PERSONAGEM DE PIADA
23/06/2008
PERSONAGEM DE PIADA
Uma vez quase aluguei um filme cujo argumento se resumia no seguinte (acho que é isso): o sujeito percebe que é personagem de um livro e começa a interferir no próprio destino, de modo a convencer a autora a não fazer isso ou aquilo. Não vi o filme, posso ter errado feio, mas pela sinopse deve ser mais ou menos essa historinha.
Uma leitura mais rasa e rápida nos faria pensar naquela velha idéia de que temos força individual para fazer nossa própria história, o destino é pura lorota, não há destino fatalista, nada está escrito nas estrelas (ou em búzios etc.). Não acho essa leitura errada e até concordo com as premissas.
Mas talvez o filme quisesse dizer outra coisa.
Minha interpretação é kafkiana e totalmente paranóica. Nossa vida não é um filme de comédia, com gente rindo disso tudo (embora, ao menos no meu caso, haja motivo de sobra). Nossa vida é uma coisinha besta e ponto final. Mas, sem que saibamos, somos personagens, sim.
Não de um livro, filme ou coisa do gênero, mas de histórias. Sim, eu sei, isso é óbvio. Os boatos existem exatamente para agregar ficção a aspectos reais da vida – curiosamente, sob o pretexto de falar a "verdade" por trás das "aparências".
Também não é disso que falo. Todos podemos ser vítimas de mentiras ou boatos e isso é uma tragédia – menos quando nos contam a "quentinha", aí até que é legal (mentira?).
Voltemos à leitura que fiz daquela sinopse (e não pensem que é fácil analisar uma premissa cinematográfica sem ter visto o filme!)... Muitas vezes, somos objeto de piada, de gozação e tudo mais, sem que saibamos (claro), mesmo estando todas as evidências em nossa fuça.
Conversando com uma amiga, hoje, minha melhor amiga, falei de uma garota, tal e coisa. Ela foi taxativa e isso me irritou profundamente: "você é motivo de piada, não percebeu ainda?". Como assim? Sou nada! Divergi, discordei etc.
E agora estou aqui, publicamente concordando com tudo que ela disse. Ela está coberta de razão. Ela sempre está coberta de razão. Não vi aquele filme, mas na historinha parece que o moço tenta reverter tudo. Porque é – acho – uma comédia romântica.
Não há romance quando se trata dos aspectos cômicos ou tragicômicos de nossa vida. E, sem romance, não há porque mudar a história. Somos personagens inanimados de anedotas desconhecidas, piadas de sabe-se-lá-onde. Mas que são reais. Somos como o papagaio fanho ou o português da padaria na boca da moça que de perto tem outra conversa.
A essa altura, espero que a ficha de todos já tenha caído: sim, vocês também são objeto de chiste. A vida é assim. Nem todas as pessoas o são, mas a vida é. E não é moleza.
Eu amo demais a minha melhor amiga. E por mais que seja doloroso ser piada para algumas pessoas, eu tenho plena certeza de que não há preço para o carinho sincero que ela tem por mim – mesmo (ou, talvez, principalmente) quando é preciso abrir meus olhos.
Revisão: Hellen Guareschi
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transubstanciado por gravata às 23.06.08 | 14 comentários
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Comentários:
fui passado pra trás semana passada e fiz uma sessão descarrego no meu blog. Mas c falou dum jeito mais elegante.
Acredito que o filme citado seja o "Mais Estranho que a Ficção". Curti bastante. O filme brinca com a própria idéia de se tratar de uma comédia (romântica) ou tragédia.
Mas dizer isso faz me sentir o sujeito que explica piada.
(Gravz: Sessão descarrego? Vixi!)
Não faço idéia de que filme é esse, mas inexplicavelmente me lembrou daquele do Jim Carrey "Brilho eterno de uma mente sem lembranças", eu acho. É meio besta, mas fala algo parecido, não com o cara servindo de piada, mas tendo sua vida sentimental explorada por outrem. E, "off-topic dizendo", pela primeira vez concordo 100% com o mestre: Leandra Leal é absurdamente gata.
(Gravz: Do Jim Carrey o mais parecido com a temática do texto é aquele do Truman)
Se nãop me engano Doulgas Adams em um de seus livros da coleção 'O guia do mochileiro das galáxias' diz: '...a culpa é da vida, por não ser verdadeira nem bela ao mesmo tempo...'.
E ainda acrescentaria, 'nem engraçada'.
Normalmente a piada quando direcionada a outras pessoas tem mais graça.
Abração!
(Gravz: A culpa não é da vida)
Mas tudo bem. Eu sobrevivo. E continuo amando você, paulista temperamental.
Beijos.
(Gravz: Meu mau humor é legalzinho às vezes, vai)
(Gravz: Acho que é esse o filme, mesmo)
Todas as vezes que o critiquei ou tentei alertá-lo sobre algo ou alguém sua reação foi péssima e você sabe que de todas as criaturas que gravitam a sua volta sou acima de qualquer suspeita por amá-lo incondicionalmente.
(Gravz: Quando sua mãe lê seu blog é sempre uma alegria. Mas também surge a "bronca/queixa online")
O "Show de Truman" (esse é o nome) é perfeito pra mostrar essa vontade de tomar as rédeas da vida, mandar todos os coadjuvantes pro inferno, pé na porta mesmo e tchau! É o que dá vontade quando a gente vira motivo de piada.
Abraço!
(Gravz: Eu ainda acho que o Truman voltou para o "cativeiro" quando teve que trabalhar de verdade)
Acredito que nossa vida somos nós quem fazemos, cada decisão é um caminho que tomamos.para cada pessoa que nos conhece a nossa vida tem um roteiro diferente, pois cada um tem uma visao diferente, para alguns, somos fortes, amigo, profissional, para outros uma pessoa chata, mal-humorada, metida, para outros ainda uma mistura disso tudo. é muito relativo. vc não é piada, com certeza não. o seu roteiro comigo não é esse pelo menos.bj
(Gravz: Eu não apenas acho que sou protagonista de piada, como ainda por cima é daquelas anedotas que demoram horrores para não ter graça no fim)
No mais, sempre é um impacto quando você percebe que você, o protagonista do seu próprio filme, passa por situações tão desinteressantes (ser motivo de piada, por exemplo). Acontece comigo direto.
Acho que se a vida fosse um filme, não seria uma comédia pipocão cheia de humor escatológico. Seria mais para um filme-arte bem pedante, daqueles com tomadas longas e silenciosas e com fim bem abrupto.
(Gravz: Às vezes eu acho que sou figurante do meu próprio filme)
E nossa vida, essa sim é uma grande comédia. Deus fica lá em cima rindo horrores. É a tal videocassetada cósmica, como bem disse o diabo de Al Pacino em "Advogado do diabo". Nossa saída é rir com ele! Beijo!
(Gravz: É... A saída é essa, mesmo)
Um salve
Muca - Conexão CG Muita Treta
(Gravz: Mas não é um texto triste, ué. É algo até engraçado
Tá depré demais, cara. Tome um prozac, um energético ou erva de s.joão. Ou melhor, gere um filho. Mas se você tem um filho(a) e pensa assim mesmo, porra ... aí a coisa tá feia mesmo pro seu lado. Consiga um revolver ou uma corda.
(Gravz: Vocês se iludem com promessas religiosas e a culpa é minha por ser lúcido o bastante para não acreditar nisso? Não disse que sou infeliz; apenas não entro nessa alucinação de paraísos e afins, nessa pseudo-felicidade baseada em mentiras. Não sou eu que preciso de Prozac, mas você que precisa de algo para trazê-lo à relidade. Ou então continue aí, porque o mundo real não é para pessoas fracas)
