DE COMO "CONHECI" CAETANO VELOSO
19/11/2008
DE COMO "CONHECI" CAETANO VELOSO
Este texto é resposta a uma brincadeira proposta por Fernando Salem, como idéia para encerrar o blog Obra em Progresso - do próprio Caetano, mas que muitos usaram na caixa de comentários do último texto, informando qual a primeira música que ouviram, tal e coisa.
Comigo, isso é mais difícil, e os fatores são múltiplos. Em primeiro lugar, a idade prejudica. Todos ali são mais velhos que eu. Muitos, por sinal, já eram nascidos e estavam bem lúcidos quando Caetano iniciou sua carreira. É como se lembrar de quando caíram as Torres Gêmeas ou, vá lá, de quando morreu Kennedy ou Getúlio Vargas.
Não me lembro de quando/como ouvi Caetano Veloso pela primeira vez. Além do problema da idade, também complica o fator da memória, que por sinal é ótima, mas não é milagrosa. Sei que confundia "não me queixo" com "pão de queijo", ainda bem criança, e isso era motivo de piada (merecida, por sinal).
Vamos a uma outra história, portanto.
De Como o Rock Não Colou em Mim
A proposta de rebeldia do rock era algo que não me atraía. Havia ali uma idéia absurda de caretice total. Como todo e qualquer adolescente saudável, queria me rebelar, mas nunca vi no rock um veículo musical adequado para isso. Era bobo, quadrado. Bocó, mesmo.
Lembro-me dos Titãs, a única banda da qual consegui me aproximar minimamente, e chego a ter certa vergonha quando percebo que os lances mais rebeldes consistiam em palavrões como o "vão se foder" de Bichos Escrotos (1986) ou o "filha da puta" de Será Que É Isso Que Eu Necessito (1993).
Salvava, ali, a loucura estética proposta por Arnaldo Antunes, que caminhava no sentido oposto ao de todos os demais compositores, um percurso rebelde que me agradava demais e, já adolescente, sentia-me fascinado pelo caminho maluco daquilo tudo.
O rock nacional não colou em mim. O mesmo vale para as bandinhas "de fora" com aqueles cabelos todos e as melodias imbecis e estapafúrdias. Nunca vi nisso rebeldia alguma, de modo que, aos 13, 14 e 15 anos essa transgressão não me servia para coisa alguma. Não me sentia transgressor por falar um palavrão no meio de uma música.
Era preciso algo muito mais profundo do que isso.
Enfim, Caetano
Em casa, ouvia-se MPB, entre muitas outras coisas (canções latinas, p.ex.). Fui naturalmente atraído para os medalhões, sem que nenhum grande veículo de comunicação me dissesse que eram os "bons". Caetano Veloso e Chico Buarque passaram a ser meus favoritos, ma sempre tive uma predileção natural pelo primeiro.
Lembro que, para meus amigos, a grande transgressão era colocar uma camiseta preta e ouvir algum tipo de "metal" precedido de uma palavra em inglês bem pesada. No meu caso, apenas ouvia algo de que gostasse, sem dever satisfação a qualquer pessoa e, ao mesmo tempo, segurava uma bronca danada pelo fato de que todos os amigos viam nisso algo erradíssimo, como se fosse essa a GRANDE transgressão.
Mas, honestamente, nunca vi nisso (a minha "independência" quanto ao grupo de amigos na tranqüilíssima 'transgressão coletiva') traço algum de rebeldia, nem nunca ouvi Caetano ou Chico por picuinha. Seria ridículo e a esse papel nunca me prestaria. Em contrapartida, ao longo dos anos, passei a ler mais e mais a respeito de música brasileira, e percebi a riqueza de todos os 'movimentos', a formação dos grupos, tal e coisa, e com isso percebi que Caetano Veloso e Chico Buarque eram, sem sombra de dúvida, mil vezes mais "rebeldes" que todos os roqueiros do Brasil.
Era como ir à forra, mas ao mesmo tempo já não tinha mais tanta graça, pois estava também empenhado em conhecer mais e mais coisas de todos os demais cantores, compositores. Foi uma fase interessantíssima: os dois últimos anos do colegial e os três primeiros da faculdade. Acho que nunca ouvi tanta música em toda a minha vida. E nem havia Youtube naquela época!
Foi nessa época que passei a levar mais a sério a idéia de compor e cantar, fazer parte de forma decente de algo musical (não que tenha levado isso pra frente, mas até que construí coisas bacanas). E aprendi a cantar com Caetano Veloso, de modo que até hoje não sei fazê-lo sem que pareça uma imitação e é preciso treinar para que não fique muito parecido. Soa engraçado para todos, mas para mim é algo próximo de um martírio, a ponto de, lá pelas tantas, mandar tudo às favas e cantar igualzinho, mesmo. Eu gosto assim, e quero mais é que se dane.
Entonces
A figura pública de Caetano Veloso acabou por exercer um fascínio sobre mim como nenhuma outra, embora eu sempre fosse contra esse tipo de coisa e, para mim, também sempre foi difícil admitir esse negócio. Meu papel, para uso externo, é o de "rebelde", e eu "não admito a idéia de fanatismo". Mas "a teoria na prática é outra", como bem sabemos.
A prática dessa teoria é a seguinte: tenho todos os discos dele, também todos os DVDs, e compro tudo que vejo pela frente. Mesmo hoje, nesses tempos em que ninguém mais compra CD ou DVD ou coisa alguma. Quando se trata de Caetano, eu compro.
É por isso que não menti quando disse que me emocionei ao ler que ele mencionou meu nome num post de seu blog, respondendo a uma questão que suscitei, concordando comigo e - aí num comentário - elogiando-me de forma muito bonita. Isso é uma coisa importante demais para mim, e apenas amigos e pessoas especialíssimas entenderiam e/ou entenderam.
Honestamente? Não sei quando conheci Caetano Veloso. Nunca vou saber. Queria poder responder essa questão daquele jeito das pessoas do blog, narrando um caso amoroso, uma paquera, um namoro, uma transa ou algo assim.
Mas, ao mesmo tempo, acho que tenho também uma história boa para contar, que é linda demais para ser resumida a uma tarde, uma noite, ou um momento dos três minutos da música do rádio. O que guardo comigo é maior.
É um papo que já está qualquer coisa, eu sei, mas é tudo verdade. Aqui e em Marrakesh.
(sem revisão, tá tarde)
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transubstanciado por gravata às 19.11.08 | 16 comentários
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Comentários:
(Gravz: Olá, Alexandre. Antes de tudo, muito obrigado. Quanto a essas listas, sei lá, elas são feitas para polemizar, né? Sei porque eu mesmo as faço, vez por outra, na sanha de atiçar fãs. Não ligo para elas não. Gostei demais de seu elogio ao blog e ao texto, isso sim importa
(Gravz: Não é uma "declaração", poxa. É como tudo aconteceu, mesmo. Trata-se de uma figura pública, de sucesso nacional, e é óbvio que todos nós de certa forma tomamos contato com essa figura; uns gostam, outros não etc. Eu gostei e é a partir daí que se inicia a narrativa do post
OBS: também não curto rock nacional, as bandas não tem identidade nenhuma... mas gosto bastante de Led Zeppelin!
(Gravz: Não sou inimigo do rock nacional, às vezes os textos podem levar a essa leitura, mas não é isso. Simplesmente nunca vi neles a rebeldia que alguns imputam. Nesse aspecto, acho bobo. Também não acho que seja um 'movimento', no sentido de ser algo que viesse a influenciar alguma grande coisa. Porque não foi. E sempre dou como exemplo os sambistas da quadra do Cacique de Ramos, que fizeram uma coisa maravilhosa e acabaram quase largados pelas grandes publicações nos anos 80s, mas mesmo assim voltaram com força total porque, na verdade, nunca deixaram de fazer parte do repertório legítimo do povo e de quem gosta de música)
Eu tenho um sentimento parecido, como o descrito por ti, pelo Chico Buarque. Lembro-me de ter começado a gostar dele, porque tenho um tio que é apaixonado por samba antigo. Ele tinha vários discos do Chico, e sempre que eu ia na casa dele, ele colocava para tocar, e me falava do real significado das musicas. Eu achava (acho) tudo aquilo fantástico. Quem me derá, um dia, poder falar com o Chico.
Abraxxx
(Gravz: Um amigo do trabalho deu risada quando falei que chorei ao ler meu nome lá no blog do Caetano, escrito por ele. Daí, sabendo que o sujeito é fã do Chico, absurdamente fanático mesmo, perguntei acerca do inverso. Ele pensou e foi honesto o bastante... Disse que estaria chorando até aquele momento. Demos risada!
(Gravz: sakljdfaç!!! Vc é ótima!)
(Gravz: Opa! Valeu, Edu! Muito obrigado)
Já disse que adoro qd vc fala sobre ele, me emociona, sempre!
(Gravz: Uau!)
(Gravz: Essa música é do Lupicínio Rodrigues, Caetano a gravou no "Temporada de Verão - Ao Vivo na Bahia")
Essa é minha opinião.
(Gravz: Ué, compreendo. A libido anal é uma coisa recorrente em muitas pessoas, e não são raros os casos em que se associa à fase fecal. Vá cuidar disso)
(Gravz: Mas isso não é "discórdia"... Eu disse que "gosto mais de Caetano" e não que "Caetano é melhor que Chico". Você gostar mais de um e eu de outro não é discórdia, é gosto, apenas)
Abraço!
(Gravz: A foto? Por que não ele próprio?
(Gravz: Será?)
(Gravz: É mesmo, você estava na Noruega, né?)
(Gravz: Vai ficar aí pra sempre?)
abraço
Indicaram-me este blog dizendo que era tri afudê.
O primeiro post que leio: eu sei que é brincadeira, mas não gostei da história do Pereio, não é isso que o Brasil (a seleção brasileira) precisa.
Mas cheguei enfim ao post do Caetano (este). Ficou leve, bonito, (porque) sincero, seja lá qual tenha sido o obejtivo, seja lá quais forem os nomes. E eu também sou fã de Caetano Veloso (quer dizer que eu vou pular no precipício?) e me associei nalgumas coisas que li a este respeito neste post. E o resto da história, do blog, valeram o afudê da visita.
