O INFERNO SÃO OS EUS

02/11/2008

O INFERNO SÃO OS EUS

Eles são sempre as mesmas pessoas, mas usam a cada hora um nome diferente. Nunca sabemos como chamá-los. É uma auto-rejeição assustadora ou talvez engraçada, ou ainda uma soma dessas duas impressões.

A máxima sartreana, como todos sabem, nunca deixou de ser um postulado irônico talvez muito mais psicanalítico do que filosófico: sobretudo em razão do ateísmo do autor. Ele sabia, e acertadamente apontava, que o "inferno" não eram os outros porra nenhuma.

Nós somos o inferno. E nos desgostamos.

Alguns não, é verdade; mas a grande maioria, sim. Há pessoas que se transformam fisicamente a ponto de encarnar outra pessoa. Não que isso seja bom ou ruim, mas é prova inequívoca da inadmissão de si próprio.

Uns tratam isso como se fosse algo positivo, na base do "eu vou à luta", como se fosse um "defeito" ou "acomodação" ser como é; outros acham natural "buscar virtudes". E assim vão atrás de alisamentos de cabelo, mudanças radicais de todo gênero e outros tipos de modificações plásticas.

O inferno, como se nota, está sempre na casca.

Uma outra coisa curiosa é a mudança constante de nomes e personagens em redes sociais e sistemas de comunicação online. Muita gente quer sempre ser outra pessoa. Não estão contentes com o que são, com quem são. Isso é um sinal de que o "inferno" são eles próprios.

Alguns vão às raias do absurdo - meio infantil, meio doentio - de substituir a própria fotografia pela de algum ator ou atriz. Sim, claro, sabemos que é uma "brincadeira". Mas não é preciso ter graduação em psicanálise - ou conhecimento de toda a obra de Sartre - para saber o quanto isso é pesado para a pessoa.

Eu não gosto de quase nada em mim. Mas um motivo besta me salva do Inferno de Sartre: minha arrogância. Por mais que não haja grandes razões objetivas para me sentir "o tal", eu ainda assim insisto nesse tipo de tese sem dizer que sou o Homem-Aranha ou o Superman. Sou eu mesmo e quero mais é que se foda.

Claro que isso muitas vezes provoca escárnio e, de novo, não sei se é bom ou ruim (presumo que se um dia houver um debate sobre esse tópico o item "ruim" vença com boa margem, mas por ora tenho o benefício da dúvida).
Talvez a grande ironia de Sartre não seja nem a brincadeira de falar dos outros - referindo-se às próprias pessoas -, nem o fato de ser ateu, mas sim a malandragem escapista de adotar a máxima para, com ela, não fazer parte do rol dos analisados.

Essa é a parte boa de escrever.


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transubstanciado por gravata às 02.11.08 | 12 comentários



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Comentários:


Comentário de: Amanda Mosimann

"Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Vivo numa dualidade dilacerante. Vejo a liberdade como forma de beleza e essa beleza me falta." Clarice - A Travessia do Oposto

Obs: A propósito, eu gosto de um monte de coisa em você.

(Gravz: Uau! Essa foi pra começar a semana bem! :))

PermalinkPermalink 03.11.08 @ 08:05



Comentário de: Carol Flogada · http://www.filigranademim.blogspot.com

Não sei se o inferno está sempre na casca. Pra mim, casca é chaminé, é a válvula de escape.

Ruim mesmo é quando o sujeito chega no consultório com esta badeirinha sartreana, como se não tivesse responsabilidade alguma sobre o inferno que faz da sua propria vida. Mas, tomar a vida em mãos e fazer dela algo menos ruim é difícil mesmo.

"Coragem, meu velho, coragem", era o que Lacan costumava repetir por aí (e eu repito isso como mantra!).

Beijos

(Gravz: Eu não sabia que o Lacan repetia isso por aí... Mas, de fato, a vida é nossa e temos que enfrentá-la. Nada de pôr a culpa nos outros, fazendo deles o inferno - e Sartre cunhou sua máxima na base da ironia, claro. E todos nós - eu pelo menos sou assim - somos um pouco um bem muito levados a pintar o inferninho no coletivo alheio :))

PermalinkPermalink 03.11.08 @ 08:26



Comentário de: D!

É, também não gosto de mim. Nem dos outros, em geral. Na dúvida, fico com o que tenho na mão. E vouquevou! :-)

(Gravz: É o que todos fazemos!)

PermalinkPermalink 03.11.08 @ 10:25



Comentário de: autoestima

Irresistível não comentar a seguinte frase:

"Eu não gosto de quase nada em mim".

Pois, és um perdedor nato. Pô, dá até pena... Coitado do gravata.

Mas aí a foto tá retrô. Rayban anos 80 ... Mas com essa cara, como é que o cara vai gostar de si mesmo?

(Gravz: Ninguém gosta de quase nada em si. A diferença são os que assumem isso. Você, por exemplo, recorre à auto-ajuda. Aliás, auto-estima se escreve com hífen. Você deveria se dedicar menos a esse falso amor próprio forçado para atentar mais para seus problemas graves de analfabetismo funcional. Se bem que, para ler auto-ajuda, convenhamos, não é preciso ser alfabetizado. Mas, para entender o centro de um texto assim, sem arrogância, é preciso um pouco mais de profundidade. Por isso que você não o 'pegou'... Aliás, se é "irresistível 'não comentar'", você simplesmente NÃO COMENTA, pois foi "irresistível deixar de comentar" e você, diante disso, não resistiu e não comentou. É o mínimo de lógica lingüística aplicada à sintaxe mais simplória de uma frase - veja bem, não falo de regra gramatical, mas de raciocínio puro e simples. É de como o pensamento se engendra numa cabeça. Você tem QI abaixo da média. É um limítrofe perdido num mundo simples, mas que para você parece complexo)

PermalinkPermalink 03.11.08 @ 11:14



Comentário de: Fabi

Adorei o texto e a resposta ao "autoestima"!
Simplesmente quero te dar os parabéns :-)

(Gravz: Ah, obrigado :))

PermalinkPermalink 03.11.08 @ 12:31



Comentário de: tina

Cada vez mais House...rs

evamoquevamo rumo ao hexa!
que do seu time vc gosta...

(Gravz: Gosto, mas vou com cautela)

PermalinkPermalink 03.11.08 @ 14:27



Comentário de: Tati

É Gravata... O comentário do "autoestima" acima só ajuda a reforçar seu escrito:
"Isso é um sinal de que o "inferno" são eles próprios."
E dá-lhe cd de PNL no povo..hahahaha
Parabéns pelo texto,
Bjos! Tati

(Gravz: Beijo, Tati :))

PermalinkPermalink 03.11.08 @ 15:03



Comentário de: Jeniffer

Concordo com você no seu texto...tmb não gosto de quase nada em você!

(Gravz: :))

PermalinkPermalink 03.11.08 @ 15:53



Comentário de: Marcita

eu não sou muito adepta da "substituição-temporária" da minha personalidade, mas isso não seria apenas uma curiosidade de experimentar como é ser o outro ?

(Gravz: Não entendi)

PermalinkPermalink 03.11.08 @ 16:56



Comentário de: Neila

Embora não você não goste de muitas coisas em vc, saiba que muitos gostam e te enchem de adjetvos, o melhor deles é o cafajeste aquela que toda mulher deseja um (eu adoraria) adoro vc e ao contrario do que vc pensa eu acho tudo bonito em vc.
Beijos

(Gravz: Ê, beleza! Vou começar a acreditar nisso tudo! O segredo para gostar tanto assim de mim é não me conhecer, mesmo :))

PermalinkPermalink 03.11.08 @ 18:14



Comentário de: Edson Forao

Sei bem o que esse sentoento, gravata!
Quando faço uma analise de minha vida, fico mais triste do que feliz. Vejo que, faço e falo muita besteira, e nem sempre consigo corrigi-las.
Em relação a ti, o que importa é ter saúde. rsrs
Brincadeiras a parte, a maior virtude do ser humano é a inteligência. E isso, você têm de sobra.
abraxxx

Obs. ótima resposta dada ao "autoajuda".

(Gravz: Abração, meu caro. E o "autoajuda" pediu, né?)

PermalinkPermalink 03.11.08 @ 19:23



Comentário de: Lara · http://www.larajanuario.blogspot.com/

Adoro quando as pessoas, que simplesmente não sacam a ironia, se apoiam em Satre para transferir a culpa de suas vidas.
Não te conheço pra dizer o que é bom em vc. Mas acho que isso também é variável. Tem dia que gosto de várias coisas em mim e acho que mando bem e tals. Mas tem dias que me acho uma merda. E assim a gente segue seguindo...
:-P

(Gravz: Seguimos segui9ndo :))

PermalinkPermalink 05.11.08 @ 12:47



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