OS FORASARNEY E OS NADA COM NADA

30/06/2009

OS FORASARNEY E OS NADA COM NADA

Até ontem (ou, vá lá, anteontem), no Twitter se discutia a última capa da Playboy, lançamentos de tecnologia, música ou futebol. Havia também, é claro, debates sobre o próprio Twitter. Nada além disso ou, no máximo, algumas briguinhas, cantadas, brincadeiras e coisas do gênero.

De repente, e antes de tudo considero isso algo positivo, a rede social passou a ser usada para finalidades políticas. Isso não quer dizer que as demais formas estejam excluídas. Mas as primeiras (e mais óbvias) reações foram de contestação. Sim: contestação-da-contestação. Sem contar a turma que por algum momento brigou pela autoria de hashtags.

Sigamos.

Não vamos negar, é verdade, que ontem o chamado "limite" foi deixado de lado. Um grupo de famosinhos resolveu 'bombar' a expressão "fora sarney", colocando-a nos Trending Topics. Isso foi tentado também por muitos no domingo, mas as celebridades do Sub-21 conseguiram a façanha, mas pagando caro.

E o preço veio em forma de um puxão de orelhas de Ashton Kutcher, conhecido por ser casado com Demi Moore e ultrapassar a rede CNN em número de seguidores no Twitter (sintam o drama...). Ao ser convocado para o movimento cívico brasileiro, o ator deu uma aula básica de democracia: quem elegeu seu Senador que o embale. Seja por civismo, oportunismo comercial, ele está certíssimo.

Isso vocês leram em todos os lugares.

Mas e a tal da política? Porque os maiores adversários da "revolução do sofá" (esse é o nome engraçado e irresistível, que também usei) por acaso são manifestantes contumazes, praticam algum tipo de atividade cívica ou coisa que o valha? Criticam - sim, com razão! - o uso exclusivo do Twitter como meio de protesto, mas o que eles fazem além disso?

Repito: usar o Twitter não implica no uso EXCLUSIVO dessa plataforma como meio de manifestação política. Pode-se muito bem difundir um ponto-de-vista ou alguma idéia por ali e, ALÉM DISSO, atuar em algum outro campo. Não?

Há uma propaganda engraçadíssima das Havaianas, na qual surge uma garota dessas pentelhas e chatíssimas, pregando politicagem em ambiente fora de contexto. Não que seja RUIM falar desse tipo de coisa, mas há horas e horas. A idéia, ali, claramente é essa.

Mas o contrário também merece reflexão. Trata-se daqueles que refutam toda e qualquer manifestação; ora meramente alegando chatice, ora questionando o meio pelo qual fazem algum protesto. E assim por diante. O que resta - levando ao cabo o que propõem - é a total apatia, o "nada com nada".

O pessoal do sambinha, ali na propaganda, toma sua cerveja e, seguindo uma cadeia lógica, depois falaria de futebol, então depois discutiria política, brigaria, sairia com suas namoradas e namorados etc.

A menina chata, sabemos, enche o saco. Mas faltou alguém: a figura apática que nunca quer nada com nada e não aceita quem se manifesta, nem que seja minimamente, numa espécie de deboche que muitas vezes faz do suposto palhaço a verdadeira e tragicômica piada involuntária.

Bônus Track: Seletividade
Um dado importante, mas que não posso deixar de citar aqui, é a sensibilidade seletiva com a vida humana. Sabemos que pessoas são pessoas, mas algumas são "mais pessoas" do que as outras.

Vejam os iranianos e hondurenhos.

Uns passam batidos, outros são enaltecidos em alguns perfis do Twitter. E não falo aqui da cor do avatar ou algo assim. Nada disso. Quanto ao Irã, muitos não ligam, fazem de conta que o governo não metralhou ninguém, nem pisoteou passeata alguma. E não são exatamente pessoas que se omitem quanto a debates políticos.

Mas agora, com relação a Honduras, pelasbarbasdoprofeta! São tuitadas a cada meio segundo! Perto de um iraniano, um hondurenho vale uma fortuna! Pois é. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Autoritarismo é um conceito variável, e o "X" é a cor da bandeira que desce o sarrafo.

Ah, esse Twitter...


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transubstanciado por gravata às 30.06.09 | 11 comentários


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Comentários, Trackbacks:



Li os 3 textos de hoje.
O sobre o horóscopo é aquela velha
história,sou como todo mundo(acredito não acreditando).O sobre a AIDS eu
concordo em gênero,número e grau.E o sobre o Sarney e o Twitter,não gosto
nem de um nem de outro,acho o Twitter
uma bobagem sem tamanho(adoro ser idiossincrática! rs)e quero que
esse velho desgraçado se exploda.


:)

PermalinkPermalink 30.06.09 @ 21:30



Comentário de: Raphael

É complicado a primeira impressão que tive ao ler a noticía é a de que brasileiro é carente. Sempre querendo chamar a atenção. Como o país não se destaca pela educação, IDH, segurança, só nos resta brilhar no futebol e nos fazer ouvir (ou ler) nessas redes sociais da vida. Mais do que a motivação de me unir ou fazer algo de cima do meu sofá por essa causa, tive vergonha alheia das sub-celebridades brasileiras pelo exagero, tanto que tomaram na cara.

PermalinkPermalink 30.06.09 @ 21:41



Comentário de: Sarita Bastos

Olá, Gravata
concordo quando você descreveu os limites, algo que é chato, mas que, no fundo, acontece em qualquer manifesto, em diferentes espaços públicos e diferentes motivações.
Mas não me agrada a generalização do seu primeiro parágrafo. Eu já acompanhei dezenas de discussões políticas no Twitter antes mesmo do #forasarney. Não dá pra dizer nunca antes nesse twitter...

PermalinkPermalink 30.06.09 @ 21:50



Comentário de: Marlos Ápyus · http://www.apyus.com

Achei este texto mais com perfil de "Imprensa Marrom". Mas bora lá...

Eu adoro questionar certas verdades que aceitamos sem o menor pudor. Por exemplo: por que não podemos causar uma revolução de nosso sofá?

Parece ridícula a pergunta, eu sei. Até brinquei contigo no Twitter que se há 30 anos John Lennon queria fazer uma revolução da cama, a do sofá já é um avanço. Mas pensemos menos poeticamente...

Peguemos, por exemplo, a pseudo-greve da USP. Enquanto só eram considerados ativistas aqueles que imitavam índios de frente para polícia com bandeiras vermelhas e gritos de guerra, o movimento contou com 300 malucos que levaram bala de borracha na testa. Quando alguém com um mínimo de sapiência resolveu criar uma enquete no Google Docs, de repente apareceram 5 mil estudantes universitários interessados em interferir no destino da instituição, e apresentaram uma resposta muito mais honesta sobre o que quer esta comunidade. Detalhe: ninguém precisou matar aula, faltar trabalho, deixar de produzir, causar transtorno à sociedade para se pronunciar, para fazer valer a sua voz.

Enfim... Penso que se aposentássemos a idéia arcaica de que revolução só se faz nas ruas com bandeiras e gritos, e concentrássemos esforços em encontrar maneiras de aumentar a participação dos interessados nem que seja virtualmente, mas de forma que possam fazer valer suas vozes nem que seja diretamente de seus sofás, só temos a ganhar. Indo a Brasília, eu até consigo pedir para que Sarney se aposente. Mas quantos podem ir a Brasília?

PermalinkPermalink 30.06.09 @ 21:58



Comentário de: Bruno Portella · http://ovocesariano.wordpress.com

Sim, é uma propaganda, Gravataí.

O ovo falou um pouco tanto do levante do Twitter, como da propaganda da Havaianas. Gostei de ver você comentando aqui também.

Dá uma olhada lá depois. É bom trocar figurinhas.

Abs

(Gravz: Opa, verei sim! Abs :))

PermalinkPermalink 01.07.09 @ 00:04



Comentário de: Emerson Damasceno · http://anomia.blogueisso.com

Acho que cometi um plágio, de certa forma.
De qualquer maneira, me saio com a desculpa de que só li teu texto depis de ter escrito o meu :)
abraços anômicos

PermalinkPermalink 01.07.09 @ 08:48



Comentário de: Flávio Chubes

muito bom o texto. mas, quanto à questão Irã x Honduras, o que eu vejo é o contráro: um iraniano vale uma arroba de hondurenhos. vi gente, inclusive, defender o golpe dizendo que "o povo de Honduras não quer outro Chavez". a democracia seletiva é moda.
o estranho na politização do twitter é que parece ter muita gente defendendo certo ponto de vista só porque é "trend", sem fazer idéia do que se passa.

PermalinkPermalink 01.07.09 @ 10:53



Comentário de: aninha

puxa, bacana ler um post interessante sem precisar clicar no link do imprensa marrom... :)

PermalinkPermalink 01.07.09 @ 11:07



Comentário de: Anita Lucchesi · http://imil.org.br

Acho que os "revolucionários do sofá" se juntam a este "nada com nada". Mas eles ainda podem ser resgatados...

Vejo no Twitter, no caso dos bloguers iranianos uma ótima plataforma para atuação e divulgação da idéia deles. Claro, existe uma "febre tuítica", mas não dá pra juntar alhos com bugalhos, tem mt gnt que faz não somente porque é "trend". Muitos avatares verdinhos fazem isso conscientemente e tem real preocupação com a política deste país. Da mesma forma os Fora Sarney. Que existam "Fora Sarneys" realmente ativos, não deslegitima o que disse o astro Kutcher.

Eu estou no Twitter, não sou verdinha, e nem estou com o avatarzinho do Fora Sarney, mas eventualmente retuito se acho algo interessante. E acho que esta politização é boa. Gente que faz modinha e vive no achismo tem em todo lugar, dentro e fora da web. Até os nossos políticos o fazem.

Você deve conhecer este video, foi tuitado por aí, sobre os iranianos, acho sensacional: http://www.imil.org.br/milleniumtv/ira-uma-nacao-de-blogueiros/

Conhece também o trabalho bastante revolucionário do blog cubano Generación Y?

Este aqui é pra descontrair... sobre a febre tuitica:

http://historiografianarede.wordpress.com/2009/04/01/uma-reflexao-sobre-o-twitter/

Abraço e parabéns pelo post!
A sacação da propaganda da Havaianas foi mt boa!

PermalinkPermalink 02.07.09 @ 10:31



Comentário de: Beatriz

Cadê o Gravata responde, heim?
Poxaaaaaaa
Beijos!

PermalinkPermalink 02.07.09 @ 13:01



Comentário de: Fabiana

Já que todo mundo está manifestando... Vou manifestar-me também: Sou de Brasília e estou exauta de ouvir que aqui só tem bandido... Afirmo que no senado tem apenas um deputado nascido e criado no DF e até hoje é um dos poucos que não está envolvido em escândalos políticos. Se existem bandido aqui todos foram enviados por outros Estados. Pelo amor de Deus escolham direito quem vocês vão eleger pois minha cidade está parecendo uma privada de tanta merda que os outros Estados nos mandam.


Quanto ao manifesto "Fora Sarney" para mim, que acompanho tudo de bem perto, acho louvável que o povo esteja acordando e se manifestando (mesmo que seja só para aparecer no TWITER ou seja lá aonde for...) embora do sofá isso prova que o brasileiro não é tão apático assim. Ao mesmo tempo vejo que o brasileiro desinformado é ingenuo e apesar de tirar "onda de malandro" é inocente ao acreditar que com a saída do Sarney o senado estará limpo. Sei que essa é a melhor solução para os outros políticos envolvidos neste escândalo, ou seja, tira um como testa de ferro e esconde o erro dos outros envolvidos. Crucifica-se Sarney e esconde tudo o que os demais fizeram. Acreditem ninguém quer mais essa cassação que as membros da casa Senado...
Não, eu não quero que o Sarney fique, também quero que ele saia mas exijo que que leve junto os seus cumplíces, har é não vai sobrar ninguém né?? A casa ficará vazia e, digo mais tem muita gente com o rabo preso nesta história. Assim tudo ficará em pizza como aconteceu com o deputado EDMAR MOREIRA aquele do Castelo, lembram? Pois é o mandato deste moço não foi cassado... Não sabiam disso?
É verdade estão ocupados vendo o escândalo Sarney ou o enterro do MICHAEL JACKON, escrevendo no twiter né? Porque aqui é assim: São tantos escândalos que um abafa o outro e continuamos recebendo merda dos outros Estados...

Tapiocas para todos!

PermalinkPermalink 02.07.09 @ 14:22



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