UM RACIOCÍNIO MEIO BURRO DOS CIBERATIVISTAS
08/02/2010
UM RACIOCÍNIO MEIO BURRO DOS CIBERATIVISTAS
Conheço um "ativista da cibercultura" que viaja pelo Brasil lutando por nós, vocês e eu, em especial quanto aos direitos de quem navega na web. Quem custeia os passeios é o Ministério da Cultura, dando-lhe passagens de avião e ótimas hospedagens. Com isso, ele vai aos mais variados eventos difundir várias ideias e, entre outras, defende o seguinte: compositores devem abrir mão de seus rendimentos com direitos autorais.
Não são egoístas, pois, sem os rendimentos dos compositores, haveria menos contribuintes a pagar impostos e, com isso, talvez menos viagens e hospedagens – ou hotéis de categoria inferior. Eles realmente estão preocupados conosco e com a cibercultura. Tá, tudo bem, não acredito nisso. E nem vocês. E, sejamos bem honestos, nem eles. É pura abobrinha.
Sim, os "compositores". Quando falam em música e decretam a falência do atual modelo, não estão errados. De fato, a coisa está feia e os músicos ganham, mesmo, com os shows. Mas isso diz respeito ao comércio de música, não aos direitos autorais, em si. A facilidade com que canções circulam, agora por meios "imateriais", faz com que seja quase impossível controlar seu fluxo. Mas não... SUA EXECUÇÃO PÚBLICA, notadamente nos eventos de grande porte.
E aí estão os ganhos de artistas e compositores. Porque, sim, são figuras distintas num mesmo universo. Exceto, é claro, para o "ativista da cibercultura". Para ele, as analogias são sempre voltadas ao mundo do PC, e usando raciocínios os mais toscos, como quando querem convencer um programador a usar software livre, na base do "não é legal ganhar dois milhões vendendo uma licença, o bacana é compartilhar o código fonte e passar o resto da vida consertando computadores numa sobreloja na Ponte Rasa".
O que dizem aos compositores? Em primeiro lugar, ignoram a existência dessa categoria. Presumem que TODO CANTOR SEJA TAMBÉM COMPOSITOR, pois simplesmente dizem "o artista ganha com o show". Isso mesmo. Ponto final. E o compositor faz o quê? Pega um pandeirinho meia-lua e batuca pra tirar uns 10% da renda? Porque, se ele ganhar um percentual em cima da execução da obra, lamento dizer, mas estamos aí diante da cobrança de direitos e, desse modo, há o COPYRIGHT, nada menos que DIREITOS AUTORAIS SOBRE A OBRA. Ele continua dono (nunca deixaria de ser, o que é óbvio).
Desse modo, a falência – inequívoca – da indústria fonográfica está adstrita à VENDA e não à AUTORIA. Tanto menos teria cabimento exigir do compositor que compareça ao palco para ganhar como EXECUTOR e não pelo que de fato produziu. A ditadura coletivista precisa ver limites no ridículo de suas teses. Retirar do compositor seu direito de receber pelo próprio trabalho e talento é uma espécie de "stalinismo vocacional".
Então por que fazem isso? Porque precisam. Sim, precisam. Estão comprometidos com essa idiotice de que as obras "não têm dono" e, nesse caso, o pobre coitado do compositor não deveria receber qualquer grana pelo fato de ter criado uma obra – pois isso implicaria no fato de que, bom, ele é o "proprietário" de sua própria criação (meio ridiculamente óbvio, não é mesmo?).
E esse compromisso com tese tão risível se dá porque, em tese, ela chega ao mundo do software e, assim, também não querem que um programador seja "dono" do programa que criou. Enfim, é mais ou menos isso. Basta seguir o raciocínio com qualquer tipo de produção humana intelectual.
A ideia é fazer de conta que ninguém é "dono" do que cria – fingindo que não há evolução na produção científica quando há estímulo dentre aqueles com talento e capacidade para produzir. Você é dono de uma casa, que comprou com seu dinheiro obtido por meio do trabalho, mas – para eles – não deveria ser "dono" de uma música, livro ou software criado também por meio de trabalho. O motivo? Não são bens materiais. Podem rir, mas não de mim.
Ah, sim! Se você é de alguma forma contrário a esse raciocínio, imediatamente é tratado como inimigo mortal. Muitas vezes, por exemplo, pode até ser chamado de filho da puta. Mas seus impostos continuarão pagando passagens e hospedagens para que ativistas façam seus discursos nos mais variados eventos. Essa última parte, infelizmente, não é optativa.
Não há os revolucionários de sofá? Pois há os de poltrona de avião e caminha de hotel. Tá pensando o quê?
ps.: Claro que não são todos! Obviamente, trato aqui de casos específicos. Há muitos militantes que são, sim, pessoas de muito boa fé etc. etc. etc. Mas, na parte dos direitos autorais, desculpem, o raciocínio continua mocorongo. :)
Revisão: Hellen Guareschi
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transubstanciado por gravata às 08.02.10 | 12 comentários
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Comentários:
(Gravz: Nunca o vi falar sobre isso, mas há muitos que defendem mesmo essas teses)
Ainda é possível fazer bons negócios e ganhar dinheiro.
Quanto ao exemplo que você deu: esse tipo de ciberativista me preocupa, porque o povo compra fácil o discurso dele. As pessoas não fazem idéia de quanta gente trabalha pra porcaria um único MP3 ser feito. Fora o compositor e os intérpretes, tem arranjador, produtores, engenheiros de som pelo menos. Sem contar os custos que cada profissional teve por conta da própria educação. Ninguém nasce sabendo como tocar violoncelo nem como pilotar pro tools...
O artista pode se beneficiar da autoria sem ter que impedir a cópia digital da obra. Isso já acontece no portal Jamendo (www.jamendo.com), onde todas as obras são creative commons, e eles vendem serviços de execução pública, repassando aos artistas. Ou seja, o pulo do gato está no serviço, na experiência e, no caso do jamendo, na seleção e na cobrança para o uso comercial, deixando o uso privado livre.
Não acha esse raciocínio menos mocorongo?
PS: Também fico com um pé atrás com os funcionários públicos militantes de poltrona de avião e cama de hotel (ahaha) por isso que o esclarecimento e discussão tem que estar na sociedade civil. Mas o Brasil é tão Estatista...
(Gravz: Nesse caso, o compositor continua DONO da música, e o que muda foi exatamente o que eu disse: o MÉTODO DE DISTRIBUIÇÃO. Quem criou a música é dono da obra. Fim de papo. Pode chamar como quiser, mas continua sendo DIREITO DO AUTOR, logo, PROPRIEDADE INTELECTUAL. Mas, vá lá, gostam de dar nomes bonitinhos a isso)
Sou um compositor, meia boca admito, não tenho a frustração de não ser aceito, sempre me comforto com a idéia de aprendizado... Mas vejo muitos exemplos de caras talentosos que poderiam desenvolver muito mais, mas precisam dividir-se em outras ocupações para manterem esse "hobby". E no fundo acaba se tornando apenas isto, um hobby, um frustrante hobby...
Não é questão de ser rock star e milhonário, é a liberdade.. Falo dos que ainda não tem notoriedade, pois é ainda muito mais difícil para estes.. Acabam por nascer em um meio que já os condenam..
Se o modelo atual de direitos autorais fosse justo, os criadores do super-homem não teriam morrido pobres.
Se o modelo atual de direitos autorais fosse justo, as herdeiras do Guimaraes Rosa não estariam ganhando a vida extorquindo qualquer um que queira criar alguma coisa baseada na obra do Velho.
Nunca vi ninguém defendendo que compositores ou programadores abram mão de seus direitos. O que há é debate para que as autorias sejam reconhecidas e recompensadas ao mesmo tempo em q isso não atrapalhe a divulgação e a recriação das obras.
(Gravz: Tá, traga seu modelo e deixe o discurso-de-dois-exemplos para lá. Afinal, se você tivesse um modelo justo, certamente o teria trazido ao debate. Qual exatamente é ele? Ninguém é dono de nada e os criadores de Superman ficam ricos? Ninguém é dono de nada e os herdeiros de Guimarães Rosa são punidos, sendo que imediatamente surgem gênios da literatura, esses que misteriosamente são "impedidos de criar" por alguma força da natureza? Sério, Daniel, respira fundo aí, enxuga a baba e volta com algum argumento)
(Gravz: O "Copyright" também permite isso, dentro de certas limitações - determinado número de compassos etc. E, com a permissão específica do autor, você pode fazer o que quiser. De mais a mais, o "copyleft" SEMPRE dependerá da anuência do autor, ou seja, há uma renúncia específica e pessoal a esse direito. Ele sempre existirá, portanto)
(Gravz: Sejamos bem honestos, ok? Já viu algum defensor de download que baixa teses e peças científicas? Todos - todos! - baixam músicas e filmes. E todos - todos! - têm grana para comprá-los. Enquanto houver essa hipocrisia patente, desculpe, fica até ridículo falar em "eliminar os atravessadores culturais". Nego baixa pra não gastar na loja daí vem com papo)
Esta discussão é muito complexa e não trivial. A distinção entre a casa e o bem imaterial (vamos chamar de informação) é bem clara. Para reproduzir a casa, isto vai implicar custos. Se tenho uma casa e alguém a toma de mim, eu fico sem a casa. Agora, com a informação, isto não ocorre, sua reprodução (de uma informação que JÁ EXISTE) se dá a custo zero. Eu tenho uma informação e a passo para você, eu não fiquei sem a informação (como na casa), agora A CUSTO ZERO, somos dois com a informação. Se a reprodução da informação se dá a custo zero, do ponto de vista social, é interessante que esta seja reproduzida ao infinito.
O problema se refere à produção de novas informações. É aqui que começa o problema. Um sistema de patentes (copyrights) busca alcançar o que seria o melhor resultado social. A nova informação não é livremente reproduzida por certo tempo (causa perda de bem estar social) mas incentiva a produção desta (causa ganhos de bem-estar social). Mas notem, a determinação da duração ótima destas patentes é muito pouco óbvia devido aos efeitros extremamente danosos que este poder de monopólio inicial podem gerar (é um problema complexo onde opiniões simples, infelizmente, são completamente erradas).
Por fim, no caso das músicas e dos citados atravessadores acima. Estes existem sim. O poder de mercado de gravadoras, rádios e editoras antes da Internet era estúpido. Eram estes que ganhavam a fatia do leão. Se alguém está tão preocupado assim com os músicos (tanto compositores quanto com os intérpretes), eu faço uma pergunta singela. Quantos bons músicos tiveram sua carreira completamente bloqueadas, antigamente (pré-internet), devido à brutal concentração do mercado cultural? Quantas boas bandas de rock tiveram suas carreiras bloqueadas devido a este mesmo poder de mercado? Sou da década de 80 e é espantoso como só o lixo do lixo conseguiu emplacar nesta estrutura (que até hoje acontece). Negar a existência do JABÁ é a coisa mais estúpida que existe. Negar o poder de entidades como a OMB ou o ECAD é infantil ("OMB, ECAD, vamos acabar com esta turma, meus compadres" citando o excelente Zumbi do Mato). Mais uma vez, esta discussão é complexa e não sabemos ainda qual é o modelo ideal, mas cair neste romantismo bobo de dizer que downloads são "roubo", aí não.
Por fim, me desculpe, mas baixo teses científicas, sim. E estas são gratuitas em todas as boas universidades que já acessei.
(Gravz: Então resolvido. As teses científicas são gratuitas - até porque são, mesmo, basta ir a qualquer biblioteca. Você consulta e, por meio delas, produz seu trabalho. A sociedade cresce assim. Qual o benefício social de QUEBRAR A PATENTE DE UMA MÚSICA? Nenhum. Pode-se ouvi-la à vontade [rádio, p.ex.], mas daí a tirar a titularidade autoral? Desculpa, conta outra. Isso é conversa-mole)
