EM DEFESA DOS GIBIS "ROOTS"

21/04/2008

EM DEFESA DOS GIBIS "ROOTS"

dc

Não sei bem quando foi isso, mas lá pelas tantas começaram a surgir gibis "adultos". Não, não tinham qualquer relação com a rubrica "adulto" que em geral recebem publicações, filmes e outras obras com conteúdo, digamos, mais sexual.

Milo Manara está aí desde o tempo do onça para comprovar a tese de que quadrinhos "adultos" (na aceção XXX do dicionário) não são coisa da década de noventa.

Também não acho que esse negócio de "adulto" dissesse respeito à política ou aos costumes, porque tanto Mafalda quanto Freak Brothers são coisas de décadas e décadas atrás. Sem falar na obra revolucionária de Robert Crumb.

O que seriam, então, os "quadrinhos adultos"? Pois bem: são aqueles com heróis (sim, há os "heróis"), mas cujas ações não são exatamente coisa da luta do bem contra o mal, mas sim uma soma de fatores, escolhas, circunstâncias contextuais e até - sim, sim... - políticas.

É a "onguização" dos gibis! Acabou a troca de sopapos, fim de jogo para Superman e sua cueca por cima da calça (já foi tendência, hoje é cafona). Wolverine deixou de ser um distribuidor de bordoadas para ser, sei lá, um cruzamento de piranha com o homem-do-campo de Rosseau.

O Justiceiro, coitado, sofreu esse tipo de mazela. O querido Frank Castle, que fazia Capitão Nascimento parecer o Gandhi, jajá se transforma num distribuidor de manuais, panfletos e, quiçá, um palestrante em busca da paz pelos caminhos do Estado de Direito.

Bichice.

Historinha de herói é para o bem vencer o mal, sim. É para a porrada comer solta e todas as leis científicas serem desafiadas numa só vez. É para que um cientista seja, num só tempo, especialista em mil áreas e consiga construir base secreta, bombas e veículo de fuga sem dizer onde arrumou dinheiro.

Hoje, com meus olímpicos, atléticos e invejáveis 31 anos, obviamente não vejo a menor graça em nada disso. Ok, até vejo um pouco. Mas eu me preocupo com as novas gerações. O que serão desses meninos e meninas se não puderem ler um gibizinho maniqueísta? Crescerão meio bocós, não?

Agora, se é para fazer gibi realista, deveriam criar o "Super Ongueiro", cujos poderes consistem numa incrível capacidade de angariar verbas governamentais sem licitação (graças aos dons de Oscip), entre outras peripécias.

Mas, não. Quadrinho "adulto" é aquele no qual o herói tem draminha de consciência e crises existenciais, faz reiki e se trata com florais, não sem antes passar no cromoterapeuta. Todas suas atitudes são amplamente discutidas à luz do existencialismo, e até os uniformes - vejam só! - são objeto de análises políticas e ideológicas. O "herói adulto" é chato, bobo e cara de melão.

"Watchmen", de Allan Moore, talvez represente, hoje, muito uma crítica (ou até escárnio) aos "quadrinhos adultos" do que a provável idéia original de se fazer gozação com os heróis tradicionais.

Ah! Nem ousem falar "gibi". Sai até tiroteio! Eles só aceitam denominações como "HQ" e coisas do tipo. São mais ou menos como os fãs de Senhor dos Anéis, que refutam veementemente a idéia de que a saga - tanto a literária quanto a do cinema - seja feita para crianças.

E viva os gibis de pancadaria, de bem contra o mal, de superpoderes inexplicáveis e vilões caricatos!

marvel

(os dois desenhos são de Alex Ross)


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transubstanciado por gravata às 21.04.08 | 13 comentários



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Comentários:


Comentário de: Drika

Engraçado...ao mesmo tempo em que gosto de estórias simples e divertidas, também sou fissurada nesses lances de herói ambíguo e vilão complexo... Bem, o mundo é imenso e tem espaço pra tudo. Vai do momento, se você quer só se divertir ou se "intelectualizar" (vendo filme de herói?huahuahauahua!) Não gosto de maniqueísmo, mas às vezes, num ambiente de heróis em quadrinhos, é o que melhor vem a calhar, só pra sentir aquela emoçãozinha especial de ver o bem vencendo e a pancadaria comendo...mas eu continuo achando, assim como o ator Omar Prado, que o cinza é muito mais fascinante do que o preto e o branco ^^
Você diz que chamar "gibi" dá confusão?? Então experimenta conversar com um fã de animação japonesa e chamar os animes de "desenho animado japonês"! O fanatismo é tanto que muita gente acha a diferença ENORME! E está disposto a matar quem disser o contrário!^^

(Gravz: Claro que também gosto dos "gibis sérios", tal e coisa. Mas é que fico com raiva quando a turma cai de pau em cima dos gibizinhos de "bem x mal". Assim não, né? Mais respeito! :D)

PermalinkPermalink 21.04.08 @ 20:06



Comentário de: Drika

Ah, é mesmo...até porque tudo precisa ter uma origem, ainda que mais simples, porém é sempre interessante...se não fossem os gibis maniqueístas, não existiriam os demais... Eu penso o mesmo sobre os fãs de anime que desprezam Digimon achando que Sailor Moon é mais "complexo", hehehehe!

(Gravz: Nem sei o que é "anime", então imagina como fico perdido nisso tudo rs)

PermalinkPermalink 21.04.08 @ 21:18



Comentário de: Drika

^^
Animes são aqueles desenhos japoneses que as crianças vivem falando...tipo Naruto, Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco...quer ver, qualquer dia pergunta pra algum pirralhinho ou "pré-adolescente"...mas só pergunta e sai de fininho, porque alguns se empolgam e haja informação!

(Gravz: Ah, então sei o que é. Beleza! :))

PermalinkPermalink 21.04.08 @ 21:51



Comentário de: Anti

Dias atrás achei misturada com umas revistas, uma edição de Marvels desenhada pelo Alex Ross. Com o Anjo na capa. Deve ter seus 8 anos de idade já. Os desenhos são lindos.

(Gravz: Vi logo que lançaram a edição gringa. Putamerda. Impacto total, quase caí pra trás com aquelas capas, os desenhos. Depois, fui saber que muita gente na Marvel achava que seria um fiasco...)

PermalinkPermalink 21.04.08 @ 23:56



Comentário de: Fernando José

Fala aí, Gravata, beleza?
Você poderia explicar melhor por que acredita que "O Senhor dos Anéis" tenha sido escrita propositalmente para crianças? O Tolkien chegou a declarar alguma coisa a respeito? Pergunto isso porque quando era criança meu pai quase me obrigou a lê-la e eu achei um saco, não terminei nem o primeiro volume. Depois de velho, li e achei um troço maravilhoso. Será que uma criança tem condições intelectuais de contemplar todos os aspectos simbólicos e linguísticos que o texto traz?
Abs e parabéns pelo blog!

(Gravz: É feito para crianças em razão da temática, mas o autor tinha conhecimento acadêmico e fez lá suas embaixadinhas no decorrer da obra. Acabou nesse verdadeiro paradoxo, mesmo: livro infantil com carga teórica. Vai entender... Ah, e valeu! Abraço)

PermalinkPermalink 22.04.08 @ 08:50




Olá, achei que o texto tem um pouco a ver com o livro que eu tô lendo (pasmem) "A psicanálise dos contos de fada" Bruno bettelheim. E sabe por que? Por que as crianças precisam de tais conflitos, precisam saber que haverá momentos difícieis e que no mundo não há só pessoas de bom coração. No gibi, de forma mais clara isso é mostrado e até segue um pouco mais do que os contos de fadas, que depois de certo tempo acredio que as crianças percam o interesse e passem a ler gibis, na minha infância foi assim, dos livros para os gibis. E os adultos tbm merecem ler e podem ler os mesmos gibis, mas a análise de valores com certeza vai ser diferente.bj

(Gravz: Viu só? Viu só? :D)

PermalinkPermalink 22.04.08 @ 12:29



Comentário de: Carla

Na minha infância eu lia Disney e Maurício de Souza. Conheço Marvel e DC por causa do meu marido, que, em priscas eras, os colecionava. Outro dia comentava com ele que Wolverine era um herói "sui generis" porque era cheio de crises, o que poderia ser muito chato, se as suas decisões não fossem, muitas vezes, politicamente incorretas, como são.

Se esse novos "heróis" aos quais vc se refere seguem a linha do politicamente correto (tipo, "não atire o pau no gatô-tô") devem ser exterminados sem dó. Era só o que faltava...

Toda essa conversa de maniqueísmo me lembrou He-man: "O bem vence o mal, espanta o temporal, azul e amarelo, tudo é muito belo." Lembra? :)

(Gravz: O Wolverine é firmeza. Ele é uma ruptura ao esquemão)

PermalinkPermalink 22.04.08 @ 12:55



Comentário de: léo · Http://dancagragmentada.blogspot.com

olá Gravatar.

Deixa -me ser um pouco bocó nesse espaço.

O quadrinho adulto foi criado por Allan Moore e Watchmem é o grande guia dessa idéia. Quer dizer o de sempre, uma idéia original e um monte de imitadores. Hoje o velho Moore até rejeita, e muito, essa idéia de gibi adulto, já que ele foi alimentado com o melhor dos anos 50 e 60 ( masi maniquesita!). É dele um belo gibi chamado Supremo, em que o ingl~Es homenageia o super-homem das antigas. e é claro a Liga dos Extraordinários que é ação do começo ao fim.

E pra quem quiser ler um gibi com o melhor dos anos dourados adaptados para o sdias de hoje: Grant Morrison é o cara!

Mando este outro comentário porque não me lembro se mandei o primeiro. PODE?!

ABs e chega de ser bocó

(Gravz: Moore fez "V de Vingança" bem antes de Watchmen :))

PermalinkPermalink 22.04.08 @ 13:35



Comentário de: Te

Isso mesmo! Pela volta do collant amarelo do Wolverine e do Lex Luthor maluco!

(Gravz: O Lex Luthor maluco era legal :D)

PermalinkPermalink 22.04.08 @ 13:51



Comentário de: Kelli · http://kutekavern.blogspot.com

Nossa, toda essa conversa sobre quadrinhos e ninguém ainda falou do Neil Gayman? Sandman é muito bom. E tá pra sair Stardust no cinema (que não é quadrinhos, mas tô nem aí;).

Ah, e Monstro do Pântano também é legal. :D

(Gravz: Eu acho que Neil é para fracos. Sandman é para fracos. Os Eternos foram criados especificamente para os fracos. Viva Hulk! :D)

PermalinkPermalink 22.04.08 @ 17:52



Comentário de: Hazzamanazz · http://a-taverna-do-barbaro.blogspot.com

"Quadrinho "adulto" é aquele no qual o herói tem draminha de consciência e crises existenciais, faz reiki e se trata com florais, não sem antes passar no cromoterapeuta. Todas suas atitudes são amplamente discutidas à luz do existencialismo, e até os uniformes - vejam só! - são objeto de análises políticas e ideológicas. O "herói adulto" é chato, bobo e cara de melão."

Palavras suas, não minhas.

Cara, acho que você deu uma errada forte. Isso aí são as histórias do X-Men, Homem de Ferro, Capitão América, Super-Homem, Batman, etc. Desde a década de 60, aliás.

O tal gibi adulto nada mais é do que uma temática para vender sabonete, afinal, com exceção de Sandman e uns poucos outros, quase nenhum é essencialmente adulto. E gibi é para vender, esqueceu?

Outra coisa que você esqueceu, é que quem compra gibi hoje em dia não são moleques, a maioria é gente de 30 anos! Você quer falar sobre o que para esse pessoal, da Turma da Mônica? o.O Quer um gibi adulto, onde o pau come feio, mas eles não ficam em lenga-lenga? "30 Dias de Noite" é um. Pena que fizeram um filme merda dele, já que a história é duca.

[ ]'s

(Gravz: Sandman é bobo demais)

PermalinkPermalink 23.04.08 @ 05:08



Comentário de: Aragorn

O Hobbit é um livro para crianças. SDA é para adolescentes. É perceptível a mudança na narrativa nessas duas obras.

Na Inglaterra, inclusive, ler a trilogia é uma espécie de ritual para a idade "quase adulta" ou seja lá o que eles chamem por aqueles lados.

(Gravz: Então tá explicado o comportamento de Beckham)

PermalinkPermalink 23.04.08 @ 13:49



Comentário de: Ângelo Mello

Cara, você limitou o tema aos quadrinhos de super-heróis. O ramo de quadrinhos adultos vai além disso e de Sandman, que eu tb acho chato pra caralho. Pra mim, a melhor série adulta é Preacher, disparado. Uma obra fantástica, se você não conhece não sbe o que tá perdendo. Transmetropolitan e Y: The Last Man são outros título excelentes. Sem falar na obra de Joe Saco que mistura jornalismo e HQ, de um jeito parecido com o Persépolis que virou animação e concorreu ao Oscar. A série Gen, sobre a explosão da bomba de hiroshima é outro clássico.

(Gravz: Preacher é bom. Eu gosto mais de The Autorithy)

PermalinkPermalink 23.04.08 @ 18:20



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