BANCO ESCOLAR X CULTURA POP
21/11/2009
BANCO ESCOLAR X CULTURA POP
Gosto muito de seriados e, anteontem, vendo o terceiro episódio de "V", refilmagem do clássico oitentista, assustei com um erro de tradução. Porque não foi meramente lapso cometido ao verter o texto, mas uma grande cagada contextual. Falha grave de conhecimento histórico basilar. Explico.
A série trata visitantes (daí o "V") extraterrestres e há um grupo traidor, também de ETs. Esse grupo, denominado "Fifth Column", foi traduzido nas legendas como "Quinto Pelotão". Voltei algumas vezes para ver se era isso mesmo. E era. Fiquei bem chateado.
Todos sabem – presumo – a origem da expressão "Quinta Coluna". Em alguns lugares é até gíria, como "Judas" e afins. Mas vamos lá: a coisa começou na Espanha, no sentido literal, quando os militares madrilenhos, apoiadores de Emilio Vidal, foram assim por ele denominados enquanto suas tropas marchavam para lá. O termo voltou com fascistas e nazistas e assim por diante, já de forma não tão literal: o simpatizante do invasor seria chamado de "quinta coluna" (explicação BEM rápida).
E não tome isso como spoiler, amigo leitor obcecado por cultura pop, pois a série até nisso foi inventiva. Não é piada.
Aliás, praticamente toda obra de cultura pop é repleta de referências históricas, filosóficas, científicas etc. Escolham qualquer coisa: filmes, gibis, seriados, músicas. Os autores, pelo visto, não são tão superficiais quanto a maioria dos fãs e, de certa forma, tentam passar algumas dicas. A principal delas: tudo isso é muito foda, é entretenimento de primeira, mas também é bom estudar e ler uns livrinhos vez por outra.
A segunda parte costuma ser solenemente ignorada.
Vejam, por exemplo, as obras de Allan Moore. Algumas, como "V de Vingança", "Watchmen" e "A Liga Extraordinária", exigem conhecimento histórico, político, literário, filosófico e assim por diante. Tudo bem, qualquer idiota lê e entende a historinha. Mas perde 90% do conteúdo e das referências interessantíssimas – precisando ler aquelas "dicas" nas páginas finais.
Mesmo quando passam para o cinema, é triste perceber a falta de referências mais concretas da rapaziada do oba-oba. Em V de Vingança, escolheram a abertura de "1812" como música inicial das ações do tal "terrorista". Em Watchmen, na tal cena dos helicópteros no Vietnã, a Cavalgada das Walquírias não é meramente referência a Apocalipse Now, mas sim – nos dois casos – referência à infantaria nazista que marchava ao som da mesma música.
Matrix é bom exemplo, também. Copia descaradamente Os Invisíveis e, também, Neuromancer – duas obras "pop" anteriores. Mas, até aí, morreu Neves. Porque ambas também copiam obras anteriores e, ademais, Matrix também utiliza uma miríade de outras referências. Mas, para o culturapopista, valem apenas as chupinhações desse gênero. Não falam de Platão, cristianismo ou mesmo Baudrillard. A briga central é se o verdadeiro criador do "conceito" foi Grant Morrison ou William Gibson. Dói no saco, né?
Mas o que esperar? Quando uma expressão até boba como "quinta coluna" é vergonhosamente ignorada, todo o mais passa a ser erudição. Mas NÃO é. Jamais será. É o mínimo, o básico, o fútil. Estudantes de faculdades medíocres leem o libreto bocó da caverna, aquele do Platão. Isso bastaria para matar a charada simplória de Matrix e ganhar mais 40% de exegese. Ninguém precisa se matar nos estudos, não.
E muitos desses, independentemente da barbárie que deve mesmo ser execrada, encontram força e coragem para tirar sarro da intelectualidade dos alunos da UNIBAN.
Revisão: Hellen Guareschi
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transubstanciado por gravata às 21.11.09 | 1 comentário
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