JUDIAÇÃO, DENEGRIR... A NOVILÍNGUA POLITICAMENTE CORRETA E ESTUPIDAMENTE IDIOTA
03/12/2008
JUDIAÇÃO, DENEGRIR... A NOVILÍNGUA POLITICAMENTE CORRETA E ESTUPIDAMENTE IDIOTA
A filosofia, que consiste basicamente no estudo do pensamento e na história do pensamento, tem como um dos pontos fundamentais o respeito à linguagem, à comunicação, a compreensão de sinais etc. Para explicar um fato, por exemplo, é preciso saber definir com precisão todos os elementos que nele atuam e dele participam.
Não é por outro motivo que, no livro 1984, George Orwell criou a "novilíngua", um idioma no qual uma série de termos eram suprimidos, de modo que a população do regime totalitário não conseguia nem mesmo compreender o conceito de algumas coisas, como "liberdade", "debate" e afins (*). Algo parecido acontece nas produções da Disney, já que deus, diabo e outros termos são cortados, para – eles dizem – preservar o caráter exclusivamente lúdico dos filmes.
Tergiversei o quanto pude, arrotei o que foi permitido de meu pseudoconhecimento aliado a uma retórica meia boca (muito eficiente para confundir o interlocutor menos hábil), mas chegou a hora e a vez do tema central: passamos do limite do "politicamente correto" e já estamos há muito tempo na circunscrição do vexame puro e simples. Ao menos no que diz respeito à linguagem.
Explico.
Se não me engano, começou com "judiação". A palavra, derivada do verbo "judiar", foi proibida lá pelas tantas, não me lembro quando, sob protestos da comunidade judaica. Nem sei, pra ser franco, se houve mesmo esse protesto, mas me lembro de professores do segundo grau dando orientações expressas para que a evitássemos.
Tenho certeza de que ninguém usa essa palavra para exercer o anti-semitismo. Lupicínio Rodrigues, por exemplo, ao compor Judiaria, não pensava em protestar diante de uma sinagoga. Mas, vejam só, a palavra foi vetada. Não está na Novilíngua Politicamente Correta.
Juntou-se a ela o "denegrir" e suas variações: "a coisa está preta", "o lado negro" etc. Qualquer tipo de associação desse gênero é automaticamente caracterizada como manifestação racista, discriminatória e preconceituosa.
Aliás, assusta o número de pessoas que não sabem a diferença entre "discriminação" e "preconceito". Discriminar é separar, preconceito é quando temos uma convicção mesmo sem conhecer o objeto de nossa opinião.
Um preconceito pode não ser racial ("fulano odeia batata, mas nunca comeu batata"), embora seja sempre idiota ter certeza daquilo que não se sabe. Mas há discriminações que são efetivamente boas e benéficas. A idéia de "separar o joio do trigo", por exemplo, é nada menos que o exercício da discriminação: separa-se o que é bom do que é ruim.
A discriminação racial é que é ruim, pois ela usa como premissa a idéia esdrúxula de que a cor da pele, o tipo do cabelo, o formato dos olhos ou qualquer característica fenotípica sirva de critério para estipular supremacia qualitativa de um grupo sobre o outro – inclusive intelectual.
E há, sim, a discriminação em função da cor da pele aqui no Brasil. Dizer "não somos racistas" é pura bobagem. Somos sim. Há racismo sim. A coisa pega, e pega pra valer. Mas não é proibindo a palavra "denegrir" que se constrói uma sociedade mais igualitária. Muito menos vetando o uso de "a coisa tá preta".
Aliás, por falar em ignorância, talvez os negros militantes e os judeus que policiam o uso de "judiar" não saibam, mas a palavra "escravo" vem de "eslavo". Vão continuar usando, mesmo assim? Afinal, os eslavos são o povo do leste europeu, e não faz sentido que uma palavra tão ruim – seguindo, assim, a lógica que eles adotam – seja associada a um grupo étnico.
Ou vocês achavam que viesse do latim "escravum"?
Aproveitando o embalo, vamos acabar de uma vez com essa coisa de "deu branco". É uma tremenda falta de respeito com os anglo-saxões, arianos em geral e, por que não dizer, albinos e até mesmo o glorioso lateral esquerdo da seleção tetracampeã (que substituiu Leonardo e fez aquele gol firmeza de falta contra a Holanda).
É justo associar aos de pele clara algo tão terrível quanto o esquecimento, o vazio da mente, o vácuo da memória, o zero do pensamento, a falha do raciocínio? Seguramente não. Se é para ser rigoroso com essa patifaria lingüística, que se vá às últimas conseqüências.
Por isso, pus ali ao lado um selinho. Era para ser uma "campanha", mas tenho feito tantas que já deu no saco, né? Quem quiser usa, sei lá, façam como bem entender. Mas essa coisa de policiar a linguagem já deu no saco e o politicamente correto se tornou, de forma inequívoca, algo estupidamente idiota.
Sim, a linguagem é importante para a filosofia, para o pensamento e também para a psicanálise etc. Mas esse cerco imbecil às palavras não passa de patrulhamento mocorongo.
(Ainda posso escrever "mocorongo", né?)
(*) - meu amiguirmão Persega, em explicação rápida pelo MSN (sim, há algumas pessoas que lêem esses textos antes, para dar uns toques...), falou mais sobre a “novilíngua”, e eu realmente havia esquecido de algo importantíssimo: uma palavra às vezes acabava significando seu contrário.
Revisão: Hellen Guareschi
* * *
Abaixo, o selinho discreto:

Tá na lateral do blog, também.
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transubstanciado por gravata às 03.12.08 | 26 comentários
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Comentários:
Bom, mas o assunto (preconceito e língua) dá muito pano pra manga. hoje mesmo eu estava assistindo a Pantanal e ouvi o personagem da Jussara Freire dizendo que não estava muito cristã, por estar resfriada... Eu conheço a expressão, mas soa sempre um tanto discriminatória. E digo isso sabendo que a língua mesmo sabendo que lingüisticamente as coisas não são tão simples...
Ah! Eu tinha visto o selo da campanha e pensei que fosse uma ironia com a situação da seleção...
(Gravz: Conheço a expressão "não está muito católico" ou "não ser muito católico"... Quanto ao selo, era um 'teaser' para este texto
(Gravz: Poxa, obrigado
Bom, mudando de assunto, porque você não faz um texto sobre os mp qualquer coisa da vida...? MP3, MP4, MP5... O último que eu ouvi falar foi o MP9...
(Gravz: Não sei em que pé andam os mp rsrs)
Outro dia mesmo tomei um esporro de uma pseudo-amiga recém convertida ao judaismo quando disse que "não sei o que era uma judiação...". Fiquei bege frente aos argumentos da cabocla!
Beijo Gravata!
(Gravz: É complicado o tema, mas temos que discuti-lo, sim)
Fugindo um pouco do judiar e do denegrir, o que vc acha dos usos do "baiano" e suas derivações em sp? vale tudo desde que nao haja intençao de ofender? eu, como baiano, nao acho nada bonito.
(Gravz: Sim, isso é um exemplo bom! Baiano, p.ex., é uma palavra que não poderia ser abolida, não é? Mas o usso, nessa circunstância, é pejorativo. Essa é a diferença. O problema não está na palavra, mas na forma como é usada. Abolir a palavra não elimita o erro do mau uso)
Essa onda do ultra-politicamente correto já deu no saco.
Um abraço!
(Gravz: Abraço!
Muiiito bom! Acho que vou fazer uma camiseta "da campanha" rsrs!
Bjos
(Gravz: Sim, eu sei. Por isso precisamos explicar como se fosse uma tese...)
(Gravz: Sim, mas você está olhando pela visão do time adversário)
(Gravz: O lado "afrodescendente" da força)
Não acredito que uma simples palavra possa ofender uma "raça"inteira. Hoje fui fazer a matrícula do meu filho na escola e tive que preencher um papel do Ministério da educação ou coisa assim, declarando qual era a cor do meu filho!!!!Fala sério!!!Isso sim é discriminação! Qual a diferença?? Não poderia então ser feito pela cor dos olhos??
Que saco!!
beijos
(Gravz: Sim, é. Isso é discriminação braba. É tipo Hitler)
Gostei do Basta!pelo fim da expressão deu branco!!! Genial!
Beijo
(Gravz: Mongol é etnia, bem lembrado!)
Concordo, definitivamente não é impondo maneiras de usar a linguagem -- uma construção social, diga-se de passagem -- que se apaga a discriminação racial. Muito bem colocado (ui).
Só um lembrete off-topic: o gol do Branco muitas vezes é mais lembrado pela ginga marota que o Romário fez (eu pelo menos me lembro)... o pior é que a bola nem ia pegar, de qualquer jeito. rs. Mas Romário é Romário né? Figuraça!
Abraço!
(Gravz: Pois é... Jajá dizem que o Branco fez um gol de alma 'mulata')
tem uma que acho que nunca falei pra ninguém, mas vê aí o que cê acha:
sérvia e croácia, sérvios e croatas. sérvio = servo; croata = coroa = nobres; de onde se explicaria boa parte do conflito. anos depois de pensar nessa "genialidade", visito a croácia e constato que o que tem de cruz e coroa como símbolo nacional...
outra, não existe "politicamente correto", ou é político, ou é correto. ponto final.
(Gravz: Ah, existe, sim. Politicamente correto é aquilo que está dentro da correição política, ou seja, dentro das regras de convívio entre as pessoas para evitar maiores atritos etc.)
Contudo, deixaria claro o que é ironia no texto, se quer saber.
Concorda comigo que o discriminatório, de verdade, é usar "o lado afrodescendente da força" e outras expressões dessa ordem, né?!
A idéia das pessoas que crêem, ou fingem crer, que combatem a discriminação desusando tais palavras deve ser combatida pelo uso de tais palavras.
Mas, é foi isso que você quis dizer, não foi?!
Abraço!
(Gravz: Sim, acaba sendo discriminatório o uso de expressões forçadas)
Uma pessoa "afro-descendente" pode usar uma camisa 100% negro. Agora um branco não pode.
Eu não posso falar mais um termo tão normal quando me refiro ao ritmo de trabalho "a coisa tá preta pro meu lado" (que na verdade em nada tem a ver com raça alguma, e sim - acredito - "ausência da luz", luz essa que falta para nos guiar para sair da turbulência).
Agora, mais curioso ainda é o fato que uma pessoa afro que eu não conheço passou por mim dentro da minha empresa e me chamou de "branquela" de graça. E isso não é preconceito.
É melhor liberar as palavras, o jeito tão comum, pois eu acredito que isso está criando mais laços com o preconceito
Beijos Gravata!
(Gravz: Jajá, cismam com o 'negrito' do Word)
Gostei da abordagem! Realmente o "politicamente correto" tem extrapolado o bom senso há tempos...
Mas, só pra constar, mocorongo é quem nasceu na cidade de Santarém, no Pará!
beijo
(Gravz: É sério que o cidadão natural de Santarém é chamado de Mocorongo?)
Geralmente quem reclama desse questionamento são as pessoas não envolvidas internamente. Concordo que quem usa o termo judiar não está fazendo apologia ao anti-semitismo, mas é bom lembrar de onde surgiu o verbo.Ai vc pode optar no significado maltratar como um judeu malvado ou fazer sofrer como a um judeu perseguido.
Eu gostei desse texto e acho que dá um bom contraponto:
http://www.interney.net/blogs/lll/2008/04/14/quem_sabe_da_ofensa_e_o_ofendido/
Não curto patrulha,no entanto um questionamento e uma lembrança não fazem mal a ninguém.
Pq se liberou geral, proponho uma contribuição para língua portuguesa: o verbo "cristiar" : destruir o corpo e/ou espírito da pessoa que não concorda com você.
Beijo.
Preconceito no Brasil é a maior bobagem. Aqui não tem essa de "branco", "preto"... bem difícil achar alguém que seja 100% alguma coisa. A gente tem mais nuances que aquelas tarjas degradê que fotógrafo usa pra regular o monitor. Ainda mais quando junta a parte genética com o bronzeado que um ou outro pode pegar no verão.
Sempre que a gente lida com diferenças, acabam surgindo estereótipos. Isso é uma forma de defesa: todo mundo que olha um cara e o acha com cara de assaltante atravessa a rua e evita. Preconceito? Sei lá, pode até ser, mas você evitou ser assaltado, pelo menos na sua imaginação.
Gostei da sua digressão sobre o preconceito, e acho que quem se ofende com palavras deveria procurar um analista e se resolver com seus problemas internos.
E dizer branquinho ao se referir a beijinho de côco, pode?
Se qualquer pessoa intelectualmente mediana sabe que preto refere-se a cor e negro refere-se a raça, por que usar denegrir? Não seria o mesmo que dizer tornar à maneira da raça negra? Não seria, também, falta de vocabulário ou repertório, ou coisa que os valha e, portanto, probresa de conhecimento do idioma?
Deu branco: trata-se de uma expressão que se pretende referir a falta do que poderia estar, ainda que de forma figurada, escrito n!alguma folha em branco. Aí, sim, nada a ver com raça branca e, óbvio, com a cor branca.
Fica muito bonitinho dizer que tudo pode. Pode até parecer muito liberal. Mas é uma merda. Pura inconsistência. É mais conversa pra boi dormir.
Gostaria de saber mais sobre sua posição. Sei que algumas expressões como: "Hoje é dia de branco", "Você está na minha lista negra", provem do fator preconceito. Caso posso me dar uma luz...agradeço.
Abraços,
Alexandra Alencar
alexandraalencar@gmail.com
Na mesma esfera estão os sistemas de cotas para negros afinal existem negros pobres e ricos assim como brancos pobres e ricos porque um negro tem mais direito a uma faculdade do que um branco pobre afinal de contas no Brasil com excessão do sul do país, todos somos de algumna maneira afro-descendentes certo?
Porquê o Dia da Consciência negra é um dia de festa e se houvesse um dia da Consciência Branca seria um racismo extremista?
Afinal de contas somos hoje culpados pelos erros dos nossos antepassados?
O quê dizer dos índios massacrados pelos colonizadores existe um Dia da Consciência Índigena?
Tantas perguntas.....
Mas é isso aí gravata belo post.
Renan
(Gravz: "Acima" se escreve junto. Difícil não saber disso e, ao mesmo tempo, dar aula de "etimologia". Mas Nélson Rodrigues também dizia que a gramática era o refúgio dos idiotas; uma boa máxima pra quem não atentou para as aulas do primário)
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