CHARLIE KAUFMAN SABE DAS COISAS ou SOBRE "A NOVA GERAÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA"

26/05/2008

CHARLIE KAUFMAN SABE DAS COISAS ou SOBRE "A NOVA GERAÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA"

Charlie Kaufman é roteirista de filmes, e não escritor. Os escritores gostam de deixar isso bem claro, para que ele não os humilhe com tanto talento; mais ou menos como fazem os poetas-poetas em relação a Chico Buarque e Caetano Veloso.

A dupla da MPB, como é sabido, põe no chileno praticamente 90% dos autores de poesia contemporâneos. A solução para os da "poesia pura" é dizer que "letra de música não é poema", e nisso são acompanhados pela modéstia e pelo desprendimento dos músicos - que, no fim das contas, são até amigos de alguns pobres coitados que se metem a escrever versos chatos.

Kaufman é mais sincero. Perguntado se "Synecdoche, New York", sua estréia na direção, teria influência de "Fellini 8 1/2", ele respondeu simplesmente que não conhece esse clássico do legendário cineasta italiano. A melhor resposta do mundo! Sincera e - naquele contexto - sem empáfia.

E daí vamos para a "nova geração" da literatura brasileira. Esse termo que, em geral, é empregado como um eufemismo de "pessoas velhas que não têm criatividade" ou simplesmente "infames facínoras da narrativa". Embora sejam quase todos bem bocós e mocorongos, eu tenho medo de suas obras, verdadeiro pavor.

Eles, com os livros, são como aqueles meninos inocentes que entram numa escola primária dos EUA e disparam metralhadoras. Cara de bocó, jeito de bocó, timidez de bocó, mas uma capacidade de destruição impressionante. Passo longe de livros da "nova geração", e nem adianta tentar me enganar. Dá para reconhecer o estilo mesmo trocando as capas.

Quando não falam de um escritor ou alguém envolvido com letras, o "truque" é contar uma história sem começo, meio ou fim; e, invariavelmente, sem história, mesmo. Pra que se apegar a isso, não é? Eles escrevem "bem" e ponto final. Enfim, eu passo. Eles têm uns aos outros para a bajulação, o que talvez supra de certa forma a falta de leitores e a carência afetiva.

Também é péssimo quando alguns fazem coisas declaradamente autobiográficas, como se alguém com 25 ou 30 anos tivesse algo a ensinar ao mundo, sobretudo nos dias de hoje. E isso vale também para os "teatrólogos da nova geração" - que são, de fato, mais velhos, já que o mais novo deles, por exemplo, tem cabelos brancos e idéias também brancas.

Uma coisa divertida é o fato de que ambos - "escritores neófitos", "autores quarentões ainda não descobertos" ou mesmo "teatrólogos púberes quase cinqüentões" - detonam gente como Dan Brown.

Eles, os "da nova geração", são um bilhão de vezes piores do que o americano best-seller. E os motivos são simples e objetivos: faltam idéias e sobra pressa em escrever o nada-com-nada. O americano, pelo menos, tem uma imaginação fértil.

Os "novos das letras" sempre assumem suas influências. Ao contrário de Kaufman, que não apenas nega a referência a Fellini como modestamente confessa não ter visto o filme aludido pelos repórteres.

Nossos escritores, porém, são influenciados por Bukowski, John Fante, Kerouac (os mais porra-loucas); ou Nelson Rodrigues, Paulo Francis e LFV (os da blogosfera); ou ainda autores obscuros (os bocós mais metidinhos).

Em comum, não têm apenas uma aparentemente péssima compreensão das obras que seriam suas bases, mas também o fato de que transformam tudo isso em grandes porcarias (os porra-loucas, pelo menos, são mais sinceros, já que quase sempre se baseiam em autores inócuos, criando assim obrigatoriamente obras inócuas).

O mais engraçado de tudo isso é que Kaufman se retrata como um perdedor - haja vista o que ocorre em "Adaptação" -, bem como Chico e Caetano cedem o título de "poetas" para aqueles que se dispõem a escrever única e tão-somente poesia.

Enquanto isso, poetas e autores "de verdade", mesmo com obras risíveis e pífias, não abrem mão de seus títulos. São, para si, o máximo. Para o resto do mundo, são o nada.

E a culpa é do mundo, claro, que não tem subsídio intelectual para aprofundar-se em suas obras.


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transubstanciado por gravata às 26.05.08 | 10 comentários



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Comentários:


Comentário de: Gabriel · http://gabriel-elementos.blogspot.com/

O pior é que, sempre que esse pessoal dá entrevista, a primeira pergunta que o entrevistador faz é: "o que voce acha da nova geração"?

(Gravz: Devem ser jornalistas da 'nova geração', também)

PermalinkPermalink 27.05.08 @ 03:58



Comentário de: Zé

Se roteiros fossem literatura, se chamariam livros. E se musica fosse poesia, se chamaria poesia mesmo.

(Gravz: Beleza, Zé. Você é aquele que dizia assim 'se droga fosse uma coisa boa, não chamava droga'. Não é? Pode confessar...)

PermalinkPermalink 27.05.08 @ 06:35



Comentário de: Helder Maldonado · http://hemorragia.blogspot.com

Leio sempre o blog, mas só agora vi um texto em que concordo do princípio ao fim. Isso é um fato fácil de verificar, mesmo porque os leitores dessas obras bocós são também uns bocós. Dificilmente se encontra uma pessoa esclarecida lendo o novo vencedor do prêmio Jaboti. Elas preferem os clássicos. Eu tenho uns garcia-roza aqui em casa e nunca tive a coragem de folheá-los. Perca de tempo, sem dúvidas.

(Gravz: O negócio é tirar um sarrinho, Helder)

PermalinkPermalink 27.05.08 @ 07:24



Comentário de: karapalidavos

A escassez de talento verificada atualmente não se restringe ao campo literário, mas parece atingir todas as formas de arte. Basta citar a nova horda de "compositores" brasileiros - especialmente os baianos -, os quais, a meu ver, deveriam dedicar-se a qualquer outra atividade humana, exceto a música. Apesar de ser fã da dupla, penso que o Chico Buarque e o Caetano Veloso não têm qualquer traço de modéstia ou desprendimento e não cedem coisa alguma a quem quer que seja. Neste quesito, aliás, eles são iguais aos "autênticos" autores: se acham o máximo.

(Gravz: Nada. O povo é que os acha o máximo e o Caetano ainda embarca, às vezes. O Chico sempre fica na dele)

PermalinkPermalink 27.05.08 @ 15:21



Comentário de: bobmacjack · http://outforlunch.blogspot.com

Surrupiando seu chiste: "obra" em que sentido?

(Gravz: Em todos :))

PermalinkPermalink 27.05.08 @ 16:39



Comentário de: Leo Coelho

Gravataí, tô sempre lendo seu blog, mas achei meio exagerada esta ira toda contra novos autores. Tem muita gente chata e pedante, de fato, querendo se meter a intelectual de merda e a escritor incompreendido. Mas tem muita gente bacana, que escreve simples, sem afetação, e que não é muito lá de holofotes. Vamos lembrar que houve o momento em que os grandes autores do Brasil ou do mundo foram 'novos autores', saindo do nada para ganhar as páginas dos livros. Resumir toda a nova literatura brasileira a um lixo incondicional é achar que todo este processo, chamado literatura, não vale a pena. Pois pode saber: os escritores medíocres acabam ficando no caminho e os verdadeiros subsistem. Deixemos ao menos que eles ponham a cabeça para fora para que analisemos se suas obras, de fato, valem o preço da capa, e façamos assim nossa 'seleção natural'.

Abraços,
Leo

(Grav: Leo, o texto é uma gozação. Mas claro que os autores da nova geração são quase todos ruins, mesmo :))

PermalinkPermalink 27.05.08 @ 17:10



Comentário de: aninha

«põe no chileno» hahaha :)

(Gravz: Vixi! Nem vi isso rs)

PermalinkPermalink 27.05.08 @ 20:52



Comentário de: léo · Http://dancafragmentada.blogspot.com

olá Gravatai

E vale lembrar, que qualquer autor de romanção "americano" faz uma imensa pesquisa e um estudo imenso antes de por as linhas no papel.
Aqui, me parece a velha piada do teatro : Na hora sai!

abs

(Gravz: Sem dúvida... Pesquisam mesmo!)

PermalinkPermalink 27.05.08 @ 21:36



Comentário de: Claudix

Homem, vc é tudo. MARAVILHOSO.

(Gravz: Uau!)

PermalinkPermalink 28.05.08 @ 01:39



Comentário de: Janaína · http://arrastao.apostos.com

Ele é o máximo mesmo. Vc acertou de novo. Beijoca.

(Gravz: Agora, ninguém me segura)

PermalinkPermalink 28.05.08 @ 18:26



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