no tempo de LOST são menos inverossímeis.

Para não ficar tão ridículo pro lado do manquetola, dizem que é infectologista (ou epidemologista?) e ainda nefrologista. Mas, ao contrário dos que investigam a cura da AIDS ou realizam trabalhos excepcionais tratando de rins, Gregory faz plantão na Clínica do tal Princeton-Plainsboro, cutucando ranho e remela dos outros.

Provavelmente em busca de alguma dose de realidade, vez por outra tentam passar a idéia de que House seria "viciado em diagnosticar" - de modo que teria optado por tal posição hierarquicamente inferior. Besteira, né? Precisam, de algum modo, preservar a "genialidade" da figura central para agradar aos fãs - e estão certos em fazer isso.

Os caras de LOST talvez morressem na queda do avião ou, se dela escapassem com vida, talvez empacotassem naquela ilha deserta. Mas o legal de tudo é a fantasia, a genialidade dos roteiristas. Em House, não é diferente. Ele poderia apenas passar atestados aos que têm viroses, piriri ou dor de cabeça, mas em vez disso tem sacadas brilhantes, em meio a circunstâncias inusitadas, sempre depois de quase matar o paciente.

Muito melhor! É uma novela das oito, provavelmente da Gloria Perez, e sempre exibindo o mesmo capítulo. Mas num mundo em que a novelista dos rocamboles científicos acerta a mão e não existe Eri Johnson. Pra mim, está ótimo.


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transubstanciado por gravata às 21.03.10 | 10 comentários



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Comentários:


Comentário de: Ed Ondo · http://www.blogedondo.blogspot.com

Por coincidência, hoje que vi o terceiro episódio da série. Já havia desistido por uns tempos por identificar essas fórmulas, mas devo acrescentar que, por outro lado, o divertido da coisa tb são as tiradas e farpas trocadas por todos os lados. Sensacional o desfecho do texto. :)

PermalinkPermalink 21.03.10 @ 16:33



Comentário de: Carlos Eduardo Saraiva · http://invittro.wordpress.com

O que há de interessante em House é sua psicologia e a dinamica com os outros...
Nada mais é que um sujeito com dificuldades de crescer, de assumir responsabilidades apesar de extrema inteligencia. Mas ele pensa que é mais foda que os outros mas justamente por ter esse suporte da Cuddy, que o mima ao extremo.. Alias todo o departamento foi criado somente por causa do House. Medidcos viciados é comum na verdade e medicos suicidas tambem (por mais que ele nao admita, foram tentativas de suicidio)...O House escolhe os casos que interessam a ele (como uma criança que nao quer fazer lição de casa), por isso toda trama envolve doenças bizarras.. Claro que isso nunca aconteceria, mesmo porque um medico com esse comportamento não durar a não ser que tivesse uma mãe (Cuddy) para passar o pano e deixar que ele faça as vontade (obviamente ela cede por culpa e mais ainda por amá-lo), ainda sim a Cuddy estaria na rua junto com ele... .. Outro ponto é ele ser o personagem que faz tudo que um medico não poderia fazer, mas dai vem a questão: se ele seguisse os protocolos nao os salvaria da mesma forma?
Ele mesmo não consegue suportar o desespero de alguem morrer, a unica coisa que o salva é a equipe dele, mas somente um sujeito tão exigente de si poderia exigir o maximo de todo o resto, medicina não é lugar para incompetentes. E vendo por outro lado, são casos que se dariam por perdidos num mundo real...

Se fosse resumir é isso, é alguem que usa toda a justificativa de seus cinismo para não assumir responsablidades a qual um medico deve assumir, e não somente ai como ele carrega isso para a vida afetiva tambem. Toda aquela alucinção com a Cuddy, é como se a mascara caisse.

Na verdade é um sujeito verossimel, nao o medico, mas a pessoa "House", se as historias são baseadas em casos misteriosas, provavlemnte basearam o personagem em um tipo psicologico. Bem, eu gosto da porra do seriado. Mas porque tem algo a mais, o roteiro é incrivel e extremamente sensivel pois lida com esses paradoxos e ambivalencias principalmente do House. .Na verdade esperava que toda a sexta temporada fosse ele na terapia.. Mas ainda falta episodios, quem sabe. ^^

PermalinkPermalink 21.03.10 @ 17:06



Comentário de: André Rocha · http://www.quarentaedois.com

Perfeito. Todo episódio é igual, e ainda assim eu não consigo parar de assistir aquela porcaria.

Na vida real House estaria, no mínimo, desempregado. Provavelmente perderia a licença e possivelmente estaria preso.

PermalinkPermalink 21.03.10 @ 17:24



Comentário de: Caio Costa · http://blogcitario.blog.br

Certa vez fiz um post ironizando como seriam algumas séries americanas caso fossem adaptadas à realidade brasileira e entre elas estava House. Teve gente que não entendeu e começou a dizer que a série é pura ficção, que nos EUA também existe sistema de saúde precário e blá blá blá.

Depois dessa, vi que existe muita gente que leva tudo à sério, ao invés de relaxar e curtir o roteiro dos episódios.

PermalinkPermalink 21.03.10 @ 18:34



Comentário de: D

Gravina, neuro é uma das especialidades mais obvias e simples da medicina. se medicina fosse algo levado mais a serio a clinica geral q seria responsavel por diagx de cunho duvidoso

(Gravz: Verdade, cérebro é moleza, difícil é passar remédio para piriri)

PermalinkPermalink 21.03.10 @ 19:16



Comentário de: rayssa gon · http://presencadapeste.blogspot.com/

e não existe Eri Johnson

foi a unica coisa realmente legal do post inteiro.

PermalinkPermalink 21.03.10 @ 19:25



Comentário de: Karina

Gravata, eu como você sou da área jurídica e meio leiga nesse negócio de especialidade médica, mas, se não me engano, existe sim uma especialidade que é destinada a diagnóstico e medicina geral, e parece que é uma das mais complexas e difíceis que tem. O médico mais fodão e bambambam que eu conheço fez essa especialidade nos EUA, só não consigo lembrar o nome dela.

(Gravz: Existe essa 'função', sim. House, por sua vez, não fez essa especialidade. É epidemologista e nefrologista, mas fica brincando de adivinhação enquanto quase mata as pessoas - mas no final consegue salvá-las. Sempre quando o episódio está quase no fim e durante um estalo depois de alguém falar alguma bobagem)

PermalinkPermalink 22.03.10 @ 08:54



Comentário de: D

Dependendo da diarreia, é mais complexo seu diagnx causal do que uma paresia , hipoestesia,apraxia, desorientacao ou convulsao, ja q as sindromes neurologicas sao muito caracteristica, enquanto uma diarreia pode ser pouco especifica.
Acredite, neuro, é uma das mais simples especialidades da clinica medica, quando se trata de diagnostico.

PermalinkPermalink 22.03.10 @ 14:39



Comentário de: D. Filho

seu avô visitou Bangladesh quando era moço?" kkkkkkkkk, pior que é assim mesmo cara!!!!

PermalinkPermalink 23.03.10 @ 18:12



Comentário de: Aline

Gravata, a especialidade que se ocupa do diagnóstico, manejo e tratamento não cirúrgico (ou conservador, no jargão da área) das doenças raras e graves é chamada de "internal medicine", e o especialista de "physician" ou "internist", que seria algo parecido com o nosso clínico geral.
Epidemiologista não é infectologista (apesar de a epidemio ter começado com o estudo de doenças infecciosas), é um campo de estudo que se preocupa muito mais com pesquisa (ensaios clínicos para testar medicações novas, por exemplo), impacto de tratamentos na população, etc. Não tem utilidade pra cuidar de pacientes individualmente. E qualquer profissional de saúde - médico, enfermeiro, fisioterapeuta, nutricionista - pode ser epidemiologista (se entender bastante de estatística, tanto melhor).
Os comentários práticos, debochados e amorais do House são o melhor da série!

PermalinkPermalink 23.03.10 @ 22:31



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