TOLERÂNCIA ZERO NUM DIA "COMUM"

24/03/2008

TOLERÂNCIA ZERO NUM DIA "COMUM"

É o seguinte: às vezes o povo pensa que inventamos essas situações, que ninguém faz tais perguntas etc. Bobagem. As questões imbecis - travestidas de ganchos retóricos - são uma constante no dia-a-dia de qualquer sacripanta.

E nós, que somos mais "sensíveis", sofremos com a disseminação dessa praga em forma de indagações óbvias. A seguir, cenas do (início!) de um dia "comum":

O Contexto:
Um amigo pediu carona para irmos ao trabalho. Ligo para sua casa e digo que estou saindo para buscá-lo.

A Pergunta:
- Vamos agora?

As Respostas:

- Não. Estou passando antes para que possamos passear no agradável trânsito de São Paulo.

- Não, isso é apenas um teste para ver se você está sempre alerta. Pode dormir mais duas horas.

- Não, estou ligando para dizer que hoje é ponto facultativo para os idiotas e, enfim, acho que seria de bom-tom consultá-lo já que você tem a prerrogativa de faltar nesta efeméride.

* * *

O Contexto:
Paro o carro em sua casa, ele sobe.

A Pergunta:
- É seu carro novo?

As Respostas:

- Não, é o velho. Apenas troquei a lataria. Engana direitinho, né?

- Não. Achei um controle de alarme no chão e curiosamente ele funcionou no primeiro carro em que testei. E, nossa!, também estava com as chaves! Hoje é mesmo meu dia de sorte!

- Não, esse é meu barco. Apenas coloquei as rodas para andar na cidade. Nos finais de semana, uso para velejar.

* * *

O Contexto:
Reduzo a velocidade quando surge um radar da CET.

A Pergunta:
- Tem que tomar cuidado com a multa, né?

As Respostas:

- Não, eu reduzi porque estava quase atropelando um unicórnio alado. Mas ele levantou vôo a tempo.

- Multa? Nossa! Reduzi por pura distração! Se soubesse que era um radar eu teria acelerado. Adoro levar multas!

- A multa é o de menos. Eu reduzo porque ninguém tira da minha cabeça que esses radares são artefatos alienígenas que registram o DNA de todos que passam a mais de 70 km/h.

* * *

O Contexto:
Estou ouvindo um CD de determinado artista.

A Pergunta:
- Ah, então você gosta desse cara?

As Respostas:

- Não, eu ponho o CD só por causa do acompanhamento do pandeiro.

- Não, não gosto. É que o trânsito é tão bonzinho e terapêutico que em geral ponho alguma música que odeio, só para não chegar muito feliz lá no trabalho.

- Não, mas eu ouço esse disco como uma oferenda ao meu orixá.

* * *

O Contexto:
Desesperado com o trânsito que não anda, solto algum resmungo ao volante.

A Pergunta:
- Esse trânsito dá raiva, né?

As Respostas:

- Nada! Estava aqui pensando na desclassificação do meu time favorito de cricket no Campeonato Paquistanês...

- Não, eu estava aqui xingando o mundo justamente porque gostaria de mais lentidão.

- Dá, sim. Mas, perto de suas perguntas, ele é uma maravilha.

* * *

O Contexto:
Saio da avenida, que está parada, e pego um monte de quebrada e atalho.

A Pergunta:
- Ahá! Vamos por dentro, né?

As Respostas:

- Nada disso! Vamos por fora... Por fora do trânsito.

- Não, não. Todos os outros motoristas é que pegaram um atalho pela avenida. Eu vou pelas vielas principais.

- Não! É que lembrei que hoje é meu dia de buscar minha avó no jiu-jitsu. Ela está treinando para o Vale Tudo da Terceira Idade, categoria Peso Nonna.

* * *

O Contexto:
Chegamos, estaciono na garagem; obviamente na minha vaga.

As Perguntas:
- Chegamos? Essa é sua vaga?

As Respostas:

- Não, ainda estamos na rua.

- Não, eu gosto de parar na vaga dos outros só para tumultuar. Jajá me ligam eu desço para tirar o carro.

- Não, essa é a vaga do dono do carro que eu roubei. Porque roubar tudo bem, mas estacionar em lugar inadequado eu não aceito.

* * *

O Contexto:
Aperto o botão do elevador e o painel indica que deveremos pegar o de letra "C".

As Perguntas:
- Vamos de elevador? E é o "C"?

As Respostas:

- Não, vamos de escada. E é a "escada C".

- Não, é o "D". O painel pôs outra coisa somente porque é dado a brincadeiras.

- Não, seremos teletransportados. Fique em posição de sentido e feche os olhos por dois minutos.

* * *

O Contexto:
Chegamos ao andar do escritório.

A Pergunta:
- Ah, já chegou...?

As Respostas:

- Não. Resolvi descer antes e subir quatro andares de escada.

- Não, paramos para tomar um lance e fazer xixi. Jajá continuamos subindo.

- Não. Vamos agora fazer baldeação e pegar a linha azul de elevadores.

* * *

O Contexto:
FINALMENTE chegamos ao escritório.

A Pergunta:
- Vai estar na sua sala?

As Respostas:

- Não, hoje trabalharei na laje.

- Não, use-a você. Eu uso a sua. Talvez seja interessante a sinergia de uma troca de cubículos.

- Não. Eu vim até aqui para voltar pra casa.

* * *

E o dia estava apenas começando...

* * *

Há algum tempo, precisamente no mítico ano 2000, escrevi uma coluna para o jornal do DCE do Mackenzie (e publiquei aqui em 2002). Semanas depois (isso em 2000!!!), recebi meu texto por email, sem qualquer crédito. Foi meu primeiro contato com a sacanagem de supressão de autoria.

E não posso deixar de mencionar - e louvar - o verdadeiro "pai da fórmula", Al Jaffe, antigo colaborador da maravilhosa revista "MAD". A revista, como muitos podem atestar, é uma das fontes de inspiração para isso que chamo de "meu humor".

Ah! Usei a expressão "tolerância zero" no título para atingir as classes intelectuais D, E, F... até Z, que desconhecem a nomenclatura oficial dessa brincadeira.


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transubstanciado por gravata às 24.03.08 | 15 comentários


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Comentários, Trackbacks:


Comentário de: Fernanda

O que responderia a ele se te perguntasse o que foi fazer no banheiro? Rssss

(Gravz: Xixi, cocô, pum, assoar o nariz, lavar as mãos.. Depende muito do que fosse fazer por lá)

PermalinkPermalink 24.03.08 @ 18:52



Comentário de: Flavio · http://www.twitter.com/flaviof

Você gosta de escrever né?

(Gravz: Sim)

PermalinkPermalink 24.03.08 @ 22:08



Comentário de: Daniella Camara · http://www.jennarink.blogspot.com

Vc viu que a Mad vai voltar a ser editada no Brasil né?
Fiquei super feliz. Tava na hora do Ota voltar.

(Gravz: O Ota é tipo um funcionário público da MAD. A diferença é que ele trabalha)

PermalinkPermalink 24.03.08 @ 22:27



Comentário de: Carrão · http://www.moteta.blogspot.com

SENSACIONAL! MUITO FIRMA ... FALAR DE MAD PARA VC É FALAR DA BIBLIA PARA O PAPA ... E AINDA TEM AS FAMOSAS: MAD, CHICLETE COM BANANA, GERALDÃO??? TODAS SIM, A LITERATURA DE VERDADE - KKKK

ABRAÇO!

(Gravz: Grande carraca!!!!! Tenho tudo aqui, quase 5000 gibis rs)

PermalinkPermalink 24.03.08 @ 23:03



Comentário de: Marília · http://maroma.wordpress.com

hahahahaha... ótemo!

(Gravz: :D)

PermalinkPermalink 24.03.08 @ 23:57



Comentário de: Gisele Amaral · http://dperdido.blogspot.com

É teu amigo mesmo?

(Gravz: De leve...rs)

PermalinkPermalink 25.03.08 @ 00:10



Comentário de: Patrícia Carvoeiro · http://www.plenapausa.blogspot.com

Grande Al Jaffe! "Respostas Cretinas para Perguntas Imbecis" era hit no colégio e no bairro (entre os meninos e eu no meio, que lia muito mais Mad e Geraldão que Atrevida ou Capricho, embora tenha até chegado a assinar esta última por uns meses). Gostei das reminiscências do humorista aqui no seu blog. :D
E, poxa, no DCE do Mack tinha muuuuito picareta trabalhando, nem duvido que alguém de lá mesmo é que tenha feito a sacanagem de enviar seu texto sem os créditos... :P

(Gravz: Eu trabalhei numa gestão sem picaretagens, do grande Piunti. Não foi ninguém dessa gestão, nem da seguinte, do Catatau. Foi gente que recebeu o jornal e copiou a matéria num email, mesmo)

PermalinkPermalink 25.03.08 @ 00:24



Comentário de: Thiago

Dale Respostas Cretinas... é um dos pontos fortes do teu humor, vc poderia arrumar um bico com o Ota ou com o finado Janjao Botelho

(Gravz: Vou até o túmulo do Janjão e peço emprego? rs)

PermalinkPermalink 25.03.08 @ 01:00



Comentário de: Patrícia Carvoeiro · http://www.plenapausa.blogspot.com

Ah, eu trabalhei lá bem antes deste período, Fernando (em 95 e 96), e tenho certeza também que muita coisa mudou em quatro anos (o Cláudio Lembo assumir como reitor ativou grande parte destas mudanças, inclusive). Mas de qualquer forma, nem me referi às pessoas que geriam de verdade o DCE, mas a funcionários menores mesmo. E o que eu falei foi uma piadinha inócua apenas por ter presenciado alguns episódios chatos protagonizados por funcionários menos comprometidos com suas funções... Também acho que o que rolou com seu texto foi peripécia de algum engraçadinho que leu a matéria, gostou e repassou sem se preocupar muito em dar crédito...

(fim do "pequeno" comentário à guisa de explicação)

Agora, esta do carro aconteceu outro dia comigo e eu adoraria ter dado qualquer uma destas repostas!

A Pergunta:
- É seu carro novo?

As Respostas:

- Não, é o velho. Apenas troquei a lataria. Engana direitinho, né?

- Não. Achei um controle de alarme no chão e curiosamente ele funcionou no primeiro carro em que testei. E, nossa!, também estava com as chaves! Hoje é mesmo meu dia de sorte!

- Não, esse é meu barco. Apenas coloquei as rodas para andar na cidade. Nos finais de semana, uso para velejar.


Eu andava num Clio antigo, modelo argentino, cheio de problema e surgi numa Xsara. Na primeira semana com ela escutei esta pergunta umas 30 vezes. E eu sempre respondia "é, gostou?", mas no fundo querendo soltar alguma piada idiota... :P

(Gravz: Eu sei em que período vc trabalhou lá. Dureza...rsrsrss Sei beeeeeeeeeeeeeeeeeem quem era essa turma :D)

PermalinkPermalink 25.03.08 @ 01:19



Comentário de: j. noronha · http://www.ofimdavarzea.com


- Não, eu ponho o CD só por causa do acompanhamento do pandeiro.


Melhor ever!

(Gravz: :D)

PermalinkPermalink 25.03.08 @ 03:02



Comentário de: Jacqueline

Leio sempre os seus textos e gosto muito... nesse, em especial, vc me lembrou muito um dos meus personagens favoritos: Dr. Gregory House (da série House M. D.) ... muitas das suas respostas bem que poderiam ter saído da boca do Dr. House... acho que vcs têm em comum o "dom" de construir respostas espirituosas para situações diversas. Parabéns! Muito divertido!

(Gravz: Valeu, Jacqueline. Realmente, sou muito parecido com House. Não na genialidade ou no brilhantismo profissional, mas na capacidade de destruir relações pessoais muitas vezes por causa de algumas piadinhas :D)

PermalinkPermalink 25.03.08 @ 11:09




Como vale a pena ler todos os dias o seu blog, principalmente nos dias de mau-humor!E claro quando existem comentários tão absurdos que a resposta que vc dá parace óbvia, mesmo eu nunca tendo esse espírito!!!Beijooo

(Gravz: Valeu, Bia! :D)

PermalinkPermalink 25.03.08 @ 13:03



Comentário de: Persegonha · http://www.persegonha.mypodcast.com

Luciene Adami escreveu a letra de uma das músicas que eu mais gostava nos meus 16/17 anos: "Não me mande flores" do grupo gaúcho De Falla. Sim, sim... Eu também ouvia rock alternativo. Eu também ouvia a extinta Fluminense FM...

(Gravz: Pois é, a Luciene se envolveu com a vanguarda artística gaúcha. Ela bem que poderia se envolver com um certo adolescente paulistano colecionador de gibis, viu)

PermalinkPermalink 29.03.08 @ 14:50



Comentário de: Mychelle

Pode comentar post antigo? O mesmo que reler a agenda de 2002 e falar alto"nem acredito que fiz isso". Estou conhecendo sua casa hoje, adorei muito! As seções que mais amava na Mad eram essa e aquela de expressões ao pé da letra. Ri muito de gargalhar alto!

(Gravz: :D Que legal, moça! Então volte sempre)

PermalinkPermalink 03.04.08 @ 15:07



Comentário de: Camila

Gostei desse site

(Gravz: Valeu, Camila! Volte sempre :D)

PermalinkPermalink 06.04.08 @ 17:10



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