FLIP: QUANDO PARATY VIRA A BARRETOS DA LITERATURA
03/07/2009
FLIP: QUANDO PARATY VIRA A BARRETOS DA LITERATURA
Chapéus de cowboy dão vez a cortes de cabelo moderninhos, cuidadosamente descuidados, ou então bonés ou mesmo chapéus como esses que voltaram à moda recentemente. Camisas xadrez são trocadas por outras indumentárias e as botas, por óbvio, tornam-se sandálias "croc", sapatênis ou algo assim.
É como uma festa de peão, mas é a festa do livro.
A cultura de massa, aquela do povão, é agora uma cultura para poucos e bons. A sonoridade das duplas sertanejas jamais seria admitida num ambiente como o da FLIP, em Paraty. O espaço ali é para Tom Zé, Uakti, Quinteto Violado ou algo do gênero. Caetano está proibido porque "fala de tudo" e isso não pega bem. Legal é Chico Buarque (já falei de suas fãs, e elas estão lá). Ao contrário dos fãs, ele é na dele.
E seu último livro é mais ou menos como o blog do Saramago: quase ninguém lê/leu; quem o faz, muitas vezes reconhece tais escritos como algo longe de ser seu o ponto alto – ainda que sobrem aplausos fanáticos.
A oração do peão, comum nos rodeios, é substituída pelo ateísmo-qualquer-nota dos fãs neófitos de Richard Dawkins. Isso me aborrece, embora a todo tempo procure me afastar do rótulo de leitor-da-antiga-irritado-com-modismo. Mas, sim, irrita. David Butter resumiu bem o fenômeno.
O ateísmo fervoroso da FLIP é algo parecido com aquelas patacoadas de cristais e Nova Era. Mais um pouco e a obra cética – e séria! – de Dawkins se transforma, graças aos fãs brazucas, no "outro lado da moeda" do Diário de um Mago. Não me parece uma boa.
Outro fenômeno que torna a "micareta dos livros" parecida com as festas bovinas são as turminhas. Os grupos de cowboys caipiras são denominados "comitivas", mas não há, ainda, nomes oficiais para as caravanas que chegam a Paraty. Elas são versões mais engajadinhas daquelas que comparecem aos auditórios televisivos: em vez de urros ao Cyd Guerreiro, passeiam pela cidade histórica atrás de um encontro com algum "autor" para, então, fingir que está tudo normal.
Ah! Também anotam nomes e obras para depois comprar tudo por atacado. Assim, surgem novos nichos para o mercado literário, tais como:
a) Livraria Rodízio: paga-se uma quantia "x" e, com isso, leva-se quantos livros couber no carrinho, à medida que o vendedor os trouxer em bandejas;
b) Livraria Por Quilo: pega-se quantos livros quiser e, no caixa, o pagamento é pelo peso;
c) Livraria Pesque-Pague: livros na água, devidamente protegidos por plásticos, bastando fisgá-los para levar para casa e pagando por hora de divertimento. Toda a diversão da pesca com o sabor da literatura!
São ideias que podem ser exploradas diante de um mercado consumidor que cresce exponencialmente.
Por fim, lembro de quando falavam sobre Harry Potter. A série, diziam, seria (e foi!) fundamental para a iniciação literária de muitas crianças. Talvez seja esse o grande mérito da FLIP: iniciar os brasileiros no gosto pelos livros. Ainda que a maioria, hoje, compareça à feira para fazer parte de uma micareta.
E que cada paralelepípedo da velha cidade perdoe os crocs e sapatênis apressados, correndo de um evento a outro dos popstars literários. Vão dizer que isso é melhor do que a cultura de massas da música sertaneja ou daquelas festas do Pará. Cabe perguntar: por quê?
Revisão: Hellen Guareschi
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transubstanciado por gravata às 03.07.09 | 7 comentários
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"Ateísmo brazuca" é de doer!
Fechando com chave de ouro Chico Buarque(sempre ele!!!)disse que "escrever é uma chatice".
Viva o ANTROPOFAGISMO brasileiro..kkkkkk!
Modismo...modismo...modismo!!!
Abs!
Não são.
este evento não é modismo,de forma alguma;quem gosta de ler,quem gosta
de cultura,de poesia,sabe,como ali
é um lugar especial,como é bom e importante que existam mais eventos
desta natureza(ainda mais no Brasil)...
Soube que Adriana Calcanhoto esteve por lá...quisera estar também...
Tanta gente boa,livros,poetas para se
ver...
É uma pena eu não poder estar lá...
É a pior coisa do mundo. Cada vez que toca tecnobrega, o mundo fica pior. Palavra.
Pode crer que ir pra Flip é, sim, MUITO melhor que escutar tecnobrega.
acho que não vou pro céu!

