CHICO BUARQUE, 1978 - MEU FAVORITO DO CHICO
12/08/2008
CHICO BUARQUE, 1978 - MEU FAVORITO DO CHICO

Interrompo hoje a seqüência de textos antigos para falar de um disco do Chico Buarque, aquele gravado em 1978 com muitas músicas até então censuradas e, enfim, permitidas.
Não ia publicar nada inédito neste blog, em agosto, por conta de ser o mês de aniversário, tal e coisa, mas dois fatores me obrigaram a tratar do tema: um pedido da Camila, do Mundo Mundano, e a onipresença de minha melhor amiga, Dri, quando se trata de Chico Buarque.
Camila me pediu um texto para a seção cultural da MM, e acabamos decidindo por um texto já publicado no site da chefa, com análise de Jesus e Javé – Os Nomes Divinos, de Harold Bloom.
De todo modo, tinha pensado em falar sobre esse disco, sobretudo porque no mês passado havia comentado a respeito de outros álbuns que eu adoro.
Não sei fazer análise musical de forma técnica, mas sim pessoal e às vezes íntima, de modo que este texto seguramente não prestaria para a MM, mas cabe aqui no blog.
E não costumo, no mais, perder as chances que tenho de fazer referências à Dri, embora ela às vezes pense que eu a sacaneio por publicar aqui algo que tirei de suas idéias.
Bobagem: ela é a pessoa mais inteligente que eu conheço. Quase tudo que eu escrevo é tirado de idéias dela, senão direta, ao menos indiretamente. E isso não é um "pedido de desculpas" porque não tenho culpa de nada. É fato.
Sigamos.
O Disco
Feijoada Completa, um samba (com influências de choro), abre o álbum com extrema categoria. Sem dúvida, é a abertura ideal para um disco com tamanha carga política. A festa, o improviso da festa, o calote na festa. A festa, enfim.
Cálice, com participação de Milton Nascimento, muda o tom e aponta os rumos para outro lado. O ritmo é outro, as palavras são outras e a forma de cantar é forçadamente mais "séria". A voz de Milton é linda, como sempre.
Até o Fim, não sei se todos sabem, possui coincidências absurdas com a vida de Antonio Conselheiro – a traição da mulher com o dono da venda, a cidade (Quixeramobim), a oposição militar (não pode ouvir clarim), a resistência até a morte (até o fim) e o anjo que guia a personagem central da canção.
Tanto Mar e Apesar de Você são hinos políticos clássicos, cada qual à sua maneira, e a última é usada até hoje. São essas duas, nessa ordem, que encerram o álbum.
O disco tem ainda músicas impressionantes como Trocando em Miúdos, O Meu Amor, Homenagem ao Malandro etc.
Por tudo isso e pelas infinitas e inexplicáveis razões pessoais subjetivas, "Samambaia", de 1978, é meu favorito de Chico Buarque.
Mudanças, Censura...
Esse disco é meu favorito (apesar de não ter a música dele de que mais gosto, Flor da Idade), pois é uma espécie de "coletânea de carreira", já que reúne uma série de músicas até então censuradas.
Um dado importante é o fato de que muitas músicas tiveram suas letras alteradas. Querem ver?
Feijoada Completa – Em vez de "pendura a fatura", a versão original era "pendura a despesa" e essa estrofe não começava com o "mulher", mas sim com "aliás". Na série de DVDs do Chico, é possível ouvir a letra original (e, nos extras, a cena engraçada em que ele tenta manter o suporte da partitura em pé, mas cai toda hora).
Cálice – Em vez de "filho da outra", era para ser "filho da puta" (que rima com tudo, podem ver). Mas, se até hoje "filho da puta" dá chabu, imaginem em 1978 ou 1972 (que foi quando ele e Gil a compuseram).
Pivete – A letra ATUAL é diferente daquela gravada neste disco. Em vez de "Emerson", Chico diz "Ayrton", entre outros detalhes (como uma introdução do menino pedindo dinheiro em vários idiomas).
Tanto Mar – A música foi composta quando da Revolução dos Cravos. Obviamente, foi proibida. Depois de liberada, a revolução já tinha ido pro vinagre, por isso a canção trata de fatos passados e não presentes.
Apesar de Você – Pra quem não sabe, a música foi em princípio LIBERADA (1972). A turma da censura deitou na sopa e não percebeu a obviedade do protesto. Depois é que foi recolhida das lojas, mas já era tarde demais. Seu lançamento "oficial", porém, só pôde acontecer em 1978, nesse disco.
Capa Tosca
Uma outra coisa que me faz lembrar da Dri é a capa do disco. Minha amiga, embora seja avessa ao perfil acadêmico clássico, é Mestre em Psicanálise e professora universitária, ofício que divide com seu bem-sucedido consultório.
Certa vez, ela me mostrou a capa de um livro do Lacan, algo absurdamente risível, com um elefante, e também uma outra com fonte de água ou coisa assim. Imagens idiotas para representar obras densas, profundas, excepcionais.
Chico Buarque é um pouco assim, não é, Dri? Capas muitas vezes péssimas (a do violão com a Lagoa Rodrigo de Freitas, a vermelha com imagem borrada, essa de "Samambaia", montagens do As Cidades etc.) e músicas sofisticadíssimas.
Este texto é pra você, Dri. Quando falo sobre Chico Buarque, é como se estivesse falando contigo e não vou agora disfarçar neste texto a idéia de que, para mim, é como se estivéssemos conversando.
Revisão: Hellen Guareschi
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transubstanciado por gravata às 12.08.08 | 21 comentários
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Comentários, Trackbacks:
Um abraço!
(Gravz: O quarto? Mais experimental? Acho que não estamos falando do mesmo quarto disco... Construção é mesmo um disco excelente! Mas eu AINDA fico com o "Samambaia" e, depois dele, "Meus Caros Amigos"
Te amo, paulista - MESMO QUANDO VC COPIA MEUS TEXTOS!
Dri
(Gravz: Não copiei! E eu te amo também, mineira)
(Gravz: Dedicarei, Gê!
Tocaaaa um chicoo aeee Gravsss !
brazzz !
(Gravz: Opa!)
(Gravz: Tem razão, Corvo. Mas, poxavida, a samambaia é foda, né?)
(Gravz: Pergunte pra Marieta Severo se o Chico conhece mesmo a alma feminina)
(Gravz: Ah, é sempre complicado, mesmo)
(Gravz: Eu gosto da capa de Meus Caros Amigos)
(Gravz: Poxa, eu me esqueci dessa. Tem razão)
Eliana Turnis.
13/08/2008.
Chico é Chico suas letras são tudo de lindo que xiste, (exceção de Vinícius e Tom, e considero par e passo com ele, ontem hoje e sempre, lamentávelmente ele está deixando de compor e só escrevendo livros, enquanto isso, somos obrigados a ouvir os bate estacas da vida, os Bruno e Marrone, todos os goianos com do dr corno, e muito mais...Pena ...pena mesmo... Mas uma das melhores do Chico quase ninguém conhec é um chorinho, no chivo volume 3,... "junto o meu canto a cada pranto a cada cchoro até que alguém me faça coro pra cantar na rua" ... Isso é história, esse pais de miséria, tem coisas lindas também, muito lindas, e temos que valorizar o que é nosso!
(Gravz: Certo, Maria!)
(Gravz: Eu gosto da música "Almanaque", mesmo)
(Gravz:
Mas, acho interessante ouvir "Paratodos" porque ali ele busca outras sínteses para as suas canções, tanto em termos de melodia quanto em termos de letras. Aí, chegamos a "Carioca" outro disco com um som muito bacana!
Um beijo e um queijo a todos
Wander Paulus
(Gravz: Sem dúvida, sintetiza mesmo o estilo da década, muito bem lembrado)
As músicas formam a trilha sonora da peça do cantor "Calabar:O Elogio da Traição". Algumas vêm em instrumental pq a Censura cortou a letra. As músicas são as seguintes: Prólogo: O Elogio da Traição (instrumental);Cala a Boca,Bárbara; Tatuagem; Ana de Amsterdam;Bárbara;Não Existe Pecado ao sul do Equador;Boi Voador Não Pode; Fado Tropical; Tira As Mãos De Mim;Cobra de Vidro; Vence Na Vida Quem Diz Sim (instrumental); Fortaleza.
CURIOSIDADE: Nã música "Não Existe Pecado ao Sul do Equador",Chico teve que modificar um verso por exigência da censura, senão a música seria vetada.E na canção "Bárbara" uma palavra foi suprimida na gravação.Coisas da censura.
(Gravz: Faltou dizer que o sacanearam com a peça "Calabar", cuja liberação nunca saía e ele perdeu uma fortuna com o aluguel do teatro. E "Barbara", na versão de 1972 ao vivo com Caetano Veloso, tenha trechos sufocados por aplausos falsos que a Philips colocou em razão da censura)
abraços Gravata
(Gravz: É isso aí! Abraço!)
Obra que retrata a inteligência brasileira, que se cantarola, se assobia no dia a dia em qualquer recanto desse país continente.
A permuta dos santos comprova.
Abraço grande.
(Gravz: Gosto muito de A Permuta dos Santos)
=*
(Gravz: Tenho a versão antiga, a letra é toda diferente)
Coisa linda.
abraço
(Gravz: Ser "gauche", né?)

