EU E O CARNAVAL
17/02/2009
EU E O CARNAVAL
Lembro de quando eu não gostava do carnaval simplesmente porque não era para gostar. Isso mesmo: não era para gostar. Meus amigos mais politizados tinham um discurso com o qual eu concordava e ao qual aderia, repercutindo as palavras de ordem. Não era para gostar de carnaval.
Claro que, para mim, era fácil. Porque, em primeiro lugar, independentemente do gosto, não haveria aula na faculdade nem trabalho no estágio. E não era mesmo de freqüentar bailes ou coisas do tipo, então era moleza. Claro que também não ia ao extremo de participar de alguma plenária, mas viajava para algum sítio ou passava com alguns amigos vendo filme, jogando alguma coisa etc.
O importante era repudiar o carnaval, ainda que em pleno ócio. Como aqueles que pretendem fazer a revolução socialista e esbravejam com a boca cheia todos os passos da marcha bolchevique, naturalmente a ser iniciada no dia seguinte, pois todos estão um tanto alcoolizados naquele instante.
Depois, comecei a odiar essa postura e passei a ser sistematicamente contra todo e qualquer discurso anteriormente adotado, numa espécie de "adolescência de mim mesmo". Eu era anti-consumista? Então passaria a ser consumista. Era contra o carnaval? Então "alalaôôôôôôômasquecalôôôôôôôr"! E assim por diante.
Claro que isso era igualmente idiota. A raiva de ter percebido uma postura imbecil foi tão grande que me moveu a um outro extremo; e esse radicalismo era babaca da mesma forma (mas, na época, eu achava firmeza). O cara vinha com o discurso politizado do carnaval e eu já falava do bloco na rua, na base do "já passei dessa fase bolchevique de Centro Acadêmico".
E aí o tempo passou e peguei barriga.
Carnaval na verdade é besta. Não é bom nem ruim, é simplesmente besta. O simples fato de haver um debate para se dizer contra ou a favor já é algo que me dá medo. Eu singela e delicadamente passo. Prefiro ver seriado - como um tal de "Flashpoint", recém-descoberto, que trata de policiais de elite do Canadá. Melhor do que discutir carnaval.
Mesmo os websites estão de saco cheio, eu vejo. Olhei hoje antes de escrever este texto, porque precisaria falar aqui alguma coisa sobre o tema e vi aquelas fotos. Certeza: ninguém agüenta mais. Aquela mulher do Belo, por exemplo, parece "Apolo, o Doutrinador". Vi a Maria Rita num ensaio da Vai-Vai e parecia que ela entoava uma canção de despedida num velório.
A festa de Salvador, que antes era uma coisa 'roots' para fazer frente à já decadente bobagem do Rio de Janeiro, é hoje tão burocrática e empresarial que dá medo. E tomada por paulistas - os mesmos paulistas que têm um sambódromo a imitar o Rio (assim como os cariocas têm uma semana da moda para imitar os paulistas).
Não foi só meu tempo que passou. Acho que só eu peguei barriga, talvez. Mas todos estão de saco cheio. O bom do carnaval é coçar o saco, mas fingimos que é tradição, que é folia e oba-oba, porque é a desculpa pra aprontar isso e aquilo. Não é? Aí o caboclo convence aquela garota a encher a cara (não que ela não quisesse, fique claro), e a festa acontece.
Uma coisa que me irrita, e devo dizer isso antes de encerrar, é a defesa que fazem das marchinhas, como se elas fossem a salvaguarda da cultura nacional contra a destruição do universo representada pelo funk ou o axé.
ALGUÉM AQUI JÁ LEU UMA LETRA DE MARCHINHA? "Olha a cabeleira do Zezé", "eu tava andando no deserto do Saara", "mas como a cor não pega mulata"... Não existe axé music ou funk pior do que isso! Não há! Nem Creu nem nada. É o cúmulo do mau gosto. Mas é "antigo", então "é bonito".
Vai pastar, né?
E o que eu mais gosto do carnaval, mesmo, são as ruas vazias em São Paulo. Deveria ter algo assim no inverno, porque não gosto muito de calor. Seria perfeito. Juro que escreveria um texto defendendo com unhas e dentes os "festejos de momo" ou qualquer outro epíteto que tivesse a festa.
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transubstanciado por gravata às 17.02.09 | 34 comentários
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Comentários:
HAHAHAHAHAHHAHH
Eu não tô com paciência para gente suada que eu não conheço encostando em mim (que eu conheço pode! Uh!), espuma dos infernos que tira todo o charme do meu cabelo e outras coisas, como, por exemplo, perder o critério de lugares socialmente aceitáveis pra fazer xixi (nossa, isso aqui me lembrou aquele negócio de gold... ah, deixa isso pra lá...). Ou seja: eu peguei barriga também.
Ah, sim, e o carnaval do Rio não é só He-Man desfilando de biquine na Marquês de Sapucaí, não. O carnaval de rua é ótimo pra quem ainda não pegou barriga.
Mas, como em São Paulo, aqui no Rio fica melhor de transitar, de parar o carro pra tomar água de coco na Lagoa e as praias ficam mais vazias. Opa, mals aê, São Paulo não tem praia.
hahahah
E eu amo marchinhas. Não pelo valor histórico, ou qualquer bobeira que o valha. Gosto da farra. Assim como gosto de funk ou mesmo axé pela farra. Aliás, eu adoro uma farra. Se for do boi, então... hahahahhaha
É isso: bom seriado pra vc, boa praia pra mim! Aeeeeeee!
Beijos
(Gravz: Acabei de receber notícias boas... Bailes fechados em lugares restritíssimos com VIP pro amigão aqui. Aí acho que eu vou, viu?)
Quer ir atrás do trio elétrico? Vai lá. Eu fico aqui tirando um cochilo.
(Gravz: E eu vou ao cinema)
(Gravz: Eu acho engraçado)
Abraços!
(Gravz: Obrigado, D)
Claro que não vou ficar aqui defendendo, respeito seu ponto de vista. Mas é só pra dizer que não é todo mundo que tem essa sensação de "encheu o saco" mesmo.
Abraço!
(Gravz: Eu não gostava, mas por besteira. Passei a gostar muito. Agora, sei lá, é normalzinho)
Já passei pela mesma priemira fase que vc. Só que subia a serra revoltada com a "banalização do corpo". rs
Hoje, resolvi aproveitar o Rio (já tive uma REVOLTA CONTRTA CIDADES grandes E esse papo de "NÃO AGUENTO MAIS ESSA CIDADE QUE NÃO TEM NADA PRA FAZER, VOU PRO RIO".
qUERO MAIS É QUE TUDO SE DANE (INCLUSIVE o teclado desconfigurado. aaaahhh!!0, vou pra onde MEU DINHEIRO DER e TIVER AMIGOS LEGAIS PARA DESFRUTAR da companhia.
(Gravz: É isso mesmo)
Do mais, para mim, é apenas uma espécie de ópio para o povo
(Gravz: Todo mundo precisa de algum ópio, seja carnaval, seja filme, seja livro)
odeio esse clima de felicidade hipócrita do carnaval, esse oba-oba, ng é de ng.
a propaganda da skol resume BEM o meu ódio. enfim, beijos.
(Gravz: Não sei se odeio-odeio, nem adoro-adoro. Como disse, não ligo muito, atualmente)
É como se um dia alguém tivesse inventado a malícia e depois ela fosse obrigatória. Como desfile de escola de samba e retaguardas esculturais, como faz São Paulo em relação ao RJ.
Mas não me furtarei a fazer uma folia para meu sobrinho-bebê, fantasiado de Arafat. Só pra ele conhecer como é.
(Gravz: A música da mulata é extremamente racista, a do Zezé é homofóbica e "Cada Macaco no seu Galho", do Riachão, é ao mesmo tempo engraçada e anti-nordestina - embora seja baiana.. "...moço da cabeça grande você vem não sei de onde, fica aí não vem pra cá... esse negócio da mãe preta ser leiteira já encheu sua mamadeira vá mamar noutro lugar... xô, chuá, cada macaco no seu galho")
Ter CINCO dias pra fazer absolutamente NADA!!! Eu quero é mais!
Bjo
(Gravz: Eu vou trabalhar em boa parte do carnaval)
(Gravz: Sim, isso é excelente)
(Gravz: Pra mim, continua sendo apenas um feriado)
porra, beber e meter sáo motrizes da vida, são atividades que devem ser praticadas durante praticamente todos os dias, desde que não atrapalhe algum compromisso profissional.....
carnaval serve pra vagabunda rodada aumentar sua kilometragem, e pra fracassado sair da seca (normalmente com a vagabunda rodada em questão, com bafinho de vomito e uma DST recém-adquirida)
qdo era molequinho gostava de ir no clube catar confete e serpentina do chao e jogar na cara de outras crianças, espirrar água e tal, agora só aproveito o feriado mesmo... agora mais imbecilidade que essa putaria estimulada e essa graaaaaaande alegria "é carnaval pessoal, viva!!" é pegar 100 kms de engarrafamento e ir pra praia lotada... pqp
(Gravz: Motrizes da vida! Uau!
(Gravz: O Brasil é um estado laico)
Acordou mal humorado?
Cadê seu espírito carnavalesco?
Você não gosta de samba?
As marchinhas podem até não ser essas coisas... mas que espécie de brasileiro é você que não gosta da batucada?
Eu sou uma foliã de meia tigela, ano passado jurei que esse ano ia fazer e acontecer e, no entanto... pelo visto o carnaval vai passar apenas pela TV. Mas eu gosto à beça, quando começa a batucada sinto logo um arrepio e os meus pés não me obedecem... hahahah...
Talvez eu goste mais da desculpa do carnaval pra fazer o que costumo fazer sempre: piscina, cerveja e conversa fiada com os amigos!
Gravatinha, vc é muito engraçado!!!
Beijos,
Rê
(Gravz: Mas onde falei que não gosto de batucada? Procure isso no texto. Adoro batucada. Mas é preciso saracotear feito um alucinado para gostar de batucada? E quem gosta de piano, por exemplo, precisa saltitar?)
Eu, particularmente, adoro ir ao cinema durante o carnaval... São dias pra curtir a cidade vazia, os restaurantes tranquilos... enfim, ir um pouquinho só na contramão e ao invés do clime pegação geral, curtir programas lights e até românticos.
(Gravz: O duro do programa romântico é quando você está deitada com seu namorado, aí muda o canal da TV e passa o baile disso ou daquilo com algum apresentador aos berros enquanto a turma entra no salão)
Acho que estou ficando velho e ranzinza.
Só me resta cantar "Eu mato, eu mato, quem roubou minha cueca pra fazer pano de prato!"
(Gravz: Silvio Santos! Lembro dessa)
(Gravz: Hoje, não vejo mais TV. Mas, quando via, era dureza aquele monte de intervalo e todas as propagandas temáticas)
Mas continua tendo o Carnaval roots:só que é pra quem não tem nojo de povão...
Eu adoro. Tudo bem que vc não goste, mas tem coisa bacana.
E gosto de falar como os baianos: eu não pulo carnaval, eu brincoo Carnaval. E vou continuar brincando, beeeem velhinha...Já pensou?
beijos
(Gravz: Em São Paulo também se fala assim, ou melhor, a expressão antiga era essa. No Rio, também. Agora usa-se "pular" - ou já de anos atrás. Mas originalmente a expressão era "brincar". E também prefiro, mas pelo lado estranho e incomum, porque gosto de expressões diferentes)
Melhor curtir, se enturmar e aproveitar, esse é meu lema. Bobo? É sim, mas as melhores coisas da vida são bobas mesmo.
(Gravz: Esse papo de que as "melhores coisas da vida são bobas" é conversa mole, desculpe. Não use como regra geral aquilo que se aplica apenas a uma ou outra vida)
Grande abraço meu caro.
(Gravz: Eternamente do Belém! Abração, meu velho!
Só danço samba, só danço samba... ♫
Se vc gosta de batucada, então vc gosta do carnaval, só tá passando no lugar errado, com as pessoas erradas, por isso tá chato (como o meu!Hahaha...)!
Eu percebo que sou normal quando vejo o povo despirocando, ainda mais no carnaval! O negócio é aquele esqueminha mais light: piscina, cerveja, cd de samba, bossa e até marchinha e conversa fiada com os amigos!
Beijos carnavalescos da Rê!
(Gravz: Tom Jobim tocava jazz. Samba veio bem depois. Bossa é jazz)
Ai Gravata, morri mil vezes qnd li isso! é perfeito! por isso que eu te adoro!
(Gravz: Mas ela parece!)
Nem vem, gravatinha!
(Gravz: Jazz)
Muito bom, é mais ou menos o que eu penso sobre um monte de coisas. A questão é que a gente chega num ponto em que há coisas que achávamos o máximo na juventude, e que hoje em dia já perderam o sentido pra nós.
Beijos!
Ana.
(Gravz: É, acho que é isso)
(Gravz: Também acho
(Gravz: Prefiro o frio, também)
O feriado que eu não suporto é o natal. Aquele falso clima de comoção, o trânsito ainda pior (pq as pessoas querem comprar uma lembrancinha praquele primo de terceir grau que só aparece no natal), pela decoração ridícula que não combina com o calor, pela obrigação de comer com parentes malas e pelo cardápio repetitivo e sem graça.
Aliás, tudo isso é péssimo. Não posso nem ouvir a trilha sonora do Carnaval, seja de vinhetas, de chamadas... muito menos a animação de atrizes e a dedicação das bundas profissionais.
Pior que isso, só as musiquetas brasileiras de Natal, que são, pra mim, um pré-suicídio: Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel...
Mas é um besta gostoso! Invariavelmente nos divertimos de alguma forma, seja com as ruas vazias, com os seriados, com o Telecine Cult, ou pulando feito pipoca no meio do povo...
Tá valendo!
Inclusive, observem com atenção um comercia da Skol sobre o carnaval... É IC, mas tá lá a resposta!
