DOS LIVROS
23/12/2008
DOS LIVROS
Fiquei especialmente surpreso quando um amigo relatou sua vontade de comprar tudo que via pela frente ao entrar em determinada livraria, sobretudo porque o papo se inseria num contexto de anti-consumismo e, se não me engano, ele falava contra o mercado capitalista. Tudo ali era tão bizarro e contraditório que nem precisei fazer qualquer piada, apenas o olhei: os dois rimos muito.
Os livros fazem isso conosco. Eles nos tiram da normalidade.
Lembro-me de quando li "De Profundis", de Oscar Wilde e lá pelas tantas simplesmente parei de ler por pura depressão, tristeza, não conseguia seguir adiante. Nunca, em tempo algum, havia sentido algo parecido. Sou extremamente livre dessas bobagens, mas aquela narrativa me pegou de jeito - e é em primeira pessoa, de certa forma tendenciosa. Soube, recentemente, que a mulher de um amigo passou por algo parecido.
Aos dezoito, dezenove anos, todo comunistinha, li uns três livros de Noam Chosmky no metrô e em pé!, um atrás do outro, nas várias viagens que fazia, ida e volta, casa/Faculdade/casa. Cheguei a passar da minha estação mais de uma vez. Não se tratava ali de uma boa narrativa, mas sim de meu interesse ideológico - do qual hoje rio, mas ao mesmo tempo me sinto bem por ter ocorrido na idade adequada e ter feito parte de meu desenvolvimento.
Quando fazia Letras, corria sempre à biblioteca lá da FFLCH, na USP, porque achava o máximo conviver com aquela turma. E em dado momento peguei "Galáxias", o livrão do Haroldo de Campos. Confesso que não o li. Ficou comigo o tempo máximo, devolvi, mas não o li. Nunca li "Galáxias" - e se alguém fuçar nos registros da biblioteca encontrará meu nome dentre os que o retiraram. Nunca tive fôlego, força, tesão, vontade ou qualquer tipo de interesse por aquilo, muito embora acreditasse em tudo isso quando o retirei da prateleira. Nas várias tentativas, dormi. Mas nunca contei isso a ninguém - até hoje.
Poesia, em geral, foi algo de que sempre fugi, com duas exceções: Fernando Pessoa e João Cabral de Mello Neto. Acho que Pessoa, por exemplo, não chega a fazer poemas, mas sim teses filosóficas expostas de modo lírico. Meu favorito, o "Poema da Tabacaria", é quase um "anti-poema". E João Cabral tem aquele da Bailadora Andaluza que é uma das coisas mais lindas que já li. É seco e é lindo. Talvez por ser seco, enfim. Mas me toca porque usa uma palavra empregada por minha bisavó e usada até hoje pela família: "siguiriyas".
Há um gênero literário que é totalmente antiético: a troca de correspondências entre gente morta. Dois autores, ou duas personalidades, enfim, trocam cartas com uma série de informações e idéias que cabiam apenas aos dois. As famílias, atrás de uns trocados, mas sob a desculpa de que há "interesse público", aceitam a proposta de divulgar o material, reunindo em livro. E o povo compra, numa espécie de BBB sofisticado. Acho ridículo, não me parece honesto com quem, enquanto vivo, preferiu guardar esse material das vistas públicas.
Passei a ler muito - mas muito, mesmo - sobre as religiões judaica e cristã. Como não tenho qualquer crença ou fé, sinto-me isento para analisá-las. E isso vai de Carl Sagan a Harold Bloom, de Richard Dawkins a Nietzsche, de Voltaire ao texto da própria "Autora Javista". Alguns exageram no xingamento, outros até que pegam leve, uns sacaneiam tirando sarro, mas dá para se ter uma base bem razoável a respeito de tudo. O melhor disso é que descobri não ser preciso ter uma religião para gostar do assunto - e outra coisa importante é que, quanto mais estudamos, mais aprendemos a tolerar os religiosos, compreender a fé, inclusive a ver muita beleza nos ritos, livros etc.
E jamais consegui me desvencilhar - nem nunca quis, porque gosto - das histórias em quadrinhos. Quanto a isso, aliás, tenho mil pés atrás com a bobagem do "quadrinho adulto", meio que para classificar as histórias voltadas para um público teoricamente saído da puberdade, já interessado em histórias menos fantasiosas. Na boa? "Me inclua fora dessa!". Porque não tenho o menor saco para esses "gibis de arte". Se é para ler algo sério e pronfundo, temos a gloriosa "literatura de verdade". Se é para buscar a criatividade dos traços e afins, com idéias mirabolantes e pancadaria para dar e vender, temos as HQ. Dá para fazer bem feito? Opa, claro! Mas tem gente fazendo "cinema iraniano em quadrinhos". Aí é demais...
Recuso-me terminantemente a ler qualquer coisa que venha com a chancela de "nova literatura brasileira". Pode até ser que surja algo bom, sem dúvida, mas infelizmente não tenho mais forças para isso. É sempre a mesmo história, ou melhor, é sempre a mesma não-história, que se passa numa não-cidade, com não-personagens atrás de uma não-coisa e assim por diante. Sem contar essa gente de menos de 25 anos que publica autobiografia. O que eles têm para contar? Enfim, passo. Deixo pro pessoal daqueles bares toscos da Vila Madalena, os "moralistas liberais" (um dia escreverei sobre isso, por favor, cobrem! - se não fecho o blog antes!).
Enfim, tudo isso pra dizer que leio poucos blogs. Pra ser franco, quase não os leio, não tenho tempo. Porque já perco quase todo o (pouquíssimo) tempo livre vendo seriados e acho alguma brecha para ler essas coisas todas. Convenhamos, não faria o menor sentido ler blog. E também nunca entendi o que vocês fazem aqui, mas é claro que me sinto grato.
Posts similares:
Lista de Leituras 2008
Hábitos de Leitura
Livros e pedaços de mim
transubstanciado por gravata às 23.12.08 | 15 comentários
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Atalho pra o formulário
Comentários:
(Gravz: Uau! Mas, ó... Eu sou feio!
(Gravz: Opa! O blog veio antes do livro? Valeu a deferência
Mas, ainda assim, foi ótima a alfinetada final, ehehe.
Quanto aos livros, eles já devem ser coisas ultrapassadas, pois não comportam o Google Ad Sense nem mesmo admitem a inserção de ações virais... Livros costumam ter muito conteúdo e pouca capacidade de "interatividade", uma combinação meio fora de moda nestes dias.
(Gravz: Vai nessa. Jajá vão lançar o "livro com ação viral" ou com propaganda embutida - se é que não não o fizeram ou fazem)
(Gravz: Chico Buarque disse outro dia que não ouvia música, quase não ouvia música, não tinha o hábito de ouvir música. Não que eu seja um "chico buarque dos blogs", mas também não tenho hábito de ler blogs, leio outras coisas e escrevo aqui. Claro que tenho blogs de predilação, e os leio com freqüência, mas não é algo que faça com voracidade e alucinação de forma irrestrita. Ah, entrei na fefeleche em 96 e saí no mesmo ano
E provavelmente Dawkins desencadeará novas leituras sobre o assunto.
Abraços
(Gravz: Leia "O Mundo Assombrado Pelos Demônios", do Carl Sagan)
Pensando bem eu adoro é vc mesmo.
(Gravz: Aspira? Como no filme Tropa de Elite?
Não gosto justamente pq eu tbm sou assim ahahuahua e é uma merda.
Aspira pq eu ainda não me formei, tio
(Gravz: Eu não vejo defeito em coisas boas, apenas gosto de me ater sempre ao mundo real...
Em tempo: Até pra não ter fé, é preciso "crer" que não se tem fé!
(Gravz: Essa última frase, Lais, é um tanto sofismática. É como dizer que, para gostar de camarão, é preciso ter "fé" que o camarão é gostoso. Não vale como prova da força da fé, mas sim como forma de embaralhar a lógica usando a semântica como fator de confusão. Essa brincadeira com o verbo crer até hoje não materializou nenhum messias
(Gravz: Nada, é um papo bom)
Assim, considero um bom quadrinho adulto o comeco do selo Vertigo e o selo MAX.
(Gravz: Há algumas coisas legais pré-Vertigo que foram abarcadas, como os trabalhos anteriores do Alan Moore)
(Gravz: Nunca li..)
"embaralhar a lógica usando a semântica como fator de confusão"
isso dá letra de samba. e é genial.
(Gravz: Um samba de espalhar a roda..)
Para quem gosta de quadrinhos, há pouco tempo saiu uma edição especial da revista Discutindo Literatura sobre o assunto. Na capa, nada mais, nada menos do que Ziraldo, que eu adoro.
Na banca de revista ainda pude encontrar a edição n. 1 da Turma da Mônica Jovem, em estilo mangá. Eles cresceram, estão lindos mas sem ideais, vazios. Que pena!
E não adianta, não gosto dos mangás.
pesei na balança e axo melho estabacar as vezes do que ser tão cetica em relação a tudo. ADORO SEU SARCASMO!!
(Gravz: Ah, você namora! Foi por isso que me excluiu do MSN!
Este post tem 4 comentários aguardando aprovação...
