A VIDA COMO ELA É

31/03/2008

A VIDA COMO ELA É

Não, não vou falar de Nelson Rodrigues. Quem me dera. Falo de coisas menores: eu, você e o resto do mundo. A idéia aqui é falar do quanto nos enganamos e enganamos uns aos outros, dando ao universo um aspecto surreal, fictício, teatral, simulado.

Alguém na filosofia, psicologia e/ou sociologia já deve ter falado disso com maior propriedade e as citações mais adequadas (hinduísmo, Platão, Baudrillard etc). Eu vou na raça, porque tenho blog e meu compromisso acadêmico é nulo. Vida mansa, né? Prossigamos.

Na sexta, eu disse que era feio. E sou mesmo feio. Mas você, leitor, provavelmente é ridículo. Porque, na média do Brasil - talvez do mundo -, eu não sou "feio". Ocorre que a feiúra não se obtém pela estatística, mas pelo apuro estético.

Sou feio, mas a maioria é AINDA MAIS FEIA. Funciona assim, e a regra vale também para a inteligência.

Quase sempre dizem "ah, você é inteligente". Não, não sou. Sou medíocre, limitadíssimo, estou quase no campo da fraude intelectual. Mas a grande maioria é burra, idiota, estúpida etc. Daí, para não assumir que o mundo é burro, fica menos doloroso alguém dizer que sou inteligente.

Mas não sou. Obviamente não sou. Os "inteligentinhos", ou seja, os bons de retórica, improviso e com personalidade impositiva (minha turma, porém) somos (*) uns picaretas, verdadeiros caras-de-pau! Porque sabemos muito bem quão meia-boca é nosso intelecto, mas jamais recusamos elogios.

Bom... Eu recuso. E muitas vezes sou considerado um doente mental por isso (ok, e também por outras coisas). Ou então dizem que sou "do contra".

Com exceção das vezes em que faço isso por um bizarro senso de diversão baseado no escárnio, em geral também participo do teatrinho. Tenho minhas necessidades sociais e não vou também bancar o eterno "beatnik dos elogios", o "paladino anti-bajulatório".

Recomendo a todos, inclusive, que façam isso. Brinquem aqui e ali, negando elogios e reconhecendo que somos todos uns mandrakes, mas em ocasiões sociais mais sérias aceitem de bom grado os afagos estéticos ou intelectuais.

Embora não devamos nos enganar quanto à realidade dos fatos, à veracidade das coisas da vida e aos defeitos que temos e todos têm, não é muito produtivo e razoável sair por aí "pregando a verdade".

No fundo, ninguém é tão besta quanto a isso (a maioria é besta em várias coisas, mas nessa parte é quase todo mundo bem sabichão): todos sabem que a verdade é verdade e sabem quem é inteligente, burro, magro, gordo, feio, bonito etc. Mas fazem o teatrinho, ou adotam o "silêncio obsequioso". Isso torna a vida em sociedade mais simples e bem menos conflituosa.

No fim, é isso: você, leitor, é feio (e você, leitora, também). Talvez você seja ridículo, insuportavelmente medonho, e além de tudo é bem provável que tenha um QI que ao mereça enaltecimentos.

Mas não falem disso com ninguém. Deixa que eu falo, e aqui no blog; porque, pessoalmente, não sou besta. Também faço o teatro.

Voltando à filosofia, ou ao meu bom e velho diletantismo, é como se invertêssemos os universos platônicos. Tratamos como real o mundo que não o é; e vice-versa.

É isso aí. Não há pote de ouro no arco-íris, nem reencarnação ou vida após a morte; ninguém vai nos salvar do inferno, e a parte boa é que também não existe também inferno.

Mas somos quase todos bem feios. E relativamente burrinhos. Salvemo-nos recorrendo às estatísticas, ou apostando nos bons modos que impedem as pessoas de dizer o que somos na nossa cara.

Por trás, porém, todos falam. Mentira?

(*) - Silepse de pessoa. Dessa vez tô de olho no lance, macacada! :D


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transubstanciado por gravata às 31.03.08 | 17 comentários



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Comentários:


Comentário de: Fê Rossini · http://fernandorossini.blogspot.com

Eu acho que vou além. Acredito que o conceito de feio ou bonito, inteligente ou burro, é completamente subjetivo, e não de pessoa para pessoa, mas sim numa mesma pessoa. Tem pessoas que eu já achei feias ou bonitas, inteligentes ou burras, então acredito que todas as qualidades/defeitos de uma pessoa são muito mais estado de espírito e reflexo do ambiente em que ela está inserida do que algo fixo, imutável e definitivo.

(Gravz: A inteligência faz com que perdoemos a feiúra ou a joguemos para patamares de menor relevância. Quanto ao "estado de espírito" ou "reflexo do ambiente", sei não. Já vi muita menina LINDA emburrada, e muita gostosa em ambientes péssimos)

PermalinkPermalink 31.03.08 @ 20:31



Comentário de: Thiago

Não sabia que na tua idade as mulheres ainda davam essa desculpa pra nao meter com vc... q carro tu tem?? kkk

(Gravz: rsssssssssssss Um carro bem bosta! Deve ser isso! :D)

PermalinkPermalink 31.03.08 @ 21:21



Comentário de: bobmacjack · http://outforlunch.blogspot.com

Incluo-me na faixa do "medíocre acima da média". Até que não é ruim, não.

(Gravz: Viu? Estamos bem na foto :D)

PermalinkPermalink 01.04.08 @ 08:33



Comentário de: Renata · http://pesadeloloser.blogspot.com

Vixi... Às vezes me acho feia pra diabo, burra até não poder mais e tão gostosa quanto uma samambaia. Mas daí eu vejo que ainda assim tem gente pior e consigo sair por aí chocando a sociedade com a minha triste figura... rsss

(Gravz: Se for tão gostosa quanto a MULHER SAMAMBAIA, aí dá para conversar, viu? :D)

PermalinkPermalink 01.04.08 @ 08:41



Comentário de: Dri · http://www.oblogdadri.blogspot.com

HAHAHAHAHA! Ri demais do Thiago. Eu também acho estranho, a essa altura do campeonato, o critério "feiúra" ser usado pra definir se a menina dá ou não dá. Ainda mais quando, a ela, se aplica a regra de ouro do "eu sou feio, mas você é mais". Nesses casos, é mais esperto não tocar no assunto "beleza", minha filha. Sai de fininho... E eu me senti uma feia e burra depois do texto. Credo. Beijos, vem pro meu casamento?

(Gravz: A compra deu certo, viu? Recebi email da TokStok, veja aí! :D)

PermalinkPermalink 01.04.08 @ 09:39



Comentário de: Trotta · http://trottolices.blogspot.com/

Gravata, o que vc tem de burro vc tem de burro!

(Gravz: Já dizia Chiquinha)

PermalinkPermalink 01.04.08 @ 10:22




Adorei o texto. Estamos sempre no meio termo não é? Mas tbm acho que seja estado de espírito, tem dias que nem a melhor calça jeans fica boa e não consigo lembrar nada, me sinto a mais feia e burra. Quando acordo de bem com o mundo acho que posso tudo. Para mim vc é acima da média, pelo menos no meio em que eu vivo, com certeza vc se destaca. Tlvz no seu meio, vc não seja acima da média, mas isso não quer dizer que vc seja burro ou feio ou nada. Quanto a beleza acho que é subjetivo, vai muito da crença de cada um, ou o quanto assite de televisão, já que hoje em dia o padrão é dado pelos poucos que aparecem na TV, os que ficam do outro lado da tela ficam se dando chicotada e comprando milhares de produtos que não vão mudar sua própria natureza, o certo é aceitar a si próprio e ver que todos temos qualidades, muito mais do que defeitos e se não for assim, corra atrás!!!Beijo!

(Gravz: A beleza é relativa; a feiúra é absoluta)

PermalinkPermalink 01.04.08 @ 15:56



Comentário de: Marília · http://maroma.wordpress.com/

Adorei isso!

(Gravz: :))

PermalinkPermalink 01.04.08 @ 16:08



Comentário de: Sandro · http://arkhanasilum.blogspot.com

Eu estou com Eistein nessa: Tudo é relativo. Se voce passar um mes confinado numa casa com pretensos famosos cobiçando ficar mais famosos sem nenhum conteúdo, por exemplo, sai de lá achando qualquer um capaz de usar o plural numa sentença um gênio. Porém se ficar muito tempo convivendo com intelectuais vai se achar meio burro. Outro exemplo. Faça faculdade de engenharia mecânica e vai cobiçar mulheres que se encontrasse numa faculdade de medicina, por exemplo, nem olharia.

(Gravz: Einstein mostrou a relatividade dos valores mecânicos outrora absolutos. Será que ele manteria o raciocínio - seja o geral ou o especial - para coisas como a "cara de cu", a "bunda seca" ou outros fatores bem pouco relativos? :D)

PermalinkPermalink 01.04.08 @ 16:23



Comentário de: Eduardo

Gravataí, Estar acima da média é um grande feito. Você analisa apenas a média, mas ver a média sem verificar o desvio padrão é um dado incompleto. E o que se pode constatar é que o desvio padrão é enorme.

(Gravz: Vá lá, vá lá... Pode ser :D)

PermalinkPermalink 01.04.08 @ 16:26



Comentário de: Jacqueline

A questão mais importante não é "estou acima ou abaixo da média?" mas, sim "por que me preocupo com isso?"... A grande maioria das pessoas gasta todo o seu tempo perseguindo a "felicidade", mas, como vc mesmo disse, não existe pote de ouro no fim do arco-íris... Então, por que incentivar esta busca? Pode parecer Matrix demais (rsss), mas para o sistema que nos controla, é mais fácil quando milhões de pessoas estão preocupadas com sua aparência. Afinal, enquanto tentamos de tudo pra ter mais impressão de aceitação e menos sensação de desajuste, quem vai ter tempo de questionar o próprio sistema? Estamos sempre tão ocupados mantendo nossa aparência impecável ou tentando ganhar mais dinheiro (eu, pelo menos sempre estou)... Vc levantou uma questão importante e, com certeza, provocou em todos um movimento instantâneo de auto-análise e comparação... Enfim, poderíamos passar a vida toda procurando uma resposta ou correndo atrás de padrões, sem encontrar resposta alguma ou obtendo uma resposta diferente todo os dias...

(Gravz: Ou fingir que isso é algo desimportante e voltar a ver a novela, o seriado, o futebol etc :D)

PermalinkPermalink 01.04.08 @ 18:07



Comentário de: Carla

É tudo enganação mesmo. O que a gente é (ou o que a gente pensa que é;), o que a gente quer que os outros pensem, o que os outros realmente pensam. É um grande teatro, eu acho. Há encenação, às vezes, até da gente com a gente mesmo (uma teatro" interno...rs...). Salomão é que estava certo: "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade." Todos nós somos vaidosos, em vários níveis de intensidade e sobre vários aspectos, e isso explica a competição de beleza e inteligência e o consolo do "sim, sou feia, mas conheço gente muito mais feia que eu.".

(Gravz: É isso aí :D)

PermalinkPermalink 01.04.08 @ 20:22



Comentário de: Serbão · http://www.serbon.blogspot.com

então Gravata, se somos todos feios, então até que dá pra encarar a bandeirinha - deixe de birra com Ana Paula, hômi! :)

(Gravz: Vai fundo, Serbão. É sua)

PermalinkPermalink 02.04.08 @ 09:44



Comentário de: Renata · http://pesadeloloser.blogspot.com

Mulher-Samambaia? Não... Estou mais para aquelas samambaias de plástico que ornavam as casas de tias bregas antigamente... rs

(Gravz: Minhas tias eram bem bregas. Mas nenhuma tinha samambaia de plástico. Se bem que havia um "cachorro de porcelana" [acho que era porcelana, sei lá] na casa de uma delas, sabe? Aquele pastor alemão de mentirinha)

PermalinkPermalink 02.04.08 @ 13:44



Comentário de: Te

Direto como um trem passando por cima. Mas eu gostei!

(Gravz: :D)

PermalinkPermalink 04.04.08 @ 20:52



Comentário de: MiMi

Pra mim, vc é o mais lindo e inteligente e gostoso!
Bjs!

(Gravz: Olá, MiMi. Obrigado...rs)

PermalinkPermalink 24.04.08 @ 17:40



Comentário de: Hellen

Bom pra mim os feios são os mais inteligentes.................e isso me fascina!!! bjus

PermalinkPermalink 31.08.08 @ 14:47



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