CAPITU: A TRAIÇÃO É RELEVANTE?
02/12/2008
CAPITU: A TRAIÇÃO É RELEVANTE?
UM TRATADO (AVE!) EM DEFESA DA PERSONAGEM MAIS INJUSTIÇADA DA LITERATURA BRASILEIRA
O brasileiro é tão miseravelmente desprezível que até na literatura – quando se mete a estudá-la ou debatê-la – põe-se a tratar das questiúnculas de somenos importância. Dom Casmurro, por exemplo, um livro de grandiosidade inquestionável, é reduzido à pequenez de um quadro do Programa do Ratinho. Mais um pouco e pedem exame de DNA.
Sigamos...
O livro é narrado pela ótica masculina, de Bentinho, o narrador obsessivo magistralmente construído por Machado de Assis. Toda a história, portanto, não é isenta. É a visão subvertida de um sujeito perturbado, uma primeira pessoa pra lá de biruta. Um paciente e tanto para Simão Bacamarte.
Mas é o seguinte: vamos falar bobagens sobre Dom Casmurro? Então, em primeiro lugar, sejamos justos com as moças e livremos a cara da moça.
Levantar hipóteses doidas sobre a traição – ou não – de Capitu é um assunto muito bocó perto de tantas outras picuinhas que poderiam ser exploradas.
* * *
Bentinho Era Gay?
Sejamos bem honestos: Bentinho não tinha pinta de quem montava na lambreta. A obsessão pelo Escobar faz o amor por Capitu parecer secundário. Ele chega a projetar a imagem do amigo-amado no próprio filho (aliás, o filho tem o o NOME do amigo)!Pela época, seria um escândalo Machado de Assis criar um romance homoerótico, mas sua genialidade pode ter embutido essa idéia no conteúdo do romance, não? E, se o fez, não foi de forma sutil. Porque não faltam indícios: do seminário à amizade unha-e-carne, da obsessão à imagem vista no próprio filho.
Ou ele tinha um tesão absurdo por Escobar, ou então esqueceram de avisá-lo sobre isso. Capitu, sejamos francos, é a última culpada por aí.
Bentinho Traía Capitu?
Passemos à outra vertente, supondo agora – e a contragosto – que Bentinho gostasse da fruta. Esse negócio de homem MUITO ciumento, como todos sabemos, é um caso bem clássico. Todo obsessivo ciumento é um Mandrake em potencial.A coitada da Capitu não fez foi nada, mas o Bentinho, pilantra que só ele, e ciente da própria pilantragem, projeta na esposa seus vícios, a ponto de, em dado momento, suplantar as virtudes da moça, consumindo-se a si mesmo nessa loucura toda.
Toda mulher que já namorou um doidão ciumento sabe como é isso. Todo homem que já namorou uma doidona ciumenta sabe como é isso. E, infelizmente, muitas vezes os doidões ciumentos são, eles próprios, pessoas bem pouco confiáveis e extremamente carentes – o que as tornam volúveis e passíveis de sucumbir a qualquer lero-lero.
Resumindo: se não era afim de Escobar, Bentinho era um desses doidões ciumentos extremamente carentes, que são ao mesmo tempo bravos, inseguros e, nas horas vagas, sedutores (para elevar a auto-estima).
Capitu Tinha Outros?
Com um marido como o pangaré do Bentinho, Capitu seguramente sentia falta de homem. E, por homem, naquelas circunstâncias, qualquer coisa estaria valendo. Desde clássicos do anedotário da corneada: leiteiro, padeiro, açougueiro e, se fosse a época, instalador da TV a cabo, até vizinhos, amigos, parentes, sacristãos e quem viesse pela frente.Pode até ser que ela resolvesse sacanear o palerma do marido com o melhor amigo, mas Escobar era outro bocó. Leiam o livro. Seria quase como trocar seis por meia dúzia. Dois ex-seminaristas bundas-moles que falam bobagens e fazem gracinha sem graça. Trocar o idiota do Bentinho pelo patife do Escobar é inócuo.
Se ela quisesse mesmo botar fogo no coreto – e talvez quisesse –, sairia com gente mais interessante. Bentinho, como bom corno, nunca saberia. O narrador, portanto, não teria essa informação. Ele suspeita de Escobar, o que torna o dito cujo o mais improvável dos "culpados".
Podem apostar.
* * *
CAPITU e MIL CASMURROS
Aproveito esse tema para divulgar o Projeto Mil Casmurros - a iniciativa mais genial dos últimos tempos, e acho que de todos os tempos, não?, pelo menos no que diz respeito ao uso da Internet para veicular o anúncio de uma minissérie.
A Globo vai transmitir Capitu, agora em dezembro, e a emissora lançou o site Mil Casmurros, concebido pela agência LiveAD, no qual praticamente todos os 'interneteiros' descolados já puseram seus videozinhos.
Querem saber? Gostei do título da minissérie. Talvez a abordagem seja mais humana e menos obsessiva, doida e amalucada. Os puristas vão berrar – alguns com certa razão, sei disso. Mas será uma forma de fazer justiça com a Capitu.
Porque ela não traiu Bentinho e, se traiu, ele merecia. Simples assim. E, de mais a mais, é ridículo que o livro Dom Casmurro permaneça restrito à bobagem do "Capitu traiu ou não traiu Bentinho".
Evamoquevamo!
Revisão: Hellen Guareschi
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Dom Casmurro, de Machado de Assis
transubstanciado por gravata às 02.12.08 | 23 comentários
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Abraços
(Gravz: Se é para fazer galhofa com Machado de Assis, não precisa transformar o livro num quadro do Ratinho, né?)
Já imaginou uma série do 'Senhora'? =P
(Gravz: Parece que já fizeram um filme)
Se eu não me engano tem uma passagem no livro onde ela chama a atenção de Bentinho para o fato de que o filho deles tem os olhos do Escobar(não tenho certeza, mas acho que é isso)...
Cara mais paranóico...
bjux procê
(Gravz: Cara doido)
(Gravz: Não é que "não queria" ser feliz. Ele era doido, ué)
Se bem que, com a pista do nome da mini-série, a narrativa em primeira pessoa pode a ser da Capitu...
(Gravz: Ah, espero que seja boa. E o nome é um bom sinal)
(Gravz: Boa!
Mas, como não posso voltar a comentar depois de tanto tempo só para elogiar, registro aqui minha implicância contra o termo horroroso "questiúnculas de somenos importância" - que você volta e meia usa.
Além disso, ficou sem sentido a frase "Se é para levantar hipóteses doidas sobre a traição – ou não – de Capitu é um assunto muito bocó perto de tantas outras picuinhas que poderiam ser exploradas". Acho que você quis dizer "Se é para levantar hipóteses doidas, a traição – ou não – de Capitu é um assunto muito bocó perto de tantas outras picuinhas que poderiam ser exploradas".
Sim, eu sou chato; mas você também é.
Abraço.
(Gravz: Opa! Então, não! Valeu pelo toque porque foi um erro de raciocínio, mesmo [não corrigido depois no início do período]. Mas a cagada foi manter esse "Se é para...". Isso que estava errado dentro da idéia que eu pretendia passar. Agora, sem isso, ficou 'ok'. Valeu por lembrar dessa frase, ficou do jeito que eu queria
Assim, quando o sujeito vive na desconfiança, ou é sinal de que ele próprio anda traindo (como seu post indicou) e projeta sua canalhice na parceira, ou simplesmente que a confiança acabou e o relacionamento está no mesmo caminho (de acabar). Neste caso, é melhor deixar o caso para trás e partir para outra, mesmo com as dores do suposto corno.
Não importa se a respectiva traiu ou não. Se não há confiança em que ela não vá fazer isso, não pode haver um relacionamento sadio.
(Gravz: Sim, esse é um ponto. O melhor, mesmo, é conversar. Pessoas adultas fazem isso)
(Gravz: Sim, claro que foi. Nunca escrevo sob ação de entidades ou santos em geral. Escrevi a aparente redundância porque apenas o "consumindo-se" daria impressão de que o verbo consumir pudesse fazer referência às virtudes, e não à pessoa de Bentinho
Dom Casmurro é ou era dado como leitura obrigatória nas escolas em uma fase onde a gente não entende e acha a leitura dele um horror não é? A gente só entende esse livro depois de "velho"...rs
Se o livro fosse "explicado" da forma que você colocou as coisas nesse texto acho que todos iriam se divertir bem mais, não é?
Bjos
(Gravz: Ah, mas eu esculhambei, né?)
Estou louca pra ver o Michel Melamed (outra figuraça) de Bentinho nessa minissérie.
Coitado do Bentinho, foi vítima de uma idéia fixa. o próprio Machado dizia "Deus te livre de uma idéia fixa".
(Gravz: Eu prefiro comentar músicas, a lógica por trás de algumas canções - mas sem aquela coisa 'stand-up' de tripudiar das canções carnavalescas, já obviamente desprovidas de lógica, mas sim mostrar algumas facetas curiosas de músicas famosas)
Eu queria ter o talento de escrever uma frase ou uma metáfora, sei lá, qualquer coisa, na qual as pessoas ficassem se debatendo anos, tentando, em vão, encontrar uma explicação mais ou menos inteligível.
"Olhos de ressaca".
Eu acho isso lindo e acho bobo, feio, pequeno demais quando tentam interpretar.
Olhos de ressaca são olhos de ressaca. A beleza é justamente esta.
Era isso que eu queria dizer.
(hahahah)
Beijos
(Gravz: Disse-o bem
1) Machado foi tão genial que criou um tipo de literatura que só veio a ser classificada um século depois: a chamada "obra aberta", ou seja, não é mesmo para se encontrar um resposta definitiva, mas para manter uma quase que eterna reflexão em torno do assunto.
2) Os personagens masculinos de Machado sofrem de uma espécie de sentimento de inferioridade em relação à mulher amada (vide a frase: "Capitu, que era muito mais mulher do que eu era homem").Isso os leva a serem sempre infelizes no amor. São extremamente emotivos, não têm cabeça fria e acabam cometendo tolices. Bentinho foi apenas um dos inúmeros personagens deste tipo que Machado criou.
3)Machado era notoriamente pessimista, quase nunca dá um final feliz às suas histórias.
(Gravz: A Bíblia é uma obra aberta)
Mas teve um comentario aí que falou sobre uma adaptação de Senhora... Cara, eu iria gostar muito disso! Adoro aquele livro! E, pra mim, o Seixas era um gigolozão daqueles bem "gato de pensão", sabe? Manso...
(Gravz: Sei..)
Sobre Bentinho, todo homem feio que casa com mulher bonita de mais enlouquece de tanto ciúme, todo ciumento acha que é corno.
http://muiedomeidomato.wordpress.com/2008/12/12/capitui/
(Gravz: Ah, sem problemas
Bem que gostariam. Uma pena que não tenham adaptado, alguém com idéias a respeito do livro expondo-os. Venderam apenas um conceito pseudo-cult através do figurino, do cenário.
Chega a dirigir-se ao espectador como 'leitor'. Não vejo qual a razão de uma versão televisiva do livro. Se queriam algo idêntico deveriam ter ambientado exatamente, sem uma abordagem mais 'artística'.
Enfim... nenhuma originalidade no campo de idéias. Fica a impressão da pura e simples disseminação, porque a maioria dos brasileiros sequer sabe quem é Machado de Assis.

