CARIOCA É BAIRRISTA ATÉ COM MIJO
03/03/2010
CARIOCA É BAIRRISTA ATÉ COM MIJO
Não gosto de bairrismo, exceto quando é para fazer algum tipo de gozação - nesses casos, aceito piada de humor negro e deixo de lado boa parte da correção política. Vejam, por exemplo, o bairrismo carioca. Ontem, fiz piada com a cerveja "Devassa", lembrando que é parte do grupo Schincariol e questionando sua qualidade.
Meu Deus!
Parece que mexi com a integridade do Cristo Redentor! Aparentemente, ameacei explodir o Pão de Açúcar! Se a contestação qualitativa da cerveja fosse feita em rede nacional, num programa de relativa audiência, seguramente receberia abaixo-assinado e texto feroz de algum "carioca por adoção" - ou mineiro ou nordestino -, os mais ferozes defensores do Rio (como Ruy Castro ou algum pau-de-arara do Pasquim).
Há algum tempo, expliquei essa raiva dos cariocas, e é claro que os entendo. Do início do século até 1950, por aí, o Rio era o centro de tudo. Mas, de repente, as coisas ficaram feias. Mudaram a capital, mudou o eixo econômico, o centro cultural se diluiu e com isso houve alguns efeitos colaterais - futebol, p.ex., pela atração natural da força da grana. Ainda há cocaína, é verdade.
E praias. Muitas. Tirando a poluição das águas, as praias são lindas. Mas até que ponto isso faz uma boa cidade? Imaginem o triste cidadão que acorda em uma magnífica casa em Paris, olha ao seu redor, e constata: "DROGA, NÃO TENHO UMA PRAIA!". O mesmo em Berlim, Londres, ou até NY (se quiser algo parecido, corra para Coney Island...). Mas o carioca de Bonsucesso não tem esse azar: ele tem praia (e esquistossomose, a depender da proximidade do córrego a céu aberto).
O carnaval... Getúlio Vargas foi do Rio Grande do Sul até o Rio, onde humilhou a cidade inteira instalando uma ditadura (nem vou dizer quem resistiu ao ditador...). Em sua sanha fascista, GV pôs ordem no samba e INSTITUIU o carnaval desfilado, sem instrumento de sopro e apenas os marciais, tudo cronometrado, em alas etc. Hoje, é um símbolo da cidade.
Alguns blocos resistem, e isso é saudável. Mas nem tudo é "salutar", pois há uma multidão mijando pelas calçadas. Quando soube disso, imaginei uma reação raivosa dos cariocas, pois foliões ousavam urinar em sua cidade das maravilhas. Qual nada! Defendiam, ali, o xixi derramado! As desculpas eram ótimas, e a principal era a seguinte: "os banheiros químicos não eram muito limpos". É mole? Porque as ruas, com seus ratos, baratas e cocôs, como sabemos, são limpíssimas.
Mas entrar no campo do bairrismo é fria. Ou melhor: não é. Porque os paulistanos não temos exatamente bairrismo, nem esquentamos a cabeça com isso. Para os cariocas - sério - é uma briga perdida. Nós, de São Paulo, somos filhos ou netos de italianos, espanhóis, portugueses - fora aqueles que vieram do interior, do Sul (Paraná, SC, RS), e ainda muitos do nordeste ou até mesmo do próprio Rio de Janeiro (não são poucos os que largam a maravilha de viver perto da praia pelo infortúnio de um emprego decente).
Muitos vêem nisso uma legítima virtude por parte do povo do Rio. Talvez seja, mas discordo. Defender um espetáculo nascido de aspirações fascistas? Brigar por causa de uma cerveja? DEFENDER O MIJO? Declino. Ter "amor" por uma circunscrição territorial não está dentro dos sentimentos que me parecem mais nobres - ou sábios.
E parece o último refúgio, aquela coisa desesperadora depois de que se perdeu tudo. Enquanto grandes potências se vangloriam de suas conquistas (sei lá, peguem os EUA para comparação), caboclo bate no peito defendendo o direito de urinar na calçada, ou o sabor de uma "ruiva gelada" ou as alegorias e adereços de alguma escola da Sapucaí. Ah, sim, e as praias.
As maravilhosas praias que faltam àquele desgraçado do exemplo, o pobre-coitado de Paris. Ou ao infeliz dono de um apartamento ao lado do Central Park. Londrinos, berlinenses, entre tantos outros. Sorte, mesmo, tem quem mora em Quintino Bocaiúva, Ramos, Abolição, Coelho Neto. Só precisa ficar de olho na hora de mijar na rua.
(sem revisão, só na raça e na malandrági)
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transubstanciado por gravata às 03.03.10 | 30 comentários
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Comentários:
Ótimo texto, Gravz, again.
Já provei a Devassa e não gostei, mas não pelo fato de ter sido comprada pela Schin.
Se fosse assim a Eisenbahn(SC) seria ruim também. E na minha opinião é a melhor cerveja do Brasil (das que eu já provei).
Quanto a São Paulo é sem dúvida uma cidade feia com um trânsito horroroso, eu acho o paulista meio lento. Mas achei que os ônibus funcionam maravilhosamente e o metrô é um sonho. Vocês votam no Alckimin, Covas, Serra. ( Mas já votaram no Maluf, na Relaxa e Goza etc... )
Não somos perfeitos.Mas digo meu sonho de consumo é ir morar um dia numa cidade do estado de São Paulo. O Rio lindo, lindo. A paisagem invade os olhos, mas não basta ser bonitinha tem que ter conteúdo.
E olha que eu gosto do Rio , vou muito pra lá... E lá o que tem??? Lindo, paisagens lindas... Muita gente fei e mal educada!!! E sim, muita gente bonita.
Mas... Ter praia não é vantagem pra ninguém, até porque os cariocas mais inteligentes e bonitos vão à praia na região dos lagos que dá umas 3 horas de carro.
Se for assim, nosso litoral também é lindo e tem gente muito bonita...
Ah, não sou carioca ou paulistana. Aliás, gosto muito mesmo de São Paulo.
Engraçado, defender essa "cerveja" seria o mesmo que ver um paulistano orgulhoso pela poluição exceto que nunca verá um paulistano orgulhoso disto.
Bairrista carioca tem um puta desprezo pela zona oeste e parte da zona norte, e se acham melhores que as pessoas da baixada - acham que lá só tem sujeira e gente burra. Mesmo eu nunca gostando de morar em Bangu, sei que ali tem algumas vantagens. Só não me peça para enumerá-las
E quanto aos blocos, eles nunca deixaram de existir, muito pelo contrário (opa, adivinha onde?!); hoje em dia os blocos só aumentam.
No mais, quero que todos os bairristas tomem no cu. Todos! Olha como eu não tenho preconceito!
Acho que vou embora pra Mina, velho.
Qualquer cidade grande, as chamadas grandes metrópoles, têm seus defeitos e qualidades, podem ser seu inferno ou céu, acho q isso depende mais do seu "estado de espírito" do que do estado geográfico.
Assim como não são todos os paulistas que falam "mano", "xaveco" e "tetas", não são todos os cariocas que falam "nem", "qualé" e Bróaaaadeeer". Qualquer generalização é burra, assim como o bairrismo.
Grande abraço Gravata, ótimo texto, como sempre, mas cuidado com a generalização, ela costuma ser injusta.
Quanto aos barristas.. moraria em várias outras cidades do Brasil, mas acabaria voltando sempre pra minha provinciana Vila Velha, que aqui é chamada de "cidade dormitório" por quem mora em Vitória.
Mas garanto que a melhor coisa que Vitória tem é a vista pra Vila Velha.
rs
Em meu simplório blog escrevi, em 05/04/08, post intitulado "Rio de Janeiro : O que é maravilhoso, afinal ? ". É um texto sem bairrismo ou qualquer tipo de preconceito e nele tento apresentar os pontos cruciais daquela que é chamada de 'cidade maravilhosa'. Morei lá, muitos anos atrás, conheço os detalhes sórdidos locais e, apenas apenas para constar, indico alguns problemas que a mídia e os bairristas fingem não perceber.
Se alguém quiser dar o prazer da visita ao meu texto, basta localizar, nas postagens antigas do blog, o período de 30/03 a 05/04 na coluna março/2008.
Saudações a todos.
Isso parece... bairrismo...
Um resumo perfeito: "Ter 'amor' por uma circunscrição territorial não está dentro dos sentimentos que me parecem mais nobres - ou sábios". Vale pra muitos outras demonstrações de jactância esquisitas, mesmo as que não envolvem fronteiras geográficas, né não?
Numa disputa de bairrismo entre o
mineiro, o paulista e o carioca. O resultado é uma barbada. Empate triplo.
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