SOBRE FACTOTUM E NADA SOBRE FACTOTUM
02/05/2007
SOBRE FACTOTUM E NADA SOBRE FACTOTUM
Aluguei o "Factotum" e ainda não vi. Recentemente, tenho tido o péssimo hábito de dormir vendo qualquer coisa na TV - inclusive os filmes bons. Antes, mais criterioso, só dormia com merdas como "Senhor dos Anéis", entre outras coisas insuportáveis.
Como ainda há aqui em casa dois filmes que não vi até o fim, nem ousei começar "Factotum". Sua sinopse, porém, me fez pensar em algumas coisas do "mundo blogueiro".
"Factotum" é uma história de Charles Bukowski e, como sói, é autobiográfica. Quem a levou aos cinemas foi um diretor da Noruega e o papel principal coube a Matt Dillon. Para minha alegria, Marisa "MulherMaisGatadaTerra" Tomei também participa.
Bukoswki é, direta ou indiretamente, o patrono de 90% do mundo "blogueiro literário" (aquela parcela formada pelos que se consideram escritores). São os que "escrevem bem".
Eles não têm nem nunca tiveram (provavelmente nunca terão) uma boa idéia, uma boa história, um bom enredo. Mas "escrevem bem". E isso basta.
É a "escrita pela escrita", a forma superando o conteúdo; a vitória do estilo sobre a trama, e as frases curtas usadas com engajamento. A crase vilipendiada, colocações pronominais absurdas, verbos bagunçados, advérbios e locuções adverbiais indo desta para melhor, entre outros grandes clássicos dessas figuraças.
Décio Pignatari disse a falta de cultura literária em nosso país se deve, em grande parte, ao fato de que por aqui se lê pouco gibi. Faz sentido. E ele usou o raciocínio para falar mais dos escritores e menos dos leitores. Os que escrevem no Brasil, salvo exceções, quase nunca têm uma história para contar. Mas "escrevem bem" e "têm estilo" para dizer aquele amontoado de "coisa alguma".
Bukowski escrevia bem. E tinha estilo. Mas talvez nunca tenha tido uma grande história para contar. Acabou por se tornar, ele próprio, uma grande personagem; o eterno e insistente perdedor que tenta a todo custo vencer na vida como escritor.
No meio do caminho, ele fez todo tipo de merda. Sua vida, enfim, foi exatamente esse "caminho"; e tais "merdas" se tornaram as aventuras (ou desventuras) dessa rica personagem da vida real.
Há muitos assim por aqui; fãs de Bukowski que, talvez involuntariamente, seguem todos - TODOS! - os passos do ídolo. Levam vidas bagunçadas, "escrevem bem", "têm estilo", mas não conseguem criar uma mísera historinha mais ou menos aceitável.
É falta de gibi, diria Pignatari. Eu acho que é vagabundagem, mesmo. Os escritores da "nova geração" são, em geral, 99% hype e 1% sintaxe (com as cagadas de regência e tudo).
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transubstanciado por gravata às 02.05.07 | 8 comentários
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Comentários:
(Gravz: Exatamente. É isso. O cara é criativo, tem boas idéias. Pra mim, é isso aí que vale. O resto é firula - sem contar que muitos alegam ter "estilo", mas desconhecem rudimentos da gramática)
Bukowski era pra ser uma piada bem contada pra certas pessoas nunca se sentirem sozinhas... e não pra ser alguém que inspirasse tal vagabundagem...
Fez sentido!?
(Gravz: A piada é levada muito a sério por estas plagas)
E quem não tem estilo, não sabe escrever e também não tem história?
(Gravz: Quem for assim, senta e chora
(Gravz: Esse livro, aliás, virou filme recentemente. Nem vi...)
Mas é uma coisa bem brasileira né? Verborragia sem dizer porra nenhuma - políticos, jogadores de futebol, ator de novela e comediante esculacho - a referência verbal do povo.
E eu gosto do Bukowski também.
(Gravz: Todas essas categorias de 'brasileiros verborrágicos' são perdoáveis. Menos a dos 'neo-escritores')
Eu sou uma neo-qualquer coisa. Não uma neo-escritora, já que não tenho nada publicado e enquanto não tenho, sou neo-nada.
Eu escrevo e só escrevo. A maioria das coisas que escrevo é sobre mim mesma. Sobre coisas que eu vi, fiz ou pensei. E juro pra você que não estou nem um tiquinho preocupada se eu tenho ou não algo a dizer. Eu ADORO escrever o que eu penso, e tem sempre alguém pra ler. Se não tiver, eu escrevo igual.
E sou péssima com a tal da gramática. Já te disse isso uma vez: meu cerebrozinho cercado por tantos fios loiros falsos, não consegue guardar regra alguma. Escrevo assim, tudo meio tudo errado. Não sei nem onde enfiar um ponto e vírgula, e tenho ZERO histórias para contar.
Eu sou um fracasso!
Alguém me mata!
(Gravz: Você está exagerando, é claro. Mas, se fosse verdade, poderia seguir o exemplo do Bukowski, que fez desse drama todo uma carreira de, hm, "sucesso"...)
Para escrever hoje, basta sentar, falar qualquer asneira, juntar a metade da idéia dos 6 livros que vc leu com a dos outros 150 que vc diz ter lido... e... pronto... você é um neo-escritor!
Sua obra é rara... por conseguir retratar vários temas num mesmo livro... um gênio diria os mais apaixonados!
(Gravz: Os "mais apaixonados" e os idiotas.
(Gravz: O nome difícil é culpa dele, não nossa)
