ST. PATRICK, NACIONALISMO E BURRICE
17/03/2010
ST. PATRICK, NACIONALISMO E BURRICE
Nacionalistas tendem a ser burros, especialmente quando adotam aquela posição de contestar toda e qualquer manifestação "estrangeira", seja festividades ou esportes, lutando para que algo nacional seja posto em maior destaque. E as aspas no estrangeirismo são necessárias, pois mal sabemos o que se poderia denominar "brasileiro".
Hoje, dia 17 de março, comemora-se o Dia de São Patrício - St. Patrick's Day. Trata-se de festividade irlandesa, em homenagem ao sujeito homônimo que teria pregado o cristianismo na Irlanda. Assim como no Natal, evidentemente, ninguém liga para o contexto religioso e o negócio é festejar: a festa de agora é uma ocasião puramente etílica, em especial para a cerveja.
E a cerveja é tão "brasileira" quanto o futebol - quando se trata de algo estrangeiro agregado e adaptado ao longo dos tempos -, daí o sucesso, a rápida adaptação e a facilidade com que tal "dia" se alastra entre a rapaziadinha descolada e tantos outros.
Assim como a gloriosa bebida não surgiu no Brasil (foi na Suméria, ao que parece), o futebol também não começou aqui, mas na Inglaterra - pertinho da Irlanda, terra da data execrada pelos nacionalistas. E não é só isso: uma porção de outras coisas exaltadas por eles, na verdade, são tão brasileiras quanto um esquimó.
Vejam o samba: é africano. Foi trazido da Bahia para o Rio, mas sua origem é inequivocamente africana, tendo sido adaptado ao longo do tempo pelos brasileiros e, até mesmo, mudado de forma brusca depois da intervenção dos nacionalistas que não aceitavam instrumentos de sopro, entre outras coisas (isso por volta de 1920 - sim, sim, eu li o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, que remete à brilhante tese do antropólogo Hermano Vianna). E o músico vetado foi ninguém menos que Pixinguinha. Mas sigamos.
Outro símbolo da cultura brasileira é o Carnaval, festa originada na Roma Antiga e definitivamente estrangeira. Não se vê tais idiotas propondo "Semana do Saci", na época dos festejos de Momo, como fazem quando escolinhas infantis sugerem algo para o Halloween ou agora, no dia de São Patrício. Talvez pela antiguidade do Carnaval - mas suspeito que mais pela burrice, já que poucos conhecem a origem da festa.
A lista já está boa, não é mesmo? Cerveja (suméria), futebol (inglês), carnaval (romano-pagão)... O que é "brasileiro" nessa história? Os índios? Quem desses chatos sem vida sexual comemora alguma coisa para louvar Tupã? Nenhum. E muitos fumam Marlboro, esse verdadeiro ícone da brasilidade.
Por essas e outras, aconselho a todos (com idade bastante para isso, é claro) que aproveitem o dia de hoje, ligando ou não para o contexto da festa. E também aproveitem Carnaval, futebol, cerveja e todas essas coisas ótimas que não são brasileiras. Como o samba, aliás. Já ia me esquecendo do samba, quase tão bom quanto o rock, inventado por negros americanos e melhorado por brancos ingleses.
Um dia a gente acerta uma, tenho fé.
Revisão: Hellen Guareschi
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transubstanciado por gravata às 17.03.10 | 21 comentários
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Comentários:
Reclamei da festa, não por ser estrangeira, pois não sou xenofobista. Reclamei por ser uma festa besta e impopular no Brasil.
Mas aqui você tenta igualar ao samba, carnaval, futebol... acho que não cabe tal comparação.
Mas quem sente que deve comemorar que fique à vontade. Quem sabe um dia a festa é adotada por aqui. Nem que seja por osmose.
(Gravz: BBB é um programa criado, se não me engano, por um holandês. E é bem popular no Brasil. Isso de ser "popular" não confere atributos positivos a algo, pode apostar)
(Gravz: Ué, td bem. Sem problema, brother)
O que mata neste pais é o esforço de ser brasileiro, o desespero pela identidade brasiliera nos faz ignorar tanta coisa legal ou não dar a devida importância por não ser "brasileiro o suficiente". Ou nos damos conta o quanto estamos em vantagem por não ter identidade alguma ou ficamos nesse marasmo cultural, que muito pelo contrário só empobrece nossa maneira de ser..
Mas também mão sei que espécie de merda há na cabeça de um nacionalista com essa obsessão de "pureza"; pode se contorcer até virar do avesso não existe tal coisa..
abs.
http://www.youtube.com/watch?v=rq-64kDj5B0
Você acha que se houverem promoções etílicas (com cachaça, por exemplo) no dia de Nossa Senhora Aparecida, haveria muita polêmica? As pessoas adotariam de boa? Os religiosos reclamariam?
ABS
Só não concordo com a origem do samba - que é inequivocamente brasileira.
O estilo musical que chegou da África era muitissimo diferente do samba, com estrutura e rítmica absolutamente diferentes do samba!
A urna eletrônica é nossa. A feijoada é nossa também, hehehehe.. Enfim.
A miscigenação de feriados é uma rotina. No Brasil, principalmente os feriados cristãos - que tiveram que que se adaptar às festividades pagãs de origem indígena para conseguirem se incorporar às culturas locais.
Isso dá uma tonelada de assunto numa mesa com antropólogos..
Abraço!
Quanto ao texto acima, recomendo pra vc (se vc ainda nao tiver lido) os livros "Comunidades Imaginadas" do Benedict Anderson, e "A Invenção das Tradições", do Eric Hobsbawn. Ambos falam de como tradições com aparência ancestral e com verniz nacionalista podem ser as maiores farsas do universo.
E outra: enquanto esses "totens" inabaláveis da cultura tupiniquim são oriundos de outros lugares, como vc disse, vale lembrar que ritmos como o fado, associados com portugal, nasceram no Brasil (esse sim é brasileiro), como atesta José Gomes Tinhorão (que o Caetano adoooora) em seu livro "Cultura Popular: Temas e Questões".
Um grande abraço de um novo leitor do seu blog, parabéns!
Ps. 17/03, além do dia de St. Patrick, é meu aniversario!
Quem sabe um dia isso muda. O Halloween, por exemplo, tá quase lá.
Ah, eu que não falo um palavra em gaélico, vou treinando o ano todo: moço, me dá uma G-U-I-N-N-E-S-S!
Só acho que não é legal comemorarmos coisas que não tem nenhuma relação conosco. Tudo que foi citado (só tiro daí o samba) veio de fora mas ganhou popularidade por aqui.
Daqui a pouco vamos comemorar também o 4 de julho e o dia de ação de graças.
Acho que não é essa a questão, até porque, se assim fosse, restaria muito pouco a comemorar. Muito pouco há de genuninamente brasileiro.
A questão da birra se justifica (se é que se justifica), simplesmente porque a festa de São patrício não foi incorporada pela nossa cultura, ao contrário de outros elementos culturais estrangeiros (como o futebol, o bbb, a pizza).
Ou seja: não faz diferença se a data é ou não brasileira, a questão é que a data nunca pegou por aqui (como acontece, inclusive, como inúmeras datas festivas brasileiríssimas).
Areluia, grória Dels
Nossa, se você não tivesse esse verdadeiro momento de iluminação, eu juro que nunca saberia dessas coisas.
Obrigado por nos agraciar com a sua enorme sabedoria.
Uma observação: O Futebol já era praticado na China muito antes dos ingleses levarem o esporte para o resto do mundo.
"D'ól mé, ólaim, agus ólfaidh mé arís"
"Bebi, bebo e vou beber de novo"
Como ser contra uma festas destas ou falar que está contra a cultura brasileira ?
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