TROPA DE ELITE, O FILME DO ANO
09/10/2007
TROPA DE ELITE, O FILME DO ANO

Acho que, a esta altura, todos já viram o filme, né? Eu esperei para ver no cinema (fiz isso neste último sábado), e só agora posso falar da obra.
Pretendo dividir a análise em dois aspectos: crítica estética e crítica contextual. Isso porque há uma grande polêmica em torno da produção e é idiota se limitar apenas a um lado (estético), e estapafúrdio apenas abordar o outro (contextual).
Vamo que vamo:
Análise Estética
Trata-se de um filme ótimo: roteiro excelente, personagens convincentes e carismáticas, tomadas interessantes... Pretendo destrinchar todos esses aspectos, além de uns outros.
A história é muito boa; dizem que é real, mas para esta análise isso pouco importa. É uma narrativa em primeira pessoa na qual não há heróis. Por questões carismáticas, ou mesmo pelo trabalho exuberante de Wagner Moura, alguns são levados a crer que Cap. Nascimento seja o "herói". Mas, não é.
O filme não cai nesse maniqueísmo boboca e a narrativa em primeira pessoa, o tempo todo, deixa isso bem claro. Nascimento é homem, pai, policial incorruptível, mas também é violento, descontrolado, inconstante, torturador etc.
Não é um filme de "heróis", mas de vilões. Todos têm culpa, e esse é talvez o maior mérito da história. A polícia corrupta é culpada, os traficantes são culpaos, os usuários são culpados e até os policiais do BOPE são culpados diante do excesso de violência.
Todos têm suas "explicações" sociais para as condutas ilícitas: o policial ganha mal, o traficante é produto da desigualdade, o moleque quer o livre-arbítrio para se entorpecer e o policial do BOPE não pode subir o morro fazendo cafuné em quem porta armas militares (falarei mais disso na análise contextual).
Como já disse: não há heróis, só vilões.
Nascimento, o narrador, em tempo algum se considera o salvador da pátria. Ao contrário, deixa bem nítido que está exausto (inclusive, toma medicação para seu estresse), e seu afastamento do BOPE serve como 'pano de fundo' para todo o argumento do filme.
Alguns comparam esse filme com "Cidade de Deus", pois ambos são grandes sucessos e tratam da favela. Na minha opinião, "Tropa de Elite" é um filme mil vezes superior. Mil vezes. Digo isso sem querer criar polêmica, mas por me parecer o óbvio do óbvio.
"Cidade" é uma coisa mais setentista. É o mundo do crime sob uma visão "classe média", com trilha sonora do "Tim Maia Racional" e uma abordagem algo romântica da bandidagem (seja do "Trio Ternura", seja do "Mané Galinha").
"Tropa de Elite" já é outra coisa. É baile funk, tiro na cara... a feiúra atual. Não tem trilha sonora bonita nem roupinha "vintage" para fazer firula. De todo modo, não é também aquele "realismo-criança-com-ranho" dos filmes 'realistas' brasileiros. A película não cai nessa fria; é um realismo cruel, um soco no estômago - ou tapa na cara, como prefere Nascimento.
Os diálogos também são interessantíssimos. Há uns trinta momentos memoráveis. A platéia é levada ao riso, porque é patente o contexto cômico em que algumas frases são inseridas. Mas até mesmo essa "comédia diante da tragédia" é um dado positivo do filme.
Já vi muito filme nacional, mas até hoje nada havia me causado o impacto que "Tropa de Elite" causou. E nem adianta eu apostar que será o filme nacional "mais visto de todos os tempos", pois JÁ É. A pirataria se encarregou disso.
Atores
Não vou ficar aqui elogiando este ou aquele coadjuvante, embora muitos mereçam, porque Wagner Moura realmente rouba a cena e mostra que não é apenas "o melhor de sua geração", mas um dos melhores atores nacionais de todos os tempos.
Todos são unânimes nesse particular (até os detratores do filme): o ator está ótimo. Seu trabalho em "Tropa de Elite" não é aquele esquema de "comédia televisiva", com trejeitos de Rede Globo na telona.
Naaaada!
É coisa de ator-ator, como o De Niro em "Taxi Driver" ou Pacino em "Um Dia de Cão". Capitão Nascimento é a personagem-emblema da carreira de Wagner Moura. Diante desse trabalho magistral, ele até pode fazer apenas bobagens de agora em diante, pois mesmo assim será lembrado como "aquele puta ator que fez o filme lá do BOPE".
"Tropa de Elite" deve ser visto por todos. É excelente.
* * *
Análise Contextual
Sergio Bianchi, há alguns anos, lançou "Cronicamente Inviável", uma mistura de filme com documentário, tendo por objetivo mostrar que a ficção cinematográfica é sempre mais palatável do que o "mundo real".
"Tropa de Elite" é um filme que trata única e exclusivamente da vida real, não tanto por se tratar de uma história aparentemente verídica, mas principalmente por colocar o dedo em todas as feridas possíveis.
Não é um filme "pró-bandido" nem "pró-polícia" nem "pró-sociedade". É contra tudo. Esses três pilares são desmoralizados e suas parcelas de culpa são evidenciadas de forma incontestável.
Alguns apontam o trabalho como uma "promoção do BOPE", mas isso é uma bobagem. O que é o BOPE? É o Batalhão responsável para desfazer as merdas da polícia. O que são as merdas da polícia? São conflitos com traficantes (que são obviamente bandidos). E quem os financia e os transforma em sujeitos super armados? Os que compram drogas.
Portanto, quando de fala em "promoção do BOPE", na verdade se diz o seguinte: a sociedade inteira faliu. Todo mundo tem culpa no cartório. É tudo um bando de filha da puta. O BOPE tenta pôr ordem na bagunça, e o único jeito é matando meio mundo.
A meu ver, o grande trunfo do filme é explicar direitinho que o usuário tem sua grande parcela de culpa nessa guerra infernal do mundo das drogas.
E o roteiro é habilidoso nesse esquema. Não sei se é proposital ou foi sem querer, mas acabaram desmontando o "silogismo sociológico" adotado por boa parte da esquerda.
Explico.
Segundo essa rapaziada, o bandido não é bandido por ser mal. Ele é "levado" ao mal por uma série de circunstâncias contextuais. Desta feita, há uma imposição do meio ao indivíduo, de modo que suas escolhas se tornam reduzidíssimas - às vezes (eles alegam) não há nem mesmo escolha.
Pois bem, pois bem...
Mas que raio de opressão contextual empurra alguém ao consumo de drogas ilegais? Se é para seguir o raciocínio "a sociedade faz o homem", que impera no esquerdismo brazuca, os grandes vilões são mesmo os compradores, pois eles são os únicos ali com liberdade e autonomia para optar por qualquer um dos caminhos.
O criminoso - segundo essa teoria - não é o que é por uma vontade individual, bem como o policial se corrompe por outros problemas contextuais, e por fim o BOPE chega arrepiando porque não tem outro jeito. O "quarto elemento", o usuário, é o único que não está sujeito a qualquer imposição de seu meio.
É esse o maior tapa na cara do Capitão Nascimento. Tanto no filme (que tapão, hein? pior que os do Bud Spencer!) quanto no contexto social da história.
* * *
Não, Não Sou Reaça
Sou a favor da legalização das drogas. De todas, por sinal. Mas, antes disso, sou contra o uso de todas as ilícitas. Da mesma forma que defendo uma maior flexibilização tributária, e também sou contra quem sonega antes impostos sem que haja alguma lei flexibilizando seu recolhimento.
A melhor forma de mudar uma legislação definitivamente não é praticar a "desobediência civil conveniente", deixando de cumprir algumas leis como se isso fosse um ato cívico de postura política, e não uma malandragenzinha tacanha e pontual.
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transubstanciado por gravata às 09.10.07 | 14 comentários
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Comentários:
(Gravz: Veja no cinema, daí falamos de detalhes técnicos. "Cidade de Deus" é uma coisa meio videoclipe, com umas sacadas legais de imagens e narrativas, mas definitivamente não considero um filme superior a "Tropa de Elite". E isso por tudo: atuações, roteiro, imagens etc. Pode ser que em "Cidade" tenham usado câmeras melhores, sei lá, algo do gênero. Mas não me prendo a isso. Veja "Tropa" no cinema e depois me fala. Agora, é claro, o fato de "Tropa" ser melhor não significa que "Cidade" seja ruim. Nada disso. O filme de Fernando Meirelles é ótimo, sim)
(Gravz: Diretor brasileiro entende muito de cinema... Só não sabe fazer filme bom
(Gravz: Eu os vejo - os do BOPE - como 'vilões' dentro do enredo do filme, justamente porque o roteiro não apresenta herói algum. Há os vilões mais ou menos culpados, mas todos têm culpa. Isso não significa que seja MINHA opinião sobre a REALIDADE dos fatos, até porque não conheço a fundo o BOPE, nem a PM do Rio. Só posso falar do que vi no filme e, quanto a isso, a opinião é sempre limitada à história que passa na tela)
Obs.: Sou leitor diário há anos deste blog que considero uns dos melhores misturando humor e realidade. Obrigado. até mais.
Obs.2: espero ter sido claro, pois não deu tempo pra revisar! abraço
(Gravz: Opa! Valeu, Rafael! E participe mais!)
Segundo, o não foi reaça foi ótimo!hehe
Eu estava realmente incomodada com o tom da análise contextual, mas mesmo após a explicação não consigo concordar com este ponto de vista que concorda com o Estado/lei independente de sua legitimidade. Ao analisar a história, nota-se que o direito/a lei/ os estados vão se adaptando as mudanças comportamentais da sociedade de forma extremamente lenta e as leis antiquadas vão caindo quando a sua efetividade torna-se nula visto a total falta de legitimidade. Assim, acho complicado chamar de "desobidiência civil conveniente" o uso de substâncias ilícitas. E pq se referiu somente a isso? Sob esse ponto de vista a pirataria também é desobediência civil conveniente? Como mesmo disse todos são vilões e todos sofrem as consequências dessa lei estúpida, mesmo na maior parte das vezes não tenho menor simpatia pela classe média, a qual me incluo, não acho que a colocando como grande vilã ajudaria alguma coisa no caos atual. Outra coisa que me incomoda é essa necessidade de dizer quem é o mocinnho e quem é o bandido, esse maniqueísmo q
(Gravz: E o que você acha de todas as empresas, de uma hora para outra, deixarem de pagar "hora extra" e "adicional de 1/3" sobre as férias, por achar que é tudo anacrônico? Elas podem alegar exatamente isso, que as leis, ao longo dos tempos, foram modificadas por iniciativas da sociedade civil... Que tal? Eu nunca vi alguém queimar um fumo ou dar uns tiros porque "discorda da legislação", mas sim única e exclusivamente para ter barato - e isso é uma decisão individual, quase sempre independente de contexto opressor algum. Não é honesto o esquerdista militante dizer que o bandido é bandido por força de uma opressão social e, ao mesmo tempo, não se considerar o grande culpado por não ter opressão alguma que o force a financiar o tráfico)
Agora já perdi a vontade de continuar, foi mal!
(Gravz: relaxa...)
O filme então, também ótimo, retrata mesmo a realidade, partindo do mesmo conceito sem heróis. Cenas marcantes como a do debate na classe da faculdade de Matias, apontam para o ataque aos usuários, muito bem pensado! Dão um tapa sim, mas não como os de Nascimento (risos), ou seja, têm educação.
Estou querendo ver o filme "Cidade dos Homens" para poder analisar esses pontos.
Abraço!
(Gravz: Veja "Cidade de Deus". O "Cidade dos Homens" não é filme, é "carona na franquia")
O Cidade de Deus eu vi...mas faz um tempo, foi logo que saiu. Gostei, gostei mesmo, mas ainda preciso assistir com este novo olhar, agora mais crítico, pois são filmes de estilos um tanto quanto diferentes, embora parecidos. Gosto do jeito que ambos são "contados", meio que de trás pra frente. Muita gente tem mania de comparar Carandiru com Cidade de Deus e agora o Tropa de Elite também vai entrar nessa, normal. Mas Imaginei mesmo o que você falou sobre o Cidade dos Homens, globalzinho e tudo mais. Vou mesmo assim ! abraços !
(Gravz: Ceeeeeeerto)
(Gravz: Veja!)
(Gravz: É usar um conceito social, quase que filosófico, para se dar bem aqui ou ali. O cara aplica uma suposta regra geral sociológica para avalizar uma conduta que única e exclusivamente decorre de sua manifestação de vontade - sem interferência do meio. É isso
fiquei curioso em saber se vai mesmo mudar minha opinião, como vc me garantiu.
abraço!
(Gravz: Nós já conversamos sobre a crítica à 'burguesia liberal' que o filme faz. E você vai ver como o negócio é bem amarrado)
(Gravz: Brasileiro é naturalmente maniqueísta, dicotômico, simplista e, sem dúvida, burro. A burrice é atávica por aqui. E não falo da "falta de cultura". È dificuldade de pensar mesmo, muito graças ao dogmatismo cultural que impera. Isso faz com que, muito provavelmente, alguns vejam o BOPE ou Nascimento como heróis. "È preciso ver um herói, pois é cinema". E por aí vai. Jajá fazem um filme de um bandidão fodão que esculhamba com alguém do BOPE e os alunos vão desenhar a eventual imagem desse bandidão. Quanto às opiniões dos demais professores, aí o buraco é mais embaixo. Todo povo oprimido e acuado - seja pela fome, violência ou algo assim - acaba simpatizando com ideologias autoritárias. Não simpatizo com essas ideologias, mas entendo esse contexto como o "nascedouro" disso aí)
Gostei muito do que li.
Parabéns
(Gravz: Valeu, Aninha!
aqui e lemos todo o comentario.
muito legal.é nos na fita mano bral...
