MISANTROPIA, PSEUDOMISANTROPIA E PIADAS
22/09/2009
MISANTROPIA, PSEUDOMISANTROPIA E PIADAS
Ao contrário do que me acusam, não tenho a menor vocação para a misantropia. Gosto muito das pessoas, apenas não consigo chegar muito perto de algumas delas. Mas a maior prova de que gosto é o fato de dar risadas sinceras diante de uma porção de coisas realmente engraçadíssimas.
Hoje, por exemplo, comemora-se o "Dia Mundial Sem Carro". Tecnicamente, apoio a iniciativa, mas ao mesmo tempo não consigo fazer muitas coisas sem ajuda de meu veículo automotor (exceto se for para a padaria ou algo assim). Espero que os apoiadores do movimento entendam meu drama.
A parte engraçada do negócio é a seguinte: os entusiastas da efeméride desmotorizada são, em sua maioria, pessoas que já não usam carro ou portadores de máquinas, como Uno Mille, Chevette, Belina 79 e quejandos. São, por assim dizer, como mendigos lutando pelo "Dia Mundial Sem Compras de Luxo".
Querem outra? A turma que reclama da "falta de politização do povo brasileiro". Entendo a gritaria, juro, mas muitos deles bradam contra esse analfabetismo político com um exemplar da Caros Amigos debaixo do braço. Difícil segurar a gargalhada nessa hora. E é até perigoso quando estamos com algum líquido na boca: cusparada inevitável.
Também rio muito quando deploram as "músicas do povão" para, em seguida, enaltecer a "boa MPB", dizendo que de um lado está algo pobre e de outro manifestação cultural rica tal e coisa. Para um músico erudito, usando aí sua régua cultural, tanto axé quanto Taiguara são ridículos. Um mais, outro menos? Nem isso.
No fim, é tudo bobagem. Cada um gosta do que gosta e fim de papo. Mas a turma da "boa MPB" não vai por aí e insiste na própria régua da mediocridade: tudo que está abaixo de si é inculto; o que está acima é exageradamente erudito. Só resta dar risada, obviamente.
A mesmíssima coisa acontece com a Língua Portuguesa. Caem matando quando algum infeliz solta "pra mim fazer" ou algo assim. Mas confusões do tipo "onde/aonde" pululam em textos de gente aclamada como "inteligente" e, nesse caso, quem corrige é chamado de "Pasquale" — como se o conhecimento de uma regra do primário fosse algo próprio de um linguista renomado.
E há também os pseudomisantropos. Vão às festas e ficam sozinhos, são motivo de chacota e não pegam nem gripe suína em temporada de pandemia. Mas, para tentar enganar a todos e talvez até mesmo a si próprios, dizem: "não gosto de gente".
Não tem como não gostar de gente. As pessoas são engraçadíssimas. A grande maioria nos faz rir como qualquer piada jamais conseguiria. Claro que não dá para conviver com tanta gente assim e, com mais de seis bilhões neste planeta, há material de sobra para boas gargalhadas.
Pessoas normais e relativamente felizes enchem uma ou duas mesas de bar e interagem nas festinhas. Não precisamos, mesmo, de mais do que isso.
Ah! Ia me esquecendo... Provavelmente, senão seguramente, também somos objeto das piadas alheias. Não sei vocês, mas eu sinceramente não ligo. Desde que, claro, não cheguem muito pertinho.
Revisão: Hellen Guareschi
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transubstanciado por gravata às 22.09.09 | 10 comentários
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Comentários:
Você é o protótipo da evolução perfeita!
vc nao é misântropo é apenas sorumbático ou no máximo taciturno.
Poderia mencionar que boa musica brasileira para um músico erudito seria Vila Lobos.
E gente "normal" simplemente não existe.Sob algum aspecto todos nós somos bizarros.
No mais, apreciei o texto.
Agora,não se esqueça que vc claramente é engraçadíssimo,afinal em qualquer post com perguntas do repertório feminino que vc declara que conhece muito bem,vc é o Pasquale,sempre.Ai da coitada que escorregar.
(Gravz: Ninguém compra carro pra dar uma de "bacana", exceto idiotas. Carro é uma utilidade e, em alguns casos, conforto. Quem pensa assim - como sua amiga - já pensa errado. Agora, se ela acha que pode, mesmo, peça para comprar um Jaguar. Daí a gente conversa)
Me lembrou um episódio que me aconteceu ano passado na faculdade, quando no último período de direito um professor substituto perguntou pra turma como se escrevia ojeriza. Só tinha uns gatos pingados na sala. Aí eu soletrei a palavra para o prof, e os outros alunos ficaram me olhando como se eu fosse uma homicida-em-série-maníaca-do parque...
(Gravz: Com esse 'r', aí entre 'e' e 'm', nada)
Parabéns, belo texto, bacana sua visão, mas discordo do fato de que "alguém possa depender do seu carro para tudo".
(Gravz: Os carros "é"? Ok, Elisângela...)
Abrassssssss
Haja (barriga pra rir ou saco pra aguentar)!
