A CLASSE MÉDIA CULTURAL

27/10/2008

A CLASSE MÉDIA CULTURAL

Não sou exatamente um fã do patrocínio estatal da arte. Acho que muitos artistas precisam, sim, de um pontapé inicial, mas vários se valem das leis de fomento para perpetuar uma relação promíscua na qual "uma mão suja a outra".

E nem é disso que vou falar.

Recentemente, conversando com amigos e colegas de trabalho, tratava da "Virada Cultural", o evento recente instituído na atual gestão da Prefeitura de São Paulo, que mistura uma porção de bandas e cantores e o caralho a quatro.

Na minha visão, o ideal é fazer um megaevento, assim nesse molde, no qual seja possível juntar o carinha que faz mímica e TAMBÉM a dupla sertaneja que tenha milhões de fãs. Houve quem discordasse, separando o "comercial" do que seria "artístico".

Não acho que esse seja o raciocínio correto, pois é muito fácil usar esse corte óbvio, separando por uma linha maniqueísta o "bem" do "mal" por meio do seguinte raciocínio: tudo que possui grande vendagem é necessariamente do grupo ruim e tudo que não tem grande vendagem é necessariamente do grupo bom.

Esse grupo de intelectuais do pensamento artístico eu denomino "Classe Média Cultural", justamente por desenvolver o mais óbvio dos raciocínios; aquela coisa de privilegiar o que é "de raiz" e desprezar o que é "comercial".

Vamos aos fatos (e às indagações necessárias).

O que, afinal de contas, é "comercial"? Em que medida Pena Branca e Xavantinho (que deus o tenha) são menos comerciais que Chitãozinho e Chororó? Alguma vez os primeiros recusaram aparecer na Globo? Eles não vendiam discos, mas os doavam? Abriam mão de direitos autorais?

Não, nada disso. Por uma série de circunstâncias, venderam menos. Por uma série de circunstâncias, o povo - sim, minha gente, O POVO - preferiu, em sua maioria, Chitãozinho e Xororó. Não cabe a mim, somente a mim, dizer qual das duplas é "melhor". Seria ridículo. Não há método de medição.

Posso dizer meu gosto e, pessoalmente, fico com PB&X. Mas JAMAIS tutelaria o povão a ponto de considerar que ele seria idiota ou vítima de lavagem midiática por gostar de C&C.

Aliás, a dupla que conta com o pai da Sandy como integrante tem, entre seus maiores sucessos, uma leitura da grande canção "Luar do Sertão", de Catulo da Paixão Cearense. Isso e só isso seria o bastante para calar a boca de quem quer que seja que fale contra eles.

O grande problema, na verdade, é que a "Classe Média Cultural" não aceita o que o povo gosta. E, para não dizer que têm essa repulsa ao gosto popular - pois isso os poria em conflito com suas teses em geral socializantes - eles põem a culpa no... MERCADO!

Cria-se uma idéia fictícia para tentar dar suporte ao raciocínio e fazer a lógica funcionar: a) as pessoas ouvem o artista X; b) as pessoas NÃO GOSTAM do artista X, apenas o ouvem porque os veículos de comunicação fazem campanha intensa; c) as pessoas gostam disso porque DESCONHECEM Y, Z etc; d) tudo seria resolvido se conhecessem o resto.

Roubada.

As pessoas não são uma maçaroca amorfa que caiu do céu. Tudo isso que a "Classe Média Cultural" diz estudar durante anos, creiam vocês, é transmitido pela oralidade e pelos mais diversos meios de tradição nas culturas populares. Do samba-de-roda às mais variadas vertentes de música sertaneja.

Quando aparece um estudante universitário com aquela viola cafona e estropiada tentando fazer um morador da periferia pegar gosto pelo "som da raiz", tudo que o morador da periferia mais quer é ouvir a mistura do sertanejo com o rock, pois ele já está cansado de ouvir a viola que o avô ouvia quando ele era bebê.

A "Classe Média Cultural" está indo, o "povão burro" (eles pensam isso, mas jamais assumirão) está voltando. O povo é muito mais esperto e culto do que eles e conhece muito mais do que eles supõem.

Isso justifica o porquê de nunca acertarem nada e nunca conseguirem atingir no peito e na mente o que o povo quer. Isso justifica o porquê de nunca terem entendido o hip-hop, embora alguns defendam a coisa como "cultura de massa", vez que se tornou inevitável.

Não adianta. A "Classe Média Cultural" está sempre mil passos atrás do povo. Sempre. E isso significa que está, também, mil passos atrás de Chitãozinho e Chororó.

Querem um exemplo? Eles começaram, agora, a usar "mullet". Chororó já fazia isso em 1990... ;)

Por fim, e tentando falar sério, não adianta impor ao povo o que o povo gosta, sob o pretexto de que ele na verdade não gosta do que diz gostar. É fria! É claro que ele gosta, caceta! Se não gostasse, não ouviria.

Esse raciocínio é, antes de tudo, ditatorial. E os mesmos que dão suporte a isso são aqueles que vaiaram Pelé quando ele disse que os brasileiros não sabiam votar. Já repararam? Podem ver...

(sem revisão, no peito e na raça, nem reli... se algo aí fizer sentido, dêem graças a deus - o que é irônico, pois ele não existe)


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transubstanciado por gravata às 27.10.08 | 12 comentários



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Comentários:


Comentário de: Vinicio

Ah, meu senhor: quando a tal de "inteligentzia" propõe um afastamento conceitual da sociedade para uma análise imparcial e classificação das categorias sociais em um paralelo cultura popular x cultura erudita me dá vontade de fazer que nem Goebbels (desculpe a citação, mas cabe aqui, ok?, só que mirando na cabeça ( figurativamente, tá?) dos cientistas socialóides.
E no mais só aguentava esse papo para comer as gostosas do diretório estudantil...

(Gravz: É um papo de frase feita e palavra de ordem, mesmo)

PermalinkPermalink 27.10.08 @ 08:20



Comentário de: Fabricio · http://fabriciokc.wordpress.com/

Boa pauta!
Concordo com a sua análise, embora eu a tenha lido no peito, sem revisão! Mas, me ocorre que, ainda que o povo goste do que diz gostar, isso não anula a industria cultural. Tudo que vira industria fica meio antipatico, né?

A maioria dos estlilos artisticos que o povão gosta muitas vezes surgiram em guetos! A industria se apropria e redimensiona algo para vender. A industria vende o que acha q o povo quer. O Hip Hop contesta a industria através da industria e todo mundo se dá bem.

Depois fale de 'Classe mídia cultural'
abs

(Gravz: A indústria vende o que o povo quer. Ela lança 100 produtos e apena 10 vendem. Então, aposta nesses 10. Milhares voltam pras prateleiras e não retornam ao segundo disco e assim por diante. A indústria arrisca e MUITO. É bobagem supor que TUDO que a indústria venha a lançar seja assimilado e aceito. Não é mesmo. O que ela faz é identificar o tal gosto e equacionar seus produtos. È uma forma de "prostituir" a arte? Pode ser, e isso dá um longo debate. Mas não vejo como algo NECESSARIAMENTE ruim, desde que o artista saiba encaixar qualidade nisso tudo. Chico Buarque sempre soube fazer excelentes canções sem deixar de lado a coisa popular - isso na década de 70)

PermalinkPermalink 27.10.08 @ 09:30



Comentário de: Mariana · http://vutcha.blogspot.com

Eu concordo com o que você falou!
Bem isso mesmo. Para ser bom, é preciso estar no "underground" para esse povo. Salvo uma excessão. Los Hermanos. Vai criticar o trabalho do Marcelo Camelo para vc ver... Vai falar que Ana Julia é chato pra cacete...
Essa do mullets na moda não sabia, foi nova ...

(Gravz: Já devem ter caído em desuso, eu honestamente não sei a quantas anda o mundo da moda. Certa vez fui a uma dessas casas noturnas com gente moderna ou que deveria ser moderna e vi uns meninos com cabelo muito parecido com o mullet, além de uns outros com a tal franjinha que denominam 'emo' - e era usada em meados dos anos 80!)

PermalinkPermalink 27.10.08 @ 09:41



Comentário de: Daniel

Lendo seu texto me lembrei do Tinhorão. Talvez ele seja o mais xiita dos adoradores da música de raíz, mas é odiado por pelos adoradores da MPB por dizer que MPB é uma farsa: nem popular nem realmente brasileira.

Como alguém pode dizer que as "canções de protesto" não tinham um apelo comercial? Ou ignorar que a mídia tentou apagar da história quem não era politizado?

(Gravz: Os fãs de bossa nova odeiam o José Ramos Tinhorão, pois ele põe o dedo na ferida e mostra os plágios descarados. Mas, ao mesmo tempo, agem como "tinhorões" e resolvem decidir o que é bom ou ruim para o povo ouvir. São fascistinhas da cultura, mas não querem que metam o bedelho em seus eleitos. Criam um "politburo musical", coisa assim, e tocam em frente)

PermalinkPermalink 27.10.08 @ 10:32



Comentário de: Flavia · http://ladyrasta.wordpress.com

Classe média cultural pra não chamar de mediocridade na acepção pura do termo né?
Normalmente esse tipo de pessoa não tem assim taaaanta cultura quanto afirma ter - tem é um medão e um preconceito horrorosos, e como não quer ser confundido com a "massa" - então ele só vai a programações alternativas, seja de teatro e de música, e mete o pau no resto, porque acha isso cult, e assim disfarça a sua própria ignorância;

Tem uma outra coisa: tem uma diferença entre o cantor (ou ator) de qualidade que vende muito, e as cópias da receita de sucesso que o mercado lança na cola dos caras e que normalmente não duram - bom, pensando bem, provavelmente não duram porque o povo sabe que são cópias...

Só faço um senão: acho importante que o cara da viola estropiada exista, para preservar a memória, que um dia pode ser ou resgatada na sua forma original, ou revisitada, reformada - aconteceu isso com o samba de raiz, que ficou morto um tempão, e de repente a molecada tá curtindo de novo...

Outro dia achei um texto do Nietzsche que fala a mesma coisa que o "deixa a vida me levar" do Zeca Pagodinho, e falei isso em alto e bom som;
provavelmente a "classe média cultural" me execraria por colocar duas pessoas tão díspares (inclusive quanto à conceituação) na mesma frase - só que eu acho que eles fariam isso porque na verdade não são tão cultos assim, e têm medo de fazer essas comparações...

Beijos!!!

(Gravz: Eu não vejo problema quando um tipo de manifestação artística ou cultural simplesmente "suma". Ao longo dos anos, séculos e milênios várias modalidades foram pro brejo e não há ninguém por aí chorando. Cadê os menestréis com seus alaúdes? Sumiram. Deram vez a variantes mais modernas - cantores com violões e assim por diante. E os próprios menestréis eram sucessores de outras modalidades etc. Esse povo que "pretende resguardar uma variante" tem uma visão limítrofe da história da humanidade. Não são pessoas más, nem necessariamente burras. Limítrofes, apenas)

PermalinkPermalink 27.10.08 @ 11:58



Comentário de: Giba Brizola

Cara, Chitão e Xororó é grafado dessa forma. Um com CH e outro com X.

De qualquer forma, a classe média tem mesmo essa mania de achar legal o que não está na moda só para parecer mais culta e legal que o "povo". O melhor de tudo é que não conseguiriam ver qualidade num artista com grandes vendagens, nem se ele fizesse um show particular para um desses detratores da cultura pop.

(Gravz: Pô, não sabia da grafia. Foi mal :( rsrsrs)

PermalinkPermalink 27.10.08 @ 13:52



Comentário de: BruxaBoazinha · http://www.naotenho.com.br

Concordo. Ninguém faz arte por filantropia, por mais 'alternativo' que pregue ser. Até no ramo da caridade, se vc investigar, tem mais 'pilantropia' do que outra coisa.

Não quero te assustar, mas Deus tá do seu lado dando risada por vc ter dito q ele não existe. =P

(Gravz: Não me assustou)

PermalinkPermalink 27.10.08 @ 14:16



Comentário de: Fabricio · http://fabriciokc.wordpress.com/

"O que ela [a industria]faz é identificar o tal gosto e equacionar seus produtos. È uma forma de "prostituir" a arte?"

POis é, discutimos resultados e esquecemos dos propositos - da arte!

O objetivo da industria é vender, e só! O da arte não, embora esta seja vendável! Mas aí entra o esquema de aliciamento de artistas!...

(Gravz: Eu não acho que o fato de ser comercial seja automaticamente um sinal de má-qualidade)

PermalinkPermalink 27.10.08 @ 14:19



Comentário de: Priscila Freitas · http://resultadosdoocio.blogspot.com

Eu concordo com tudo.
Se você observar também, mais da metade do que é "comercial" hoje em dia é regravação de algo que não foi divulgado da maneira correta ou não alcançou o grande público por N motivos... se olhar a música de maneira geral, tudo vem sido aproveitado e reutilizado, nada fica de fora.

Acho ainda que cada tribo tem sua preferência musical/artística... e tudo que é fora do gosto das pessoas da Classe média alta, elas caracterizam como "música do povão", e da maneira mais pejorativa deixam a entender que quem curte não têm inteligência pra saber o que é bom de verdade. É como se as pessoas fossem marionetes da grande "Indústria da Musica". É mais uma vez um grupo de pessoas querendo impor verdades absolutas baseadas em gostos pessoais.

E eu acredito que se existe uma grande parcela de pessoas que gostam de determinada coisa, é porque tem o seu valor. Talvez não tenha valor para mim, mas não deixa de ter seu valor artístico.

(Gravz: Claro que sim. O simples fato de algo ser vendido não implica na idéia dessa coisa ser ruim :))

PermalinkPermalink 27.10.08 @ 15:13



Comentário de: Alan

Mas é um tal de "povo" pra lá, "povo" pra cá, mas na boa.
Quem é esse povo de que tanto falam?
Cultura é a expressão(creio eu), e há espaço para todo tipo de representação.
Eu acho que sou "povo" e mesmo assim, tenho as minhas preferências, que quase sempre não vão de encontro com a maioria.
Agora quem diz que devo gostar do que é comercial, ou é de raiz, ou sei lá o que, sou eu.
Não me interessa se está na moda ou não.
E já que você começou falando de virada cultural, acho que todas as vertentes deveriam estar representadas, e a escolha deveria ficar à cargo da população e não de pseudos intelectuais.
Gosto muito desse blog.
Acho que é isso, apenas mais um ponto de vista.
Sou "povo" e sei bem o que gosto ou não.

(Gravz: Cada um, quando fala por si, é um indivíduo. Quando falamos em "povo", é para representar maioria etc. Você pode, sem dúvida, sofismar à vontade. Mas basta ir a um show "popular" - adivinha qual a origem do adjetivo??? :) - e ver do que se trata a palavra 'povo'. Depois vá a um sarau universitário e veja o outro 'povo'. Daí discuta na aula de filosofia os conceitos de 'povo'. E, na de biologia, o 'polvo'. E assim por diante. Não estou aqui pra isso, sinceramente. Gostei de seu comentário, claro, mas o que me irrita é quando as pessoas TUTELAM o que o povo - sim, existe o povo - precisa ou não ouvir sob a determinação do que os "pensadores da cultura" decidem que seja bom para eles)

PermalinkPermalink 27.10.08 @ 18:08



Comentário de: D!

Sei lá, não gosto desse relativismo cultural, acho que o povo é meio burro mesmo (artisticamente falando. Ah, geralmente falando!) e nivela tudo por baixo. O importante é ser parte da maioria, eu gosto de chamar isso de efeito rebanho. Se o Faustão diz que tal artista é uma "legenda" viva e vende horrores neguinho vai correndo comprar o produto do dito cujo pra se sentir fazendo parte de um movimento maior. Vou descer mais baixo e falar do funk carioca: vai dizer que esse troço tem algum mérito artístico? Musicalmente falando, sem esse papo sociológico de "expressão da cultura popular" que o Caetano tanto adora. A coisa é artisticamente sofrível, por qualquer ângulo que se olhe. Mas vende, porque passa na TV e tá na moda, daí o playboy que não tem nada a ver com a realidade retratada nessa forma elevadíssima de poesia acha o máximo consumir o dito "funk", só porque todo mundo gosta. Ou não, sei lá. Tou meio azedo hoje... 8-|


(Gravz: É o seguinte. Muita gente chama o povo de "burro" por gostar de Faustão e de pagode. Mas esses inteligentes gostam de MPB e outras coisas; para eles, isso é "inteligente". Aí surge um apreciador de música clássica, verdadeiro estudioso de partituras e tudo mais, dizendo que boa parte da MPB é lixo e o outrora "inteligente" diz que ele é um "caxias". O mundo é assim. Mas "Classe Média Cultural" usa a própria régua para medir a cultura do mundo)

PermalinkPermalink 28.10.08 @ 11:04



Comentário de: D!

Sei lá, nem gosto muito de MPB nem de música erudita. Muita pretensão pro meu gosto. Fico no meio do caminho, com o bom e velho rock, que não é lá muito inteligente, mas também não apela. Mas eu gosto porque gosto, não porque o Gugu mandou, acho que isso é o que vale. Mas eu entendo seu ponto de vista - e até concordo com ele! - mas tava a fim de ser chato contigo hoje!
Faz algumas semanas que comecei a frequentar seu blog. Gostei. Vou vir de vez em quando encher sua paciência! :-)

Abraço!

(Gravz: Abraço, meu caro, e volte sempre :))

PermalinkPermalink 28.10.08 @ 12:20



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