LILI: EM MEMÓRIA DE SEU PAI

27/09/2007

LILI: EM MEMÓRIA DE SEU PAI

Nossa colunista volta hoje, em texto emocionante sobre seu pai, que faleceu na semana retrasada. É muito lindo o que ela escreveu.

SOBRE PAPAI
Antes do meu pai me dar o meu iPod, eu nunca tinha ouvido falar em Billy Preston. Se não fosse por ele, não saberia que “Penny Lane” é a música mais fofa dos Beattles. Enquanto os pais das minhas amigas gostavam de ler jornal e tomar café, meu pai ia para o "Rally dos Sertões".

Não conheço mais ninguém que sabe nomes de estrelas e constelações, mas meu pai sabia. Foi ele também que me ensinou a gostar de Warcraft e outros joguinhos divertidos de computador. Meus amigos todos pediram para os pais deles comprarem um Playstation. Já meu pai comprou um pra ele, e me deixava jogar. Ele cismava que aquela atriz do “Espanglês” era a Penélope Cruz, mas eu contei pra ele que não era. Teimoso...

Quando as pessoas perdem um ente querido, sempre se lamentam por não ter dito muitas vezes “eu te amo”, ou “obrigado por tudo”. Eu não. Toda conversa nossa no telefone sempre começava com um “bom dia, gatinha”, e terminava com “eu te amo muito, pra sempre”. Que mania ele tinha de chamar todas as mulheres de gatinha! E eu adorava... E o “bom dia” vinha de manhã, de tarde ou de noite. Nunca entendi o porquê, mas achava tão bonitinho. Coisas de papai.

Como ia dizendo, não tenho remorso por não ter dito que o amava. Isso eu disse, bastante. Mas sabe o que está me apertando aqui no peito? As pequenas coisinhas que eu queria ter contado. Mas a falta da convivência diária, junto com o corre-corre do dia-a-dia, não me permitiu ter vários diálogos divertidos com meu pai.

Por exemplo: papai sempre gostou muito de "Cat Stevens". Por causa dele, comecei a ouvir também. Quando ele encheu os 8Gb do iPod, mandou um punhado de músicas do cara. Aí, lá ia eu, toda faceira, andando de ônibus e ouvindo a voz fanhosa. Uma das músicas me chamou atenção, pois começava com a frase “I love my daughter the way that I love you”.

Primeiro pensei que era bonitinho, uma música sobre pai e filha! Depois raciocinei. Ok, o moço disse que ama a filha da mesma maneira que ama a mulher. Bizarro! Aí que eu fui ver o nome da música. Era “I love my dog”... Então o que ele queria dizer era que ama o cachorro dele da mesma maneira que ama a mulher! Gente, que máximo! Cat é tão sincero... Me identifico com quem ama cachorro. Quando eu contasse isso pro meu pai, ele ia soltar uma gargalhada deliciosa. Aquela mesma gargalhada que eu vou passar o resto da vida tentando não esquecer...

Outra coisa que queria ter contado: tivemos um evento da empresa uma semana antes do papai falecer. O palestrante do evento foi o Pachecão, lembram quem? Aquele professor de física doidão de BH, que anos atrás foi ao Jô, Faustão, etc. Ele ensinava aos alunos cantando e tals. Enfim... Eu era a assistente de palco do Pachecão (leia-se: passadora oficial dos slides do power point). Em certo ponto da palestra, ele me chamou em cima do palco, me fez desfilar, e falar no microfone com voz de disk-sexo: “Pachecããããão”... Eu, a mais tímida, na frente dos 200 funcionários da empresa. Papai ia ter achado isso tão divertido. Ah, tudo que eu contava ele achava divertido.

Pensando bem, queria ter dito pro meu pai que o mundo sem ele é meio desbotado. Mas como eu ia saber? Minha vida inteira ele estava lá, mesmo que de longe, sendo aquele paizão de propaganda de Gelol. Sabe qual é a parte mais difícil agora? Todo mundo me fala pra tentar lembrar só das coisas boas, pra ficar bem. Sim, eu só lembro das coisas boas. Mas é porque as coisas ruins quase não existiram!

Eu nunca pedi a permissão dele para ir a uma festa e ele não deu. Ele nunca me pôs de castigo porque perdi a média na prova. Ele nunca me deu bronca por chegar de madrugada em casa. Ele nunca brigou com algum namorado meu por causa de ciúmes. Já olhou torto, mas eu achei tão fofo...

A saudade que ficou aqui não caberia em dezenove Maracanãs, mas está toda enlatada no meu coração. Enquanto aperta desse jeito, dói demais, que às vezes eu nem consigo respirar. Mas, com o tempo, a dor passa, e vai virando uma sensação gostosa das boas lembranças.

Saber que eu não tenho mais pai é o pior dos sentimentos que essa pirralha de vinte e poucos já experimentou. Mas a vida continua, e ela é rápida demais. Virão outras tristezas, e eu estarei mais preparada para elas. Mesmo por quê, como disse a mim um grande amigo na missa de 7º dia, eu perdi um pai, mas ganhei um anjo.

E é só o que eu consigo dizer sobre isso.

Beijo e tchau!

Lili escreve neste blog às quintas-feiras.


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transubstanciado por gravata às 27.09.07 | 17 comentários



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Comentários:


Comentário de: Dri

Ótimo, como tudo o que você escreve, além de doce e honesto. Que tudo fique bem por aí, Lili. Beijos.

PermalinkPermalink 27.09.07 @ 00:13



Comentário de: Alberto

Bela homenagem, Lili!
Força nesse momento

PermalinkPermalink 27.09.07 @ 00:38



Comentário de: Du · http://www.liubliu.blogspot.com

Lindo demais, Tri! Acho que só eu e você podemos realmente entender tudo que você escreveu. A nossa relação com ele sempre foi algo muito raro e especial. Éramos melhores amigos. Mais: éramos cúmplices.

Também sinto muita vontade de dividir com ele pequenas coisas que me acontecem todos os dias. Ninguém mais é capaz de me ouvir com o entusiasmo que ele ouvia. E ninguém mais pode bancar meus sonhos e me incentivar a realizá-los como ele fazia. Ele fazia tudo parecer tão mais fácil de carregar, né?

Te amo muito. Muito! E to aí com você o tempo todo!

PermalinkPermalink 27.09.07 @ 00:43



Comentário de: Carla

A minha mãe morreu quando eu era criança, e o meu pai no ano passado. Quando ele morreu senti tudo isso aí. E ainda sinto. Logo depois da morte dele, falei para uma amiga que tinha perdido a única pessoa do mundo que me amava como eu amo a minha filha, e isso é muito. Um ano e meio depois, ainda aperta, mas a tristeza passou. E as lembranças, por ele ter sido tão presente, são uma ótima forma de continuar a tê-lo por perto.
Muita força pra você!

PermalinkPermalink 27.09.07 @ 11:49



Comentário de: Camila

Já faz um tempão que passo por aqui, e sei que vindo de uma pessoa que vc nem conhece pode parecer meio estranho, mas desejo sinceramente que este aperto passe logo. Pode ter certeza que ele dará risada de todas as pequenas coisas divertidas que acontecerão com vc!
Força!

PermalinkPermalink 27.09.07 @ 12:16



Comentário de: Cristina Moreno de Castro · http://www.tamoscomraiva.blogger.com.br

Curioso é que meus olhos se encheram de lágrimas ao ler seu texto que, na verdade, é tão meigo, carinhoso, mas cheio de saudosa alegria - e não de tristeza! Talvez porque essa relação tão bonita que você tinha com seu pai seja muito próxima da que tenho com o meu. O que me faz entender (ou suspeitar) que vou sentir a mesma dor sufocante no peito, a mesma vontade de compartilhar pequenas histórias, a mesma saudade carinhosa que você vem sentindo, quando meu próprio herói se for.

Não é todo mundo que consegue atiçar nossa sensibilidade por meio de palavras escritas. Muito obrigada por ter feito isso por mim, então. E que seu anjo recém-conquistado te traga a mesma tranqüilidade e alegria que seu pai sempre trouxe :)

Grande abraço!

PermalinkPermalink 27.09.07 @ 13:59



Comentário de: Carlão Pacheco · http://www.carlaopacheco.blogspot.com

Uau! Vc é incrível. Seu texto me tocou profundamente. Te desejo só o que há de bom. Essa palavrinha é danada, né? Linda e triste. Ah, a saudade. Que bom que a sua é linda, mais que triste. Feliz anjo pra vc.

PermalinkPermalink 27.09.07 @ 14:39



Comentário de: Ângelo Mello

Lindo texto.
Perdi meu irmão mais velho em 94. Quer saber? A dor não passou, as vezes ela se esconde, mas continua aqui... mas é ela que me faz pensar nele todos os dias, então melhor que seja assim. Meu irmão está ao meu lado todos os dias, as vezes dá até pra sentir a presença dele. Tenho certeza que seu pai também vai estar sempre ao seu lado. Fique bem!

PermalinkPermalink 27.09.07 @ 15:31



Comentário de: Nanael Soubaim · http://nanaelsoubaim.blogspot.com

Tu não precisavas ter dito o que não falaste. Ele entendeu direitinho.

PermalinkPermalink 27.09.07 @ 20:21



Comentário de: Clara · http://www.garotasquedizemni.com

Que graça, Lili, no sentido mais amplo da palavra, ter essas histórias a contar -- e contá-las com um coração e um olhar como o seu. Dizem que os bebês escolhem os pais. Você definitivamente escolheu o seu a dedo. Lindo!

:'-)

PermalinkPermalink 27.09.07 @ 21:06



Comentário de: Sheila

Fazem 10 anos que passei por isso, e ainda passo todas as vezes q lembro do meu Pai. Daí eu choro, de saudades, muuuuitas, e tb de alegria e satisfação de ter conhecido uma pessoa tão especial e iluminada quanto ele. Penso que deve ser muito ruim, perder alguém tão importante, mas q não te faz a menor falta... sinal de q não foi tão bom assim. Mas ele não, e é isso mesmo, saber q a pessoa nunca mais está alí, disponível pra vc sempre q precisar, é o que mais dói.
Bjus

PermalinkPermalink 28.09.07 @ 04:26



Comentário de: Ana · http://mineirasuai.blogspot.com

Lindo isso, Lili. Lindo mesmo. Estou emocionada demais, pois seu texto foi muito leve, muito descontraído, muito... FELIZ! Você só passou coisas boas, e uma saudade LINDA, demais!
Não quero sentir essa saudade dos meus pais nunca, mas sei que isso é impossível. O jeito é curti-los enquanto é tempo, né?
Obrigada mesmo pelo texto.
Fique bem aí...
Beijos.

PermalinkPermalink 28.09.07 @ 04:48



Comentário de: Sue Ellen · http://sueellencruz.blogspot.com

Eu sei que o Gravata odeia o Pequeno Príncipe mas... esse texto me fez pensar num trecho dele:

"Tu porém,terás estrelas como ninguém...
Quero dizer: quando olhares o céu de noite, (porque habitarei uma delas e estarei rindo), então será como se todas as estrelas te rissem!
E tu terás estrelas que sabem sorrir!
Assim, tu te sentirás contente por me teres conhecido.Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e estarei lá;). Terás vontade de rir comigo. E abrirá, às vezes, a janela à toa, por gosto...e teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu.
Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!"

Meus pais são separados, não moro com meu pai.. e esse seu texto me fez pensar quantas tempo eu posso estar perdendo..

Lili, que Deus te dê mta força nesse momento!!
Tudo de bom!
Bjos!

PermalinkPermalink 28.09.07 @ 17:48



Comentário de: Fabiana

Me emocionei demais com esse texto.

PermalinkPermalink 28.09.07 @ 18:44



Comentário de: claudia lyra · http://www.loucaporblog.wordpress.com

Poxa, Lili... que lindo... força e paz pra você.

PermalinkPermalink 28.09.07 @ 20:10



Comentário de: Serbão · http://www.serbon.blogspot.com

Que texto bacana! :) Lindo, poético.
uma bela homenagem a ele.
um beijo.

PermalinkPermalink 29.09.07 @ 02:12



Comentário de: Patrícia Köhler · http://www.cintaliga.org

Lili, sou sua leitora silenciosa há bastante tempo e adoro seus textos. Neste eu me senti muito compelida a comentar, porque me identifiquei muito com a sua situação.
Meus pais se separaram quando eu tinha oito anos (hoje tenho trinta) e, desde então, a convivência com meu pai foi minguando muito, passando inclusive por períodos de afastamento total. Boa parte disso se deve à vida "globe trotter" que meu pai levou e ainda leva, e um outro tanto porque há umas boas divergências entre a gente e era até de bom tom que nos afastássemos um pouco mesmo, pra não piorar as coisas nos momentos mais acalorados.
No entanto, a gente nunca deixou de se amar muito e se preocupar um com um outro. Por mais longe que estivéssemos (já cheguei a morar em Portugal um tempo com ele estando aqui e vice-versa), não deixávamos de nos telefonar, mandar cartas ou cartões, e-mails, usar o MSN, o que fosse. Nada disso supre um abraço e o olho no olho, claro, mas ajuda a atenuar. Sem isso seria bem pior.
Seu texto está lindo, me tocou muito e cheguei ao fim dele com os olhos transbordando.
E fiquei feliz por você não ter incorrido no erro mais comum e clichê que acomete as pessoas nesta hora: o de achar (muitas vezes com razão) que não falou o quanto amava a pessoa que se foi. Este tipo de culpa deve ser FODA, especialmente àquelas pessoas que não demonstram amor de jeito nenhum, seja verbalmente ou por atitudes, por menores que sejam.
Queria muito te dar o link prum post bastante antigo meu, em que falo sobre meu pai. Acho que você iria gostar. Infelizmente não acho o texto aqui (o blog saiu do ar e perdi muitos arquivos), mas assim que o encontrar no meu antigo computador, vou te mandar (desculpe a liberdade que já tomei. :P)
Parabéns pela sua sensibilidade e total familiriaridade com as palavras.
Um beijo e muita força e alegria pra você. ;)

PermalinkPermalink 29.09.07 @ 08:55



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