WATCHMEN, O FILME

12/03/2009

WATCHMEN, O FILME

Atenção: contém alguns spoilers!

Allan Moore é o autor – fora do 'mainstream' – com maior número de obras adaptadas para o cinema. São de sua lavra: Do Inferno, Liga Extraordinária, Constantine, V de Vingança e, agora, Watchmen. Apesar disso, ou talvez até mesmo por isso, ele sempre reclama.

De tudo que foi levado às telas, Watchmen foi o mais fiel. Isso não é bom nem ruim, porque cada meio pressupõe uma linguagem específica, e nem sempre é possível uma adaptação fidedigna sem a perda de elementos fundamentais.

Zack Snyder é um diretor especialista em adaptar os quadrinhos "da forma como eles são", inclusive levando para as telas algumas cenas idênticas às dos gibis. Isso é bom para o fã, mas às vezes dá pinta de que falta talento criativo (talvez, dirão os mais apegados à arte cinematográfica). Na minha opinião, é um ponto positivo.

Sobretudo porque Snyder não é cineasta de uma só linguagem visual. Em 300, usou a estética de Frank Miller, com um rigor quase acadêmico. O mesmo vale para Watchmen, cujos traços e cores diferem em tudo do filme anterior – mas combinam também em tudo com o traço de Dave Gibbons.

O filme traz uma série de referências e o melhor de tudo é que não são circunscritas ao mundo "pop". Quem se atém a isso cai do cavalo.

A principal pegadinha, vamos dizer, é quando tocam "A Cavalgada das Walkirias", trecho da ópera "Die Walküre", de Wagner. A turma da curturapópi logo pensa que se trata apenas de uma referência àquela cena de Apocalypse Now, mas na verdade vai além. Muito além.

Essa melodia, exatamente ela, era executada nas ofensivas da infantaria nazista, por meio de gramofones. Não foi por outro motivo que Coppola a incluiu na trilha de seu clássico filme na cena dos helicópteros e, por isso, foi resgatada em Watchmen.

Há outras, como falas de Nixon, menções aos jornalistas do Watergate etc. etc. etc. Mas, independentemente da miríade de referências, é um filme que funciona, que flui e deixa o espectador à vontade para participar da aventura e do desenrolar da ação.

As atuações são quase todas ótimas, com destaque ao genial Comediante (Jeffrey Dean Morgan) e o sorumbático Rorschach (Jackie Earle Halley). Adrian Veidt (Matthew Goode) é o pior disparado – e isso trai uma tradição dos filmes de herói, nos quais os vilões são sempre os grandes atores.

Há furos? Sim, vários: o homem mais inteligente do mundo deixa o computador com todos seus segredos num prédio desprotegido – e a senha é a mais óbvia possível. Dr. Manhattan não o mata, mesmo sabendo que isso não afetaria a paz mundial (ok, ele conseguiu fazer a coisa toda, agora mate-o e pronto, por que não? Foi tão fácil matar o Rorschach...).

O Coruja tem um porão com chaves de fenda, porcas, parafusos e o veículo mais moderno do planeta. E nenhum deles, com exceção do Manhattan, tem poder algum, mas lutam a ponto de fazer o Bruce Lee parecer um moleque bobo – Veidt, então, com facilidade espanca o Comediante (que sabidamente tomou algum tipo de soro).

Mas, enfim, é filme de herói e, como tal, permite esse tipo de mancada, sobretudo depois que, em TDK, Batman soca a cara de exatos 50 soldados da Swat, mas é abatido por UM ÚNICO ROTTWEILLER.

Os efeitos especiais também são ótimos, com destaques óbvios para a máscara de Rorschach e Dr. Manhattan. Mas as cenas de luta, como a primeira, p.ex., e a caracterização de algumas personalidades (Kennedy, Nixon, Fidel), entre outras coisas, merecem menções mais do que honrosas.

Uma coisa insuperável, realmente fantástica e impressionante, é a abertura. Bob Dylan ao fundo e uma porção de cenas narrando a história sem que haja uma narrativa textual. Apenas imagens. Cinema mesmo. Cinemão. E música (com o detalhe de ser, incontestavelmente, uma das melhores trilhas sonoras dos últimos tempos).

Há uma carga sexual inusitada, mas condizente com o teor da HQ: o heroísmo às vezes é ligado à tara, ao prazer, à libido. Há o herói fascista violento que bate e toma a mulher à força. E a mulher que sofre essa violência e depois se apaixona e tem uma filha com o cara. E um outro que espanca o agressor e é provocado sobre se isso lhe daria prazer. E, bem depois, mais um, que só goza depois de "atuar" como vigilante.

A extrema humanidade, sobreposta ao tradicional estoicismo das histórias de então, uma das virtudes do texto de Moore, aparece de maneira contundente. E minha cena favorita é quando a moça chega e pega o rapaz de surpresa, mesmo ele sabendo que a encontraria. Eles não se encontravam havia dez anos, talvez, e se olham, ele não esconde a timidez, fica mudo, fica sem jeito, ela primeiro estranha, depois ambos sorriem.

As coisas são assim no mundo real e talvez a grande ideia fosse mostrar um mundo verdadeiro, mesmo diante de toda a narrativa fantástica, efeitos especiais e maluquices. O que sobra, sempre, são as coisas reais e humanas.

Dr. Manhattan se exila em outra galáxia. A vida segue.

Revisão: Hellen Guareschi


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transubstanciado por gravata às 12.03.09 | 15 comentários



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Comentários:


Comentário de: Cevado · http://unquotes.wordpress.com

\o/... e que as putas fanáticas pelo Alan Moore que nem assistiram o filme leiam este post e assistam pra se surpreenderem.

Bem que o Snyder poderia fazer a nova adaptação de Duna pros cinemas que dizem que vai ser feita...

(Gravz: Tô fora da nova versão de Duna)

PermalinkPermalink 13.03.09 @ 09:17



Comentário de: Leonardo

Gravata, onde existe essa menção ao fato do Comediante o soro (imagino eu que vc esteja falando do soro do super-soldado) ?

(Gravz: Viu a data de nascimento? Viu quando morreu? Viu a força física? Há menção mais explícita que aquilo?)

PermalinkPermalink 13.03.09 @ 10:37



Comentário de: Gabi · http://www.fotolog.net/gabidogato

O filme ficou dentro das minhas expectativas, apesar da mudança do final, em relação a HQ, não comprometeu não...

Mas parece que a versão do diretor tem uma hora a mais e conta as histórias do cargueiro negro.

:)

(Gravz: Tanta coisa legal para colocar em uma hora extra)

PermalinkPermalink 13.03.09 @ 14:45



Comentário de: Bi

Adorei o filme e concordo com tudo o que disse.
Só com relação ao que falou sobre "a vida segue" depois que o Manhattan deixa a cidade não é bem a sim...
O diário que o Rorschach deixou para o jornalista já tinha escritos sobre o que ele descobriu a respeito da culpa do Veidt. Ele deixou aquilo antes de ir atrás do Veidt, antes de morrer.
Bjo

(Gravz: Mas é o diário de um biruta, que por sinal desapareceu sem deixar vestígios, cuja autenticidade dos escritos jamais poderia ser conferida e publicado num jornal especialista em teorias conspiratórias extremistas)

PermalinkPermalink 13.03.09 @ 16:24



Comentário de: Vinicius Cabral · http://ohistoriadorperdido.blogspot.com/

Gravz, eu NUNCA MAIS ouvirei as músicas do Bob Dylan e do Simon and Garfunkel sem lembrar NA HORA das cenas que elas estão ao fundo.

O filme ficou EXCELENTE! Depois de tantos comentários positivos, principalmente dos fãs no Twitter, era o que eu esperava, e mesmo assim eu me surpreendi.

Quanto ao povo da "curturapópi", esquenta não, são poucos os que conhecem realmente a História... inclusive, acham que ela faz parte da cultura, mas na verdade é o inverso.

E sim, eu nunca li a revista.

(Gravz: Leia o gibi, sério - e avisa que você é professor de História, pra meus leitores saberem que não falei bobagem quanto às referências :))

PermalinkPermalink 13.03.09 @ 19:07



Comentário de: Ander

Gostei do review! Um dos mais sensatos que li por aí (tem muito fanboy xiita que fica vendo pêlo em ovo).

A respeito dos furos que você mencionou:

Eu acho que o Dr. Manhattan não quis matar o Adrian Veidt justamente porque, agora que já estava feito, de que adiantaria matá-lo?
Se alguém fizesse isso, seria por mera vingança ou sentimento de "justiça foi feita", coisas das quais o Dr. Manhattan não tira nenhuma satisfação. Além disso, sendo "o homem mais inteligente do planeta", ele serve à humanidade muito melhor vivo do que morto.

Quanto ao Comediante ter tomado algum soro, acho improvável que seja qualquer coisa além de anabolizantes (a super-força dele pode ser vista nos outros heróis também e o Stallone é prova viva de que dá pra envelhecer com muitos músculos tomando bomba).

Aliás, esse lance dos super-poderes e das lutas foi a única coisa que mais me incomodou. Esperava algo mais cru e menos Matrix, até pela natureza do negócio todo. Todo mundo lutava caratê perfeitamente e arrebentava móveis e paredes com facilidade.

Mas no geral, o filme é bem foda!

(Gravz: Essa do caratê foi foda)

abraços, Gravata!

PermalinkPermalink 14.03.09 @ 05:05



Comentário de: Dyeego

Perfeita sua opinião

(Gravz: Opa, valeu!)

PermalinkPermalink 14.03.09 @ 21:05



Comentário de: Carcará

Rapaz...
O filme é bom mesmo. Apesar de tá meio pronto. Achei que ia ser difícil um adaptação fidedigna por causa da densidade da história e talz, mas rolou.
Ver heróis tão humanos é reconfortante pra caralho!
Alan Moore, Frank Miller e Garth Ennis são especialistas nesse aspecto.
E a trilha foi foda mesmo!

(Gravz: Sim, são mesmo)

PermalinkPermalink 15.03.09 @ 03:28



Comentário de: sacanagem

Com o trecho abaixo, que reproduzo na íntegra, estamos diante de um novo Foulcault, de um novo Horkheimer, de um pensador e filósofo da arte pop contemporânea ... Gravata, você é demais!!!

"A extrema humanidade, sobreposta ao tradicional estoicismo das histórias de então, uma das virtudes do texto de Moore, aparece de maneira contundente. E minha cena favorita é quando a moça chega e pega o rapaz de surpresa, mesmo ele sabendo que a encontraria. Eles não se encontravam havia dez anos, talvez, e se olham, ele não esconde a timidez, fica mudo, fica sem jeito, ela primeiro estranha, depois ambos sorriem."

Convenhamos e falando sério agora, o post todo é ridículo e o texto acima é pior ainda, principalmente aquela viagem - sem nenhum sentido - do estoicismo das HQs ... Ridículo!

Pô, e um conto seu foi selecionado para ser filmado ... É ... meu caro, a vida explica Sandy e Junior, Xuxa, Madonna e agora Gravata no cinema...

(Gravz: Ah, você é quem escreve de Brasília - IP 189.72.167.32 - sempre para xingar, e vem do Imprensa Marrom. Escreve porque falo mal do Lula. Tudo se explica. Na primeira leitura de seu comentário achei que fosse invejinha, mas é raiva política mesmo. É a vida. Uns estão nessa porque o partido dá dinheiro - seu caso. Outros, porque têm méritos. O mundo gira, a lusitana roda. Abração)

PermalinkPermalink 16.03.09 @ 13:13



Comentário de: Filipe · http://nemtaobom.blogspot.com/

Olá Gravata

Muito satisfatório ver um post sobre Watchemen ( logo, quadinhos ), em seu blog, o qual acompnho já de muito tempo. De fato, Alan Moore já teve uma penca de trabalhos adaptados para o cinema ( apesar do asco que ele tem a isso, tanto que não aparece nos créditos ), mas gostaria de pontuar apenas uma coisa que você disse sobre ele. Sim, de fato foi da cabeça dele que saiu o personagem Constatine e suas primeiras histórias; contudo, a história-base de onde saiu o enredo para o filme homônimo, foi escrita pelo Garth Ennis( outro bom escritor ), quando ele stava à frente da publicação Hellblazer. Apenas para esclarecer e acrescentar mais nada ao vazio :) No mais, toda a paz.

Abraços

(Gravz: Sim, claro, foi isso mesmo. Personagem é de Moore, mas o enredo é de Ennis. Nas duas últimas adaptações do Justiceiro, chupinharam elementos de Garth. Em "Liga Estraordinária" bagunçaram o coreto de Allan Moore também, e assim por diante... Acontece :))

PermalinkPermalink 16.03.09 @ 13:49



Comentário de: Carcará

Gravz,

Já leu The Boys de Garth?
Parece que vai sair filme. O Graphic Novell é foda! Na 1ª página vc já pira. Mutilações, violência gratuita... Essas coisas legais. Hauhauhaua! Amo Garth!

(Gravz: Nunca vi...)

PermalinkPermalink 16.03.09 @ 16:17



Comentário de: Srta.T · http://calmaqueficapior.blogspot.com

Eu tava doente pra ver o filme, mais me contive até conseguir terminar de ler todos os gibis (eu estava viajado e esqueci de trazê-los). Gostei demais, mas preciso assistir de novo. É muita referência, muita coisa pra prestar atenção. Eu lembro do Veidt cumprimentando o Mick Jagger e o David Bowie na abertura.
Agora, a personagem mais insossa (e a pior interpretação), na minha opinião, é a Espectral (a filha; a mãe eu acho ótima). Acho que as lutas têm explicação: pelo menos no gibi, é mostrado que a Espectral era treinada desde novinha pra ser uma heroína.
E eu usei a mesma ilustração no meu post sobre o filme! Já viu a versão simpsoniana pro Dr. House? E viu aquele lance de "e se Watchmen tivesse sido dirigido por outros diretores"?

(Gravz: Ixi, não vi nada disso! :( agora tô curioso)

PermalinkPermalink 17.03.09 @ 16:54



Comentário de: Iago

Porque o Jon iria matar o diabo do Veidt? Ele salvou o mundo, porra. Ele não é o vilão. Ele SALVOU o MUNDO. Talvez o filme não tenha deixado isso claro o suficiente. O Jon altamente concorda com a lógica do Veidt.

Ah, se formos seguir o quadrinho também, o Veidt é um herói que está anos-luz na frente de todos os outros, e isso inclui o Comediante. Todos são só lutadores treinados, mas o Veidt é mais, é tipo um ápice da condição humana, sei lá. Não vejo nada errado nele espancar o Comediante (aliás, ele é muitos anos mais novo, o que conta a favor dele em termos de condicionamento físico).

Mas em todo caso... o Coruja achar a senha dos computadores do Veidt assim tão fácil soa MUITO forçado. No filme, no quadrinho, e tudo mais. É um arranhado na jóia que é o Watchmen. =/

PermalinkPermalink 19.03.09 @ 23:51



Comentário de: Rockabilly

Meu rei, que filmaço!!!!!

PermalinkPermalink 23.03.09 @ 00:04



Comentário de: Gustavo B.

Engraçado você achar a trilha sonora uma das melhores dos últimos tempos, enquanto o Biajoni achou sofrível.
http://www.verbeat.org/blogs/biajoni/2009/03/minhas_palavras_1.html

(Gravz: Ele julga pelas estrelinhas da "Amazon", né? Sem mais...)

PermalinkPermalink 23.03.09 @ 08:38



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