BLOGUEIROS E CAETANO VELOSO
14/11/2009
BLOGUEIROS E CAETANO VELOSO
Um blogueiro escreve sobre tecnologia e, ainda nessa temática, aborda diversos tópicos: celulares, note e netbooks, sistemas operacionais, impressoras, monitores etc. Poderia ser chamado de especialista, mas a verdade é que não trata apenas disso.
Também fala de filmes. Algo em especial? Não, obviamente: aventura, ficção científica, romance, comédia, policial, guerra, enfim, qualquer coisa. É um quase profundo conhecedor de todo o cinema mundial - depende muito da pré-estréia pra qual foi convidado.
Gastronomia também é praia de blogueiro. Restaurantes, lanchonetes, bares... Da alta culinária aos petiscos e porções aparentemente mais simples, nada escapa de sua espantosa capacidade analítica. O mesmo vale para as bebidas. Pode discorrer sobre champanhe, cachaça ou café. De sommelier a barista em dois parágrafos.
Claro, política. Pode ser partidário ou exercer militância ligada a uma causa nobre, isso é o de menos. Mas sempre apresenta sua participação inteligente em favor ou contra determinado item da agenda mundial. Ou nacional. Ou estadual. Ou de sua própria rua. Nunca se omite, ainda que seja para jogar uma 'hashtag' no tuíter, mudar a cor de seu avatar ou enaltecer os esforços de algum militante democrático (não importa que seja um amigo).
Podem achar, neste parágrafo, que estou de galhofagem, mas um blogueiro fala também de física quântica. Sim, e fala com propriedade (vale lembrar o caso do CERN). Sob o pretexto de discutir o "fim do mundo", não foram poucos os textos - ou TRATADOS? - sobre tal especialidade da física.
E segue pela literatura, artes em geral, esportes, publicidade, direito, medicina, urbanismo, apicultura, exploração submarina de petróleo, táticas de guerra, videogames, sexo (não é piada), histórias em quadrinhos, maquiagem, vegetais orgânicos, séries televisivas, telenovelas, festas...
Obviamente, blogueiros falam sobre Caetano Veloso. A opinião a respeito do compositor é uma e apenas uma. Invariavelmente a mesma em qualquer que seja o blog. Todos dizem a mesmíssima coisa, independentemente do fato da imprensa procurá-lo, (e olha que ele próprio já teve um blog). Mas o que dizem sobre Caê? Isso:
"Caetano se mete a falar sobre qualquer coisa"
Vai discutir? São blogueiros. Sabem de tudo.
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transubstanciado por gravata às 14.11.09 | 3 comentários
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Comentários:
Caetano é "neguinha"
SÃO PAULO - "Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro." Diante da ira que provocou nos companheiros, Caetano Veloso voltou ontem às páginas de "O Estado de S. Paulo" para comentar esse trecho da entrevista que havia concedido.
O compositor lembrou que o próprio Lula se vangloria da sua fala pouco instruída e que é forte inclusive por isso. E avisou aos petistas: "Dizer que FH era mau governante e Lula é bom é maluquice. Ambos foram conquistas brasileiras importantes. Marina seria um passo à frente". Sobre esse último ponto, podemos brincar: "menas, menas".
De resto, os embates entre Caetano e a esquerda remontam aos anos febris do tropicalismo. É duvidoso que o lulismo seja de esquerda, mas Caetano, de novo, se põe à esquerda da esquerda, dando mais um nó no coro dos "progressistas": "Detesto essa mania de que nada se pode dizer que não seja adulação a Lula".
Quem teve a felicidade de ver seu show no fim de semana pôde presenciar a homenagem a Neguinho do Samba, negro semianalfabeto, um dos fundadores do Olodum na Bahia, morto há poucos dias: "Influenciou mais a mim e provavelmente a vocês da plateia do que a obra inteira de Lévi-Strauss. Isso é o que eu teria a dizer aqui sobre analfabetismo e preconceito".
O ápice, porém, foi a interpretação de "Eu Sou Neguinha?" -acompanhada no palco por uma gestualidade que valorizava de maneira ostensiva e lúdica a interrogação sobre a identidade sexual do cantor.
Caetano é um dos maiores artistas brasileiros -isso já é sabido. Mas é também um espírito livre e um intelectual incomum num sentido muito preciso (e talvez o único verdadeiramente precioso): sempre está no debate público de sua época sem subordinar convicções e ideias a cálculos táticos ou conveniências políticas. Ousar pensar pela própria cabeça, sem a tutela do grupo ou medo da patrulha da maioria: por que não? Por que não?
