POBRISMO DE BUTIQUE
31/01/2010
POBRISMO DE BUTIQUE
Lembro do primeiro ano na faculdade, era 1996, e havia um amigo com uma mania provavelmente trazida do colégio, de vestir-se como 'rapper'. Mas vamos ao tipo: rico, muito rico, e evidentemente branco. Era – e talvez ainda seja – relativamente comum esse negócio de garotos ricos e brancos usarem indumentárias como aquelas dos músicos de rap da periferia de São Paulo.
E então um outro amigo, esse sim batalhador e de família muito pobre, mas ganhando um salário razoável porque era funcionário público concursado, certa feita interpelou o 'rapper riquíssimo':
- Cara, você acha legal ser pobre? Você é rico, todo mundo sabe que você tem grana, não entendo por que você usa essas fantasias de pobre, de maloqueiro. Você não é! Eu pego metrô, ônibus, acordo cedo, ralo pra caramba, pago conta, sustento uma parte da minha casa, e quero sair dessa o quanto antes. Você, que tem tudo, parece que quer ser eu! Não dá pra entender... Por que você faz isso?
O carinha, que era mesmo gente boa, apesar dessa bobagem do visual, ficou desconcertado, tentou argumentar qualquer coisa, explicou que respeitava os amigos "da bocada" (sim, usou esse termo), disse também que entendia o drama do "bróder", mas por óbvio continuou como "mano" até a metade do curso. Depois, é claro, tomou jeito e apareceu de terninho, tal e coisa. Arrumou também uma namorada. Vida que segue.
Mas desde esse dia guardei comigo uma lição importantíssima. Tinha ali de dezenove para vinte anos e, embora não tivesse pendores de imitar Racionais MCs, também achava bonito o enaltecimento da pobreza. Ali, depois da bronca de alguém que vivia pra valer a desgraça das privações, passei a ver com outros olhos esse 'charme' imputado às coisas 'alegoricamente despojadas'.
É possível que muitos parem com esse tipo de babaquice também com essa idade, mais ou menos quando também deixamos de lado simpatias socialistas e ideias mirabolantes de todo gênero. Mas alguns insistem – em tudo isso, diga-se. O "pobrismo de butique", sem dúvida alguma, irrita sobremaneira.
Há uma zona cinza imensa entre esbanjar dinheiro (sobretudo não o tendo) e enaltecer a miséria (em especial a 'caricatura da pobreza’). A pessoa tem uma remuneração adequada, um carro bom, paga as contas e sobra uma grana, tem até aplicação financeira. Então, sério, POR QUE INSISTE NISSO DE "BOTECO COPO SUJO"?
Não, não é legal. Todo mundo sabe que não é legal. O sujeito que está num bar desses simplesmente não vê a hora de SAIR dessa situação. Basta surgir a primeira oportunidade e ele imediatamente vai para outro lugar, obviamente melhor, ambiente menos detonado etc. Nenhum pobre gosta de ser pobre. Aliás, nem o falso pobre gosta da pobreza. Explico.
Em São Paulo, quando se fala em "copo sujo", ninguém vai MESMO para um bar boca-de-porco. Vão para a Rua Augusta, que é tão 'do mal' quanto meu amigo 'rapper'. Lembro de frequentar alguns barzinhos por ali, já que era perto de minha faculdade, há coisa de quinze anos. E JÁ ERA normalzinho, não tinha nada de 'underground', nem nada de 'copo sujo'. É só barato, mesmo.
Querem sentir o prazer da noite? Sugiro bares do CAPÃO REDONDO, PONTE RASA, ITAPECERICA DA SERRA, DIADEMA, FERRAZ DE VASCONCELOS e afins. Ué? Não gostam de um copinho sujo? Não são "da quebrada"? Não são "dos manos"? Não são "do rap"? Ah, precisa ser no centrão? Ok... Rua Aurora, Cracolândia, Baixada do Glicério. Vai lá, valente!
"Baixo Augusta", né? Baladinha pra fazer de conta que é alternativo, entra, toma vodca e paga 150 mangos. Super pé-sujo.
Talvez isso tudo tenha nascido ou mesmo ganhe força como forma de responder aos riquinhos esbanjadores, e nisso haja mesmo alguma legitimidade. Mas, no fim das contas, em vez de afirmação, o tiro sai pela culatra. Os burgueses acham tudo ainda mais engraçado e os pobres, podem apostar, são os grandes ofendidos da história, pois sua desgraça real é tratada como uma espécie de experimentação exótica casual.
E, claro, com a devida assepsia. Porque os "pobristas de butique" apenas fingem essa simpatia com a pobreza, mas na verdade jamais querem por perto algum pobre de verdade (vejam como alguns deles, jornalistas, falam de pessoas como Geisy ou Steffhany, p.ex.).
São como os turistas estrangeiros que fazem aqueles passeios pelas favelas cariocas, mas num circuito protegido e maquiado – nunca passariam dois dias num barraco de verdade, enfurnados na miséria de quem vive ao lado de córregos abertos.
Gostam de boteco "pé-sujo", mas vão com os tênis da moda. Pedem a "breja de garrafa, num preço camarada", mas pagam com cartão internacional. Com o garçom, fingem camaradagem, e vão embora de carro novo. Ele não. Ele volta de busão, de manhãzinha.
É péssimo ostentar riqueza, verdade. Mas o que dizer de quem emula e enaltece a pobreza? Se bem que muitos, na verdade, até que ganham mal, mesmo. E aí temos uma categoria engraçada: estão sempre duros, fazem de conta que têm grana, mas estão ali apenas "fingindo dureza".
Freud se mataria.
Revisão: Hellen Guareschi
Posts similares:
ELEMENTOS OBRIGATÓRIOS NUM BARZINHO MODERNEX
Notas de uma vida com HD
A Invisibilidade do Privilégio (Você É um Privilegiado?, 1)
transubstanciado por gravata às 31.01.10 | 17 comentários
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Comentários:
Moro no Jd. Vaz de Lima, 5 min. do capão redondo em si, onde tenho muitos amigos e onde frequentemente estou. Sei o que é um "copo sujo"!
Em um ponto do texto tu diz:
"A pessoa tem uma remuneração adequada, um carro bom, paga as contas e sobra uma grana, tem até aplicação financeira. Então, sério, POR QUE INSISTE NISSO DE "BOTECO COPO SUJO"?"
Eu tenho a oportunidade de vez ou outra frequentar lugares melhores, mas pq ñ frequento? Ñ frequento pq o problema ñ é o lugar e sim as pessoas! Prefiro mil vezes estar em um "bar boca-de-porco" sabendo realmente quem é quem ali, do q estar em um ambiente "um pouco melhor" como dizem, sendo que 80% das pessoas que estão ali são puramente obras daquilo que elas querem mostrar q são, se é q me entende.
A humildade das pessoas no bar boca-de porco é muito mais evidente do que nos outros lugares, onde vc chega e as pessoas te medem de cima a baixo.
(Gravz: Cara, é a sua área, são seus amigos de infância etc. Nem se discute)
Só um addendum! ¦-]
[]s,
Este é o famoso texto "voadora no peito e tapa na cara" que muita, mas muita gente mesmo precisa ler, pensar, reler, pensar e começar a repensar as atitudes e palavras.
Como âncora do PENSACAST, confesso que foi um prazer para minha alma ler um post deste no fim do meu fim de semana.
Dá pra respirar fundo e dizer: "Ufa! Ainda tem gente pensando por aí!"
Abrasss!!!
Canso de ver nego falar de pobreza e aparecer de tênis que custa mais de R$ 200,00. Nego falar de consicência social e sequer se preocupar com o que vem a ser isso.
Incentivo a mais posts desse tipo Gravata.
Como dizem: "Quem gosta de pobreza é quem nunca foi pobre".
Abraço meu velho e parabéns pelo Lingerieday. Fantástico!
(Gravz: Graaaaaaaaaaaaaaaaaaaande, Ricardinho! Porra, como me lembro! Aqueles manés milionários que deixavam cavanhaque de três metros e pintavam de azul, tomavam coca cola e fingiam que estavam doidões. Vontade de socar a cara, lembra?)
Já o tipo que vê romantismo na pobreza não me incomoda. Pior é o que vê ÉTICA nela: acha desvio moral ir a um lugar limpo, mas não namora mulher pobre NEM FO-DEN-DO. Ela que apareça macia e cheirosa pra usar banheiro sujo e rachar a conta. À sombra da falta de homem no mundo, viceja o finório...
Tenho amigos assim e gosto deles, apesar de querer trucidá-los. Difícil decidir. Bom, levando em conta o famoso PAU AMIGO... sabe como é, né? Decidi: vou trucidá-los.
