TEMOS MEDO E VERGONHA DO SEXO
05/02/2010
TEMOS MEDO E VERGONHA DO SEXO
Nas sessões de exibição vespertina de filmes televisivos, é totalmente admissível, para a 'sociedade', que passem cenas de tiroteio, morte, sequestro, lutas, espancamentos e toda sorte de crimes. É totalmente proibido, porém, a exibição de cenas de sexo. Se for explícito, de qualquer modalidade, daí não pode ser exibido em qualquer horário. Ponto final.
É difícil usar a lógica para explicar as razões pelas quais isso acontece. Sim, é hábito, "é assim que funciona" etc. Mas por quê? Por que motivo ninguém tira as crianças da sala quando alguém, num filme, massacra meio mundo com uma metralhadora, mas muitos trocam de canal quando um casal dá início a carícias mais ousadas? Não faz o menor sentido. Não deveria ser assim.
Vejam o caso das telenovelas: claro que há sexo, mas todo ele é implícito, em táticas de edição que são verdadeiros clássicos. O casal vai para o quarto, geralmente à noite, fecha a cena, e no instante seguinte já amanheceu e ambos tomam café. Todos sabemos o que houve. Mas, vá lá, para mostrar corrupção de agente público ou qualquer outra coisa que também faz parte da vida, não há choque algum que seja tudo explícito.
Nenhuma associação conservadora envia carta ou promove abaixo-assinado reclamando do corrupto mostrado ali, em horário nobre, como fazem nos casos raros em que alguma emissora audaciosamente mostra algo mais sexy. Talvez deem os parabéns, dizendo que há toda uma função pedagógica, denunciando as falcatruas do poder, tal e coisa. Mas o sexo, bom, aí é melhor esconder. E assim vamos.
Chega de TV. É um exemplo, um reflexo, claro que a coisa escapa daí. Uma amiga esclarecidíssima, progressista, politizada, certa vez foi surpreendida por uma pergunta inconveniente e de bate-pronto (minha, claro): "Você prefere encontrar um maço de cigarros ou uma carta do namorado gay no quarto do seu filho?" – ela demorou para responder, não pela dúvida quanto à resposta, mas sim diante da vergonha. Ela preferiu o cigarro.
Forçando a barra: Ela preferiu altas chances de câncer a ter um filho gay, a doença fatal à livre escolha quanto ao sexo. Mas, claro, foi uma resposta de supetão. Tenho certeza que, como mãe e com o amor falando mais alto, ela jamais daria essa resposta. Ainda assim, isso não deixa de ser intrigante.
Depois disso, repeti a "brincadeira" em várias outras ocasiões, como uma espécie de experimento macabro. Muita gente responde da mesma forma, em seguida refletindo sobre o que disse. Alguns (não são poucos), contudo, mantêm a opinião do maço de cigarros, de forma convicta, o que não deixa de ser significativo.
Talvez tenhamos medo ou vergonha do sexo. Ou ambos. O engraçado é que não se trata de algo errado, não é um crime, e ainda assim sua exibição é vedada por normas sociais e algumas efetivamente jurídicas. Mas ninguém se choca quando mostram cenas de crimes, ou quando começam a conversar numa roda sobre algum tipo de contravenção. Nada disso nos aterroriza ou nos envergonha a ponto de alguém pedir silêncio.
Dizem que vincular pudor e sexo é uma forma de tornar este último mais interessante, uma maneira de incutir mistério e, talvez por isso, ampliar alguns campos da fantasia e do desejo. Mas, seguramente, há uma distância imensa entre o jogo da conquista e a hipocrisia moralista que impera em todo o mundo.
E há aquela história do "eu prefiro fazer a falar". Bobagem. É fuga do próprio medo, da própria vergonha. Ninguém fala porque todos foram criados, e isso há gerações e gerações, para ter medo e vergonha do sexo. É evidente que todos (em tese) preferem fazer. Todos também preferem velejar, mas isso não impede que se converse sobre veleiros. Isso vale para a gastronomia e assim por diante.
Será que, quando perdermos medo e vergonha do sexo, ele perderá a graça? Ou talvez não falte isso para que fique ainda melhor? Talvez valha a pena correr o risco.
Revisão: Hellen Guareschi
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transubstanciado por gravata às 05.02.10 | 33 comentários
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Comentários:
Esse é um dos poucos aspectos que me arrependo na vida: ter me deixado levar poe essa hipocrisia enquanto sempre me levei pro lado liberal, anarquista e ateu em outros aspectos da minha vida.
Cenas de sexo é um estímulo muito forte que não acho que minhas filhas precisem ter tão cedo. Ao ver cenas de sexo, invariavelmente e em diversos níveis, ficamos excitados e não quero dividir isso com minha mãe, meu irmão e tampouco com minhas pequenas.
Já quanto aos políticos... bom, não acho que seja comparação. Sobre temas como esses, se achar que há entendimento por parte delas, prefiro falar sobre o assunto. Assim como falo sobre sexo. Quando solicitada. Mas com certeza sem gemidos ou demonstrações maiores.
O sentimento de vergonha sobre o assunto foi assintosamente IMPLANTADO, assim como questionamentos sobre inferno e sobre Deus, sobre bondade ou julgamentos. Sem um estímulo à reflexão (como esse texto, por exemplo)a comunidade simplesmente aceita, e caimos no "é assim que funciona". SEXO é algo que está encrustado em nossa vida e sociedade, assim como o pudor que atribuímos a ele. Parabéns Gravata.
acho que a privacidade é mais uma coisa que diferencia os seres racionais dos irracionais.
é claro que todo mundo faz sexo, uma das evidencias é que a gente está aqui e tem mais gente chegando a cada dia.
mas precisa mostrar na tv aberta? o motivo pelo qual não mostram é porque temos medo de sexo?
ui que medo, o filme pornô deveria chamar-se de filme de terror?
"menas quantidade de poblemas", Gravz.
(Desculpem a agressividade do "pau duro", mas se estivessemos em outra discussão e eu escrevesse "suborno", "prevaricação" ou "estripado", ninguém acharia pornográfico... é, talvez vc tenha razão, temos medo e vergonha do sexo)
Neste caso pode-se educar a criança e fazê-la mudar de idéia e, então, nada de cancer.
No caso do homossexualismo, como sabemos, será fato consumado.
(Gravz: Um gay não tem "educação"?)
abraços e como sempre. Parabêns. Quanto a corrupção, política e etc. O problema é a banlização. Todo dia e todo lugar tem, quanto a sexo.....
Não é pudor, entende? É preservar quem a gente ama.
Ah, não assisto filmes com gente sendo morta e etc. E passo longe - por mais estranho que pareça - de ser chata ou politicamente correta.
Beijocas
tiroteio, sequestro, lutas, violencia em geral sao problemas sociais. dizem respeito ao coletivo.
sexo e' algo intimo.
eu nao tenho nem vergonha nem medo da minha intimidade, apenas faco questao de protege-la para que continue sendo o que e', intima.
essa discussao e' ainda fruto da tessalia?
(Gravz: Depende muito. Há muitos crimes que se referem ao caráter da pessoa e, desse modo, são igualmente íntimos. Não precisamos ir muito longe, pois telenovelas mostram detalhes sórdidos de irmãos tramando roubar a fortuna de outro irmão - cadê a coletividade aí? E por mais que a Jussara tire suas crianças da sala, ninguém mais o faz. Uma cena de suicídio, num filme ou algo do tipo, também não faz com que se mande cartas para emissoras. Mas tente mostrar uma penetração. E são dois casos "íntimos" e não "coletivos". Por fim, que tal uma passeata com o povo nu? São manifestações coletivas que ocorrem sempre, no mundo todo, mas os telejornais não mostram ou, quando o fazem, colocam tarjas. Por quê? Cadê a "coletividade"? Mas não escondem as bombas quando transmitem imagens de guerras. Nem cadáveres. Desculpem, mas essas teses em que se tenta esconder o pudor... Convenhamos, né?)
Você pode explicar a uma pessoa sobre os malefícios do cigarro etc.
O mesmo princípio não se aplica à questão homossexual.
Por isso, o exemplo é falho.
(Gravz: Ok, vou reformular também. O cigarro traz malefícios, isso é inegável. Causa câncer e outras doenças. E a homossexualidade? Por que você prefere o risco do câncer, já que nem todos os fumantes conseguem parar [poucos, aliás], à idéia de ter um filho homossexual? Em que medida a POSSIBILIDADE de tantas doenças graves é menos incômoda que a idéia de um filho que prefira pessoas do mesmo sexo para transar? Qual o "malefício", portanto, de ter um filho gay?)
Numa segunda leitura, porém, dá pra perceber o silogismo: o sexo é tabu nesta e em várias civilizações e culturas, antigas ou contemporâneas. Já a violência, não. Pelo contrário, a violência já a base de certas sociedades e ainda é largamente tolerada, quando não encorajada. Então, me parece evidente que se fale ou mostre mais a violência do que o sexo.
Pensei em outros pontos, mas vou ruminar um pouco mais e escrever algo lá no meu blog.
Gosto dos seus textos!
Abraço.
E você foi esperto na sua pergunta, colocou algo que faz mal à saude (cigarro) em contraponto a uma orientação sexual, que não tem nada de malefícios à saúde.
Aí eu também serei maldoso em minha pergunta. Imagine que você vai mostrar um filme pra um menino de 5 anos. Você prefere mostrar um desenho animado que tem várias cenas de violência (tipo o do papa-léguas - árvores caindo na cabeça do personagem, bombas explodindo e deixando ele todo queimado, com cenas de queda do personagem caindo de um precipício) ou um filme da Sasha Grey, de sexo explícito, com muito carinho entre os atores?
Agora, com todo respeito que devo a você e a sua família, e partindo do ponto que você faz isso como um experimento, deixe-me então experimentar você:
-Você prefereria ouvir da sua mãe que ela adora dar o fiofó para estranhos, ou ouvir seu irmão dizer que é gay???
Claro que não estou tentando desrespeitar sua mãe ou irmão, por favor, não me leve a mal....
Me diz!!!!! Não é totalmente incoveniente e incômoda uma pergunta besta dessa???
E sim, somos todos hipócritas e como disse um moço acima, deve ser muito chato ficar de pau duro na frente do pai e principalmente da mãe.
Na minha visão tratou-se de um post de caráter retórico, ou seja, é mais uma reflexão sobre um fato do que propriamente uma crítica ferrenha ao padrão comportamental da sociedade.
Permita-me apenas me ater ao dilema "tabagismo ou homossexualidade".
In my humble opinion, ambas as escolhas são péssimas.
O problema da homossexualidade não é na orientação sexual em si, e sim na homofobia.
Não vivemos em um mundo onde todos são esclarecidos quanto a isso... Existe muito preconceito, muita perseguição.
É por essa razão que eu não gostaria que meu filho fosse gay. Não é por eu ser homofóbico, e sim por ele ser obrigado a enfrentar a homofobia.
você ofereceu uma escolha dupla.
Por óbvio que você quis insinuar que ambas não seriam escolhas boas, caso contrário não faria sentido a proposta.
É muito falso afirmar que se escolheria o cigarro, por causa de vergonha.
Se eu tenho duas escolhas ruins (como você mesmo sugeriu na pergunta), logicamente vou escolher a condição não definitiva (de ex-gay eu nunca ouvi falar).
Se há condição de se manter o status quo até então vigente, que não implicava em nenhum prejuízo físico ou social ao filho, qual pai não preferiria continuar assim?
Ah, claro, sem hipocrisia, por favor.
(Gravz: A escolha do gay é uma escolha "ruim" por quê?)
A crianca nao sentiria duvidas? nao se sentiria tentada a fazer algo igual sem condicoes minimas de entender as implicacoes?
Ah sim, como seria tudo aberto e sabido, nao haveria problemas nao é? Afinal todo mundo ja conhece ne... os parentes poderiam até mesmo dar "dicas" ou iniciar as criancas, sabe incesto nao seria um problema nao, afinal, qual a diferenca em uma sociedade amplamente sexualizada?
Ja que seria escancarado na sua visao, pois é algo normal, entao nao rolaria nenhum problema em ter pessoas transando em praias, ao ar livre, como caes.
Voce ja chegou a pensar que o acesso a sexualidade foi restrito porque criancas sao incapazes de entender as implicacoes disso? Alem do mais quem quer ver cenas de sexo explicito que alugue um filme ou use a internet, a liberdade está ai.
Talvez as regras de sexualidade como incesto, pedofilia, sexo explicito foram criadas por algum motivo voce nao acha?
(Gravz: Por que você não incluiu, na pergunta, crianças do sexo masculino? Só as meninas são inocentes? Filhas e sobrinhas não podem ver nada disso, mas filhos e sobrinhos, ah, aí sim...?)
Qual acesso uma criança "normal" tera a uma metralhadora ou a uma negociata? Nenhum creio eu.
Qual o acesso que uma criança tem ao sexo? É só colocar a mao no meio das pernas!
Dai a questao de se evitar que uma criança aprenda a fazer sexo com 7 anos e nao se evite que ela veja algume usando uma metralhadora ou levando vantagem em alguma negociata.
(Gravz: E o suicídio?)
Mas Gravata, claro que todos vão dizer que preferem achar o cigarro. Afinal, existem milhares de ex-fumantes, mas nenhum ex-gay. Um único cigarro não causa câncer, mas se queimou a rosca é para sempre.
Nao tente distorcer pra essa conversa de feminista, o que eu menos tenho é preconceito de genero. Pra mim tanto homem quanto mulher é livre pra fazer o que quiser, desde que o faca de maneira que nao seja constrangedora. Eu sei que voce nao entende, mas existem convencoes sociais.
(Gravz: Não distorci nada. Nada. Você pôs as crianças apenas no gênero feminino. Muitos o fazem. É um dado interessante, sim)
Quando AMBOS estiverem na adolescencia serao capazes de procurar por si proprios.
vc quis dizer que a criança iria "se suicidar" ao ver cenas de violencia?
Nao creio nesta hipotese pois na maioria das vezes o "vencedor" é quem mata mais e nao quem morre!
(Gravz: Você falou que as crianças são expostas àquilo a que não têm acesso, partindo da premissa de que são totalmente suscetíveis a fazer qualuqer coisa que vêem na TV. Daí o fato de que negociatas, e até armas, possam ser mostradas. Mas o sexo, não. Ok. E o suicídio? Nesse caso, cenas de gente se matando, que não são raras, aparecem na TV numa boa, mas não há suicídios infantis coletivos. Por quê? Talvez porque a influência televisiva seja menos do que você supunha, não é mesmo? As pessoas fazem o que acredita ser bom, e não TUDO que vêem na TV. Matar [sobretudo a si próprio] não é bom, sexo sim. E há uma dose de moralismo nisso. Fico aqui me divertindo com os malabarismos retórcios de você. E é divertido constatar que o suicídio sirva a duas desculpas. Também valeu quando falaram em "intimidade", alegando que o sexo não poderia ser visto por ser de foro íntimo. Os suicidas também tomam decisão íntima e mesmo assim aparecem dando cabo da própria vida. Mas transar, que é MENOS íntimo porque envolve duas pessoas - e se alguém tem dificuldade no conceito, por favor, pesquise o que significa "íntimo" e "imo" -, isso não pode aparecer. Evamoquevamo!)
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