GENTE QUE DIZ "NÃO ME ARREPENDO DE NADA"

09/02/2010

GENTE QUE DIZ "NÃO ME ARREPENDO DE NADA"

Há pessoas infalíveis e não são poucas, talvez sejam até maioria, a depender do universo pesquisado. E é justamente uma máxima popular que permite essa constatação (todos já a devem ter ouvido):

- Não me arrependo de nada que já fiz!

Costumo relevar esse tipo de arroubo, como quando dizem "deus ajuda quem cedo madruga" esquecendo dos bóias-frias, ou seja, pronunciam disparates pensando em minimizar alguma bobagem irreversível ou, vá lá, para externar arrogância (intimamente, porém, sentindo a dor do que fizeram).

Mas e se realmente falam a sério?

Alguém já analisou a trajetória de vida dos que "não se arrependem"? Escolham aí, a esmo, qualquer um. Tá, ok, não sejamos irresponsáveis: peguemos dez ou vinte e passemos a uma revisão dos fatos e acontecimentos marcantes das vidas desses sacripantas.

Não se trata de empáfia e arrogância, mas teimosia caricata e folclórica: verdadeiras coleções de fracassos e apanhados de tropeços. Já os verdadeiros vencedores, talvez por timidez ou certo pudor, tentam não mostrar muito entusiasmo publicamente (salvo exceções), e dizem que tudo poderia ser diferente, atribuindo alguns êxitos à sorte - no Brasil, há certa raiva coletiva dos que se dão bem em qualquer campo, exceto quando estes se comportam como se o sucesso fosse obra do acaso ou de deus.

Já os perdedores (não falo aqui apenas de vitórias materiais) são os que são vistos - e se colocam - como os heróis, e não apenas pela própria arrogância, mas muito por culpa de quem os consola, em geral com aquela conversa de que ele foi "legítimo merecedor" ou "roubado" ou até "campeão moral".

E a coisa piora. Em alguns casos, a pessoa é MESMO culpada pelo fracasso, não é vítima de coisa alguma a não ser de seus próprios atos. Nessa hora - e esse é o centro da tese do texto -, em vez de repensar tudo e reavaliar suas atitudes, o que faz é... NÃO SE ARREPENDER (isso serve para carreira acadêmica, profissão, vida amorosa etc.). É uma bizarrice inexplicável!

Tudo na vida é um "aprendizado"? Sim, é possível ver dessa forma, desde que a ÚNICA E PRINCIPAL LIÇÃO - porque óbvia - seja a seguinte: NÃO REPETIR O ERRO. E disso se tira uma constatação simples: houve arrependimento, pois, em caso contrário, bastaria repetir o mesmo lapso N vezes (o "não-arrependimento" seria exatamente isso, ora!).

Ah, sim. O que esperar de quem "não se arrepende de nada"? Estoicismo espartano, força de vontade imbatível, frieza existencial. Mas já conversaram com tais pessoas? São sempre as mais passionais e emotivas, chorando copiosamente a cada nova situação, dessas das quais... JAMAIS SE ARREPENDERÃO!

Para completar de vez a doideira desse samba do arrependimento louco, muitas se dizem católicas. E aposto que não me perdoarão por este texto, nem entenderão as duas contradições dogmáticas quanto à sua fé, expostas não tão implicitamente assim, aqui neste parágrafo. Quanto a isso, eu que não me arrependo.


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transubstanciado por gravata às 09.02.10 | 17 comentários



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Comentários:


Comentário de: Alguém do seu twitter ;)

Entrei poucas vezes no seu blog, a primeira me chamou a atenção seus comentários sobre a nossa grande astróloga e a pouco pesquei seu link no twitter e comecei a ler sem parar.
Sem puxação de saco, mas acabo de gostar muito do jeito que escreve, parece alguém próximo contando seus pensamentos e suas histórias com um texto direto, sem rodeios, me parece tão sem medo de julgamento alheios. E Pegando o gancho do seu texto, me fala quantos desses que escreveu e se arrependeu? bjs

(Gravz: Sério, por que não colocar nome?)

PermalinkPermalink 09.02.10 @ 23:23



Comentário de: hellen

'não me arrependo de nada' é coisa de gente que acha que 'deus escreve certo por linhas tortas'... e usa essa desculpa pra continuar errando e colocar a culpa numa 'força maior'.

PermalinkPermalink 09.02.10 @ 23:35



Comentário de: Cássia

E tudo o que eu tenho a dizer é: você é foda!!! Mesmo me ignorando solenemente...

PermalinkPermalink 09.02.10 @ 23:36



Comentário de: Mefna

Acho q tão grave quanto, ou talvez pior do q os q "não se arrependem", sejam os q dizem "eu sou assim mesmo", geralmente seguido de "ñ posso mudar" ou "ñ vou mudar pra agradar alguém".
Engraçado q geralmente essas pessoas dizem isso defendendo seus comportamentos irracionais, os ciumentos, briguentos, os q agem sem pensar nas consequências dos seus atos perante outros. É uma desculpa para uma falha, nunca presenciei alguém usar essa expressão para justificar uma virtude.
O q ñ se pode mudar é a altura, a cor dos olhos, o carater pode sim ser trabalhado, ñ para "agradar", mas para gerar uma convivência melhor em familia e/ou sociedade e principalmente, a própria vida.

PermalinkPermalink 10.02.10 @ 08:39



Comentário de: Douglas

Gravata, leitor assíduo do teu blog, tenho que discordar de alguns aspectos, lembrando que certo ou errado, erro ou acerto, são questões de ponto de vista. Uma pessoa que segue um caminho que não a levou ao sucesso, necessariamente, pode não se arrepender daquilo que consegui, mesmo que seja uma falha.

Gostaria de falar mais, porém o assunto é complexo.

De resto, o pensamento é bem interessante.

PermalinkPermalink 10.02.10 @ 08:48



Comentário de: Gisele

Gravata, o povo quer saber:

quantos e quais os textos você se arrependeu de ter escrito?

(Gravz: Vários. E não apenas de textos, em si, mas de trechos, partes, palavras. Se entrasse nessa paranóia, passaria o resto do tempo mexendo, editando, trocando frases ou parágrafos inteiros. Um dos motivos de mandar pra Helen revisar não é apenas corrigir minhas cagadas, mas também parar de mexer tanto no que faço e dar por terminada a coisa toda :D)

PermalinkPermalink 10.02.10 @ 09:08



Comentário de: Carlos Saraiva · http://invittro.wordpress.com

Não sei, sucesso e fracasso podem ocorrer de forma inesperada.. Essa frase já ouvi de pessoas de "sucesso", depois de passarem por dificuldades e dilemas e realmente conseguem encontrar algo que funciona, sentem que mesmos os erros foram necessários ao menos para ver o que não funciona..

Mas sim, tem essa forma asquerosa, de colocar a responsabilidade no outro, ou em Deus, ou no acaso ou em leprechauns... E isso ocorre em muitas formas, o fracasso passa a ser um ato heroico. Como você mesmo disse, no fundo são pessoas sensiveis ao fracasso e nada mais é um forma imatura de lidar com isso. Não se permitem sentir a perda ou perca, negam até a ultima gota de sanidade e bom senso. Já passei por isso, não foi facil ver que estou mais para um fdp do que para vitima.. Mas é libertador de certa forma.

PermalinkPermalink 10.02.10 @ 09:26



Comentário de: Malva Mauvais · http://malvamauvais.wordpress.com/

Taí... Não havia pensado no assunto dessa maneira. Um chute no saco (que não tenho). Vou colocar aqui um ponto de vista um tanto diferente pra coisa: sou das que não se arrependem de nada, mas não só nunca anunciei assim, de boca cheia, como não considero motivo de orgulho ou vaidade. Para mim, trata-se de outro ponto: não me arrependo simplesmente porque só fiz o que pude, da maneira possível, nas circunstâncias que se apresentaram. Nem de longe significou que não sofri, não dei com o burros n'água ou não aprendi. Acho que é uma ausência de arrependimento pelo que há de inescapável no passado. :)

PermalinkPermalink 10.02.10 @ 11:23



Comentário de: indy · http://adapt-se.blogspot.com

Gravata vc esta falado de mim? r´ss.
Eu ja usei essa frase zilhões de vzs,apesar de me arrepender sim,nao queria dar o braço a torcer.Eu sei que sou culpada pelos meus fracassos.Ja dizia o Mario Quintana:

O pior dos problemas da gente,é que ninguem tem nada com isso.

Bjo´s

Amo seu blog.

PermalinkPermalink 10.02.10 @ 11:42



Comentário de: José Carlos

"Uma das definições de louco é a pessoa que continua repetindo um mesmo comportamento, esperando resultados diferentes" (retirado do livro "happy hour is for amateurs"). Conheço várias pessoas que se encaixam nessa definição. Quem nunca se arrepende não admite os próprios erros e atribui os fracassos a Deus, destino, azar, inferno astral etc.

PermalinkPermalink 10.02.10 @ 11:45



Comentário de: Diduca

Na verdade, entendo que a maioria das pessoas usa essa máxima de forma errada. Elas querem dizer que erraram, mas aprenderam muito com isso e agora não cometeriam mais o mesmo erro. E é claro que, nesse caso, é errado e contraditório dizer que "não se arrepende", já que, como vc mesmo observou, se não vão mais agir da mesma forma, é porque se arrependeram.
Na verdade, vejo essa máxima, assim como váaaaaaaaaaarias expressões e máximas populares, como uma forma errada de dizer o que realmente se pensa.
Agora, eu tenho MEDO, mas MUITO MEDO, de quem REALMENTE não se arrepende de nada do que fez durante toda a vida!

PermalinkPermalink 10.02.10 @ 13:20



Comentário de: André · http://twitter.com/andreaquino

Eu acho que usa de uma premissa de que só é possível repensar (ou simplesmente pensar) sua atitude ao se arrepender. Não acho essa premissa válida.


Não me arrependo de nada do que fiz e não faria nada diferente. Obviamente fiz muita merda, mas elas levaram para o momento atual da minha vida, momento este que considero bom. Talvez se eu tivesse tomado outra atitude nas burradas que fiz, minha vida tivesse seguido por outro rumo. Não me arrependo das minhas escolhas enquanto minha vida continuar me satisfazendo.

No dia que eu resolver comprar pão e um carro me atropelar na calçada e me deixar tetraplégico, esse será o dia que eu de fato vou me arrepender da escolha que fiz. Ou com qualquer outro caso derivado.

(Gravz: Entendi. Quando você tem culpa, não se arrepende. Mas, na hipótese de um motorista ser culpado, aí você terá arrependimento. Brilhante. Ok, não é brilhante)

PermalinkPermalink 10.02.10 @ 13:23



Comentário de: André · http://twitter.com/andreaquino

Não entendi, gravz. Você criticou o exemplo, não o argumento. Vou lhe dar outro exemplo, então, satisfazendo seus padrões: Imagine qualquer outro exemplo em que a culpa seja minha, como uma ultrapassagem perigosa que acabe na morte da minha família e de todos os outros envolvidos. Ok, pode criticar agora

(Gravz: Não, aí está ok. Você deu um exemplo que invalida TODO seu argumento. Como você poderia ter arrependimento por algo de que não teve culpa? Seria bem estranho. Agora, nesse caso, realmente faz sentido. Você passa a imputar "gradação" ao arrependimento. Só para coisas graves, portanto. A morte da família é algo digno de seu arrependimento. E se for só uma pessoa da família? E se um ente querido perde apenas um dedo? Ou dois dedos? Ou três? A partir de que momento seu "arrependimento" é acionado? Eis as questões. Mas, havendo arrependimento em alguma circunstância, significa que você concorda com o texto, mas apenas o resguarda para determinadas ocasiões - resta saber o que merece tal deferência)

PermalinkPermalink 10.02.10 @ 13:59



Comentário de: Beatriz

Sua maneira de escrever mudou, há algum tempo atrás era divertido, entrava no blog principalmente quando estava nervosa era uma maneira de se divertir. Ultimamente isto já não acontece mais sinto que estou lendo aqueles artigos que falam coisas que todo mundo sente, mas ninguém precisa ficar falando.
Adoro seu jeito de pensar ou pelo menos o de escrever, acho sinceramente que o que você escreve deve refletir sobre o que você possa estar vivendo. Sinceramente prefiro o Gravata engraçado, mesmo assim ainda entro no blog todos os dias, leio todos os textos e me as vezes gosto de alguns, mas de você eu gosto sempre.

PermalinkPermalink 10.02.10 @ 14:18



Comentário de: adam smith

Esse é um ponto bem interessante. E parece que aqui o sentimento de coitadismo é comum.

So relatando um paralelo, sofri diversos anos no alcoolismo ativo, minha vida era uma merda, e so colocava a culpa disso nos outros, afinal eu fazia tudo certo.

Apenas depois de dar muito murro na ponta de faca eu resolvi rever os meus conceitos, parei de beber e estou conseguindo o que queria.

Se eu me arrependo? Sim, seria bom se eu pudesse voltar, e evitar de ter perdido tanto tempo, ter perdido tantas coisas, enfim, podia ter aberto o olho antes. Mas eu nao posso mudar o passado, e viver de arrependimento nao da. O que eu posso fazer do passado é como voce disse, usar como um lembrete constante de como as coisas podem ser dependendo do caminho que eu tome.

Alguns podem dizer "ah mas se eu nao tivesse passado por todas essas coisas, nao teria o discernimento que tenho hoje". Acho isso bastante questionavel, uma vez que se tivesse tomado atitudes diferentes, ou pensado melhor, nao teria passado pelo que passou. Enfim.

PermalinkPermalink 10.02.10 @ 15:57



Comentário de: Rafael

put's.. viivo me arrependeendo.. ahsuash... pelo menos 1 vez por dia, nuum tem jeeito ..

PermalinkPermalink 10.02.10 @ 16:33



Comentário de: Lais · http://www.lanomundodela.blogspot.com

Concordo que a maioria das pessoas que dizem não se arrepender de nada do que fizeram se referem aos erros que, consequentemente, geraram aprendizado. Só que esse argumento é, no mínimo, contraditório. Se tem a consciência do erro é pq tem, pelo menos, a intenção de não persistir nele, o que já é um arrependimento pelo ato feito. Quem nunca se arrepende, aprende a não se responsabilizar pela própria vida e pelo mal feito aos outros. Querem se refastelar na merda e arranjam desculpas mais do que esfarrapadas. Eu me arrependo de inúmeras coisas, mas não tinha maturidade ou discernimento suficientes para fazer diferente, na época (ou não tive vontade mesmo, hehe). Eu diria que eu me perdoo. E assim vou vivendo...

PermalinkPermalink 10.02.10 @ 19:36



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