O ‘JEITINHO BRASILEIRO’ NÃO TEM MUITO A VER COM MALANDRAGEM; É IMPERÍCIA, MESMO.
05/10/2006
O ‘JEITINHO BRASILEIRO’ NÃO TEM MUITO A VER COM MALANDRAGEM; É IMPERÍCIA, MESMO.
O tal 'jeitinho' é motivo de vergonha. Uma vergonha declarada, mas talvez não muito sentida, haja vista que quase todos usam e abusam desse atributo nacional. Muitos que condenam o 'jeitinho brasileiro' são usuários contumazes do negócio.
E essa condenação se dá pelos pelos motivos errados. Explico.
Brasileiro é tão prepotente, mas tão prepotente, que quer ser o melhor em tudo, até nas contravenções. Ridículo, né? Nosso 'jeitinho' não tem nada a ver com 'malandragem'. É pura imperícia, simples falta de capacidade de se fazer as coisas do jeito certo.
Quando 'damos um jeito', não adotamos simplesmente um procedimento ilegal ou quase-ilegal. Simplesmente deixamos de fazer o correto, o trabalhoso, o difícil, para fazer o que é mais fácil, simples e rápido. Uma mistura de preguiça com imperícia forma parte considerável de nosso povo.
Vejam as universidades... Quantos professores têm clássica? Quantos, dos que dão aula, realmente leram e se formaram por meio de clássicos não somente da ciência que lecionam, mas da literatura universal? Sabemos que não são muitos. E isso é impensável em um país que se pretenda ser minimamente respeitável.
É triste constatar que, numa aula de universidade, as analogias artísticas não são comparações com obras clássicas, mas sim com letras de músicas, reportagens ou coisas do gênero. São os exemplos usados por professoras de 'redação' do colégio. Isso não pode ser um padrão na Universidade. Mas é. Todos sabemos disso.
Há exceções? Sim, claro. Há bravos guerreiros que são legítimos estudiosos, efetivamente preparados e com ótima formação. Mas eles são minoria; a minoria da minoria. E, acreditem, estão mais putos da vida do que eu. Porque aqui exponho simples teoria, mas isso para eles é a essência da própria vida.
Como alguém, sem qualquer formação clássica, pode dar aula numa universidade? É patético, deplorável, sofrível. Uma grande parte de nossa 'elite acadêmica' não é exatamente uma 'elite', mas sim uma turma, uma aglomeração de panelinhas.
Outro dia, vi um grupo de amigos enaltecendo um 'centro de excelência', que seria uma maravilhosa escola de pós-graduação. Fui saber os motivos de tantos elogios, e não me surpreendi com as respostas: sistemas digitalizados, pontos de conexão para notebooks nas mesas, aulas em videoconferência etc.
A prova da falência da Academia é isso. Pior do que a carência de professores com formação clássica é o fato de que os alunos não percebem isso e/ou não vejam nisso um grande problema. As escolas 'excelentes' são aquelas com mais requisitos tecnológicos, e assim vamos.
Esse foi apenas um exemplo, para mostrar que nem a parte aparentemente 'boa' é realmente 'boa'. Imaginem, então, os setores que todos sabemos ser péssimos...
Sejamos honestos, bem honestos: as coisas quase nunca são feitas corretamente por aqui. É tudo na base do improviso, da 'gambiarra' mesmo. E isso não se restringe aos setores públicos, mas também aos privados, profissionais liberais, imprensa, ONGs etc.
Diariamente nos deparamos com isso, mas não sei até que ponto percebemos que é uma epidemia nacional.
É o parente ou amigo contratado (por governo ou empresa privada); o maldito e escalafobético 'sistema fora do ar', que acomete quase todas as empresas porcamente informatizadas; o profissional que copia trabalhos ou petições de modelinhos manjados; a revista ou jornal, de direita ou esquerda, que recebe patrocínio estatal - e elogia o partido do administrador público anunciante; a ONG que remunera com valores altíssimos os 'fundadores-diretores-vitalícios' e que fecha contratos altos com algum governo, sem executar um serviço com mínima competência... E assim por diante.
Esses exemplos servem para demonstrar um pouco do que é nosso 'jeitinho'. Não se trata apenas uma esperteza contraventora, mas sim de uma falta total de capacidade para se fazer as coisas de forma correta - no sentido técnico, mesmo.
Há malandragem? Sim, claro. E muita criminalidade e contravenção, sem dúvida. Mas duvido que os índices superem os de outros países. Até na China, onde há pena de morte e processo pra lá de rápido, pessoas corrompem e são corrompidas.
O 'jeitinho brasileiro' tem menos a ver com um suborno a guarda de trânsito e bem mais a ver com a falta de capacitação de alguns motoristas e também alguns de guardas.
Aqui é tudo improvisado, meus caros. Nosso 'jeitinho' é isso. Não somos espertos, mas sim imperitos. Nossa 'malandragem' não consiste na prática de crimes ou contravenções, mas sim no fato de que passamos a vida toda fingindo que sabemos fazer algo, quando na verdade só empurramos com a barriga.
Por isso, Acho que não faz muito sentido mantermos o dístico "Ordem e Progresso' em nossa bandeira.
Proponho a imediata substituição por algo que tenha mais a ver com a natureza de nosso povo, com o funcionamento das instituições - públicas E privadas. Uma expressão que resuma o Brasil em sua mais profunda essência. Em vez dos dizeres atuais, nossa bandeira traria uma única palavra:
"GAMBIARRA"
Porque é isso que somos: uma grande gambiarra. Uma soma de improvisos, uma traquitana continental. Nosso 'jeitinho' não decorre da malandragem, mas sim da falta de capacidade, vontade e, diante da epidemia, até da falta de necessidade de se fazer as coisas corretamente.
Os imperitos agem assim: fingem que são malandros. E todos acreditam, porque são quase todos também imperitos. Até como malandros somos um fracasso.
* * *

Taí. A cara do Brasil.
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transubstanciado por gravata às 05.10.06 | 10 comentários
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Comentários:
(Gravz: O Brasil é uma grande gambiarra. Esse que é o problema. E o Isaías disse que já trabalha demais...)
(Gravz: É triste, sim. Mas você não tem culpa)
Beijo
(Gravz: Dureza, né?)
(Gravz: Pois é, Marcelo. Seus exemplos confirmamo que eu falei. Aqui é uma Gambiarra, mesmo! E, por causa dela, cientistas brilhantes são obrigados a fazer verdadeiros malabarismos. A Gambiarra não é uma malandragem deles, mas a única forma que encontram para contornar um sistema falido. Se não houvesse essa falência, quantos cientistas não se destacariam? Enfim...)
(Gravz: Relaxa, todos somos assim)
(Gravz: Eu acho que existe uma dose de criatividade aí, sim. Mas é por causa da falta de capacidade de se fazer corretamente as coisas. Como no caso de quem não estudou para uma prova, e então desenvolve técnicas avançadíssimas para 'colar'. Há muita criatividade por aí, sim, mas pouco talento)
Os parênteses são só pre eliminar qualquer dúvida sobre o propósito da minha preferência, ou seja a sobrevivência!
E não concordo totalmente que improvisar, de um modo geral, seja apenas incompetência para fazer bem. Às vezes pode ser simplesmente uma outra forma de fazer bem as mesmas coisas sem os meios tidos como certos para executá-las. O método da gambiarra como solução de pequenas coisas não é intrinsico aos brasileiros, Matisse em seus últimos anos de vida, quando sua saúde já estava debilitada e não podia sair da cama, deu um 'jeitinho' e amarrou na ponta de um bambú um pedaço de pano e continuo a pintar, e muito bem, sobre qualquer coisa que pudesse receber tinta.. mas acho que estou fazendo uma apologia ao improviso, coisa que não quero porque o Jazz já o fez.
( obs: não estou sendo cínico não, só estou divagando sobre o tema)
abraços.
(Gravz: O improvisador às vezes é competente, mas a necessidade do improviso prova que o sistema é, ele todo, incompetente. Por isso quer este é um país-gambiarra)
O sistema foi importante e decisivo para o funcionamento da vida das pessoas, por causa da revolução industrial.
Método, regras, e bulas para um novo comportamento de vida para a produção em grande escala, que nescessita de regras e padrões.
Newton estaria fodido com as regras de nossa sociedade, ou pobre da civilização que o proibisse de pensar fora das regras.
Ainda acho que o improviso e fazer as coisas fora da regras 'naturais' da regra, que não tem nenhuma relação com dar propinas à policia, etc, etc.
Viví algum tempo em Barcelona, e posso garantir que o improviso, e a malandragem para driblar o fisco, e as outras regras que a sociedade dita, não são de maneira alguma, tipicamente brasileiro. Entretanto a coisa funciona, e se atribui ao sistema o bom funcionamento das coisas.
O sistema é quase como algo virtual, tá lá mas não deve ser considerado.
Será que é isso que é ser terceiro mundo?
(Gravz: Qual o país de primeiro mundo que não tem um 'sistema'?)
Mas a pergunta contextualizada com o texto é; 'os sistemas sociais' (embora não acredite em 'sistemas', acredito que só haja o primeiro), mas em sistema deve podem ser contestadas?
A improvisação é sobre tudo, a contestação das regras do sistema. Às vezes produz merda, às vezes muda a história.
Na maioria das vezes mudou a história.
Mozart, deu importância ao improviso e mudou a historia, pelo menos da música, o que não é pouco, visto que música na sua época era um artigo importante. Mas tenho a impressão que me excedi e causei má impressão, minha intenção não era me indispor com o blogueiro, como a resposta lacônica do blogueiro me fez perceber, me desculpe! Apenas me propus a comentar o conteúdo do texto. Novamente me desculpo!
(Gravz: Não teve resposta lacônica - é que não posso dar uma resposta prolixa para todos que aqui comentam. De todo modo, em momento algum me referi ao improviso na arte, que é justificado pelo talento e pela inspiração. No caso, a crítica foi ao improviso como marca nacional, como fator preponderante para o funcionamento de TUDO num país; ou seja, a vigência irrevogável da gambiarra. É isso. Não precisa se desculpar, na boa..rs)
(Gravz: De fato)
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