O GRANDE MOVIMENTO DA MÚSICA BRASILEIRA DOS ANOS OITENTA: A RENOVAÇÃO DO SAMBA CARIOCA

30/06/2006

O GRANDE MOVIMENTO DA MÚSICA BRASILEIRA DOS ANOS OITENTA: A RENOVAÇÃO DO SAMBA CARIOCA

Tenho a impressão de que o tal 'rock oitentista' foi uma espécie de ilha cultural na música brasileira. Em primeiro lugar, não durou uma década. Começou por volta de 1982 e foi até 1988, no máximo.

Mais ou menos nessa época, no Rio de Janeiro, houve um dos movimentos mais importantes de toda a história da música brasileira. Esse movimento é desconhecido de muita gente, embora a grande maioria vibre ao som de alguns craques de tal 'levante cultural'.

Enquanto alguns músicos 'descolados' tentavam macaquear os ingleses e americanos, curiosamente inventando um movimento nacional que tinha vergonha do próprio país, um grupo carioca tratou de sedimentar a cultura do samba.

Sou honesto em situar esse grupo sambista no Rio de Janeiro, porque, embora existissem sambistas no Brasil inteiro, esse grupo carioca foi o grande responsável por uma reviravolta do ritmo - e abriu caminho para a onda 'pagodeira' que viria quase uma década depois das primeiras reuniões na quadra do Cacique de Ramos.

Beth Carvalho, a grande madrinha, figura conhecida desde a época dos festivais, ajudou a divulgar o trabalho de gênios como Zeca Pagodinho, Bezerra da Silva, Leci Brandão, Almir Guineto, Arlindo Cruz e Sombrinha e o Fundo de Quintal.

Na história cultural de um povo há episódios que parecem 'eternos', mas que não passam de fatos circunscritos a um momento. O 'rock oitentista' brasileiro está nesse grupo. Começou, acabou e não deixou vestígios.

O que se fez de bacana na música brasileira depois disso, mesmo no rock nacional, não se baseou no movimento dos anos 80. As novas grandes bandas (Chico Science, Mundo Livre, Planet Hemp, O Rappa etc) não são influenciadas pelos roqueiros da década anterior; ao contrário, suas origens estéticas remontam a períodos anteriores.

Deliberadamente saltam os anos oitenta, o que se faz com certa coerência estética, e chegam à Jovem Guarda, ao Tropicalismo, aos Novos Baianos, a Gerson King Kombo, a Odair José etc.

Assim como o 'rock oitentista' desprezava as influências nacionais, as bandas posteriores desprezam o próprio movimento diretamente antecessor. Se eles tinham vergonha do Brasil, os novos têm vergonha dessas bandinhas.

As poucas que sobraram, antes mesmo de acabar os anos 80, já tinha se desvinculado esteticamente daquele movimento. Os Titãs gravaram 'O Blesq Blom'; Paralamas compuseram com Gil etc. A estética musical oitentista se tornou tão cafona quanto uma calça santropeito.

Mas e a turma do Cacique?

Eles passaram sem muito destaque. Não são lembrados como integrantes de um movimento, de algo que realmente influenciou a música brasileira. Dá-se a impressão de que somente faziam uma festa.

Talvez a intenção fosse essa, mas passaram muito disso. Esses sambistas do Rio de Janeiro fizeram o mais brilhante e bacana movimento musical de toda a década de 80. Provavelmente, não tinham esse objetivo, mas foi o legado que deixaram.

Obviamente, alguns acham que esse legado foi uma verdadeira maldição, haja vista a moda do 'pagode' da segunda metade dos anos 90. Não sou fã desse negócio, mas não sou besta de negar que seja um movimento legitimamente popular e muito mais pujante do que todo o 'rock oitentista' do Brasil.

A estética da "Turma do Cacique", e também de Bezerra da Silva, influenciou diretamente Marcelo D2, Mundo Livre, Rappin Hood, O Rappa e muitos outros. O rock nacional dos anos oitenta teve uma estética própria, por isso não teria como influenciar ninguém.

Tradição Renovada
O que me agrada nesse samba carioca do início dos anos oitenta é a forma genial com que 'modernizaram' o ritmo. Hoje em dia, quando alguém quer modernizar algo, trata de "flertar com a eletrônica" (e adotam essa expressão como se fosse algo supimpa).

Claro que os sambistas do Rio não fizeram isso. Apenas modificaram com temáticas mais atuais tudo aquilo que a cultura sambista sempre valorizou. Almir Guineto, por exemplo, fez sucesso com uma música-emblema da tradição carioca: Caxambu.

Caxambu é o instrumento de percussão usado para tocar o jongo; e este vem a ser o 'samba-de-roda carioca'. Não há nada mais tradicional do que isso, e Almir Guineto fez com que essa coisa linda da cultura musical carioca (e brasileira) chegasse ao público de uma forma atualizada.

"Dona Celestina, me dá água pra beber / se você não me der água vou falar mal de você / deu meia-noite, o galo já cantou / a igreja bate o sino e é na dança do jongo que eu vou"

Assim como Zeca Pagodinho e Bezerra da Silva, com sambas no estilo 'crônica humorística', também resgataram e renovaram o velho e consagrado estilo de composição sambista.

O hino dessa turma, a meu ver, é a música "Fundo de Quintal", de Leci Brandão.

"O que é isso, meu amor, venha me dizer / isso é fundo de quintal, é pagode pra valer"

Não há qualquer música do 'rock oitentista' brasileiro que chegue aos pés disso. Nem teia como.


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transubstanciado por gravata às 30.06.06 | 6 comentários


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Comentário de: urg

Ok, ok, Legião, Plebe e Capital ( ficando apenas em alguns) conquistaram seu espaço rompendo com os padrões vigentes no Brasil - garotos ricos com fitas cassetes importados de bandas pouco conhecidas - mas ele criaram ou deram identidade visual e musical a um incipiente Rock Nacional, compara-los com quem quer que seja, só mostra a sua capacidade de correlacionar todo conteúdo em um tema simples guiado pela analogia curta e mesquinha.

(Gravz: Legião, Plebe Rude e Capital Inicial tinham em comum apenas o fato de ter surgido em Brasília. Achar que bandas são iguais porque estão na mesma cidade é generalizar de forma mais simplista do que eu fiz. Parabéns por ter conseguido. Agora, desculpa, mas a turma de Brasília era tudo, menos pobre. Não romperam com padrão algum. Eram riquinhos, também. Todos eram. E a estética musical deles era não somente pobre como os demais, mas também insuficiente para inspirar qualquer outro. Fora a lamentável banda "Catedral", qual foi a outra que se influenciou realmente em Legião Urbana? Nenhuma. Parou por aí. Não deixaram legado algum. Plebe Rude e Capital, então, nem se fale... E qual foi a 'identidade visual e musical' que deram? Qual foi? As camisetas brancas do Renato Russo? Os óculos? A dança catárquica? As letras de amor? Não, meu caro, nada do que fizeram era original. E tudo parou naquela mesma geração.)

PermalinkPermalink 01.07.06 @ 10:39



Comentário de: THIAGO

IRA!

(Gravz: Luxúria, Gula etc)

PermalinkPermalink 01.07.06 @ 14:29



Comentário de: Persegonha · http://www.leitedepato.com.br

E como tradição é tradição, o pessoal do Cacique também não deixou de fora os sambas que falam de comida, de tempero, das grandes cozinheiras... É música "puxada a sustança", como diria o Bruxo do Cosme Velho.

(Gravz: Como o famoso 'Pagode do Gago')

PermalinkPermalink 02.07.06 @ 18:21



Comentário de: Lady Metal · http://www.ladymetal.blogger.com.br

BRock 80: o maior engodo da música brasileira.

(Gravz: Foi um movimento que não deixou seguidores. Nem teria como)

PermalinkPermalink 02.07.06 @ 18:51



Comentário de: Marina

E o Barão, o que vc acha?

(Gravz: Que barão?)

PermalinkPermalink 04.07.06 @ 14:05




Mais “curioso" que seus posts que eu discordo, são os que levam a tua opinião como verdade absoluta. Opinião, é opinião, pô! Não é porque você acha que efetivamente é, aliás, vale essa máxima pra (quase) todas as opiniões, inclusive a minha :D. E a minha nesse momento é que, primeiro: Besteira soltar coisas como: "era riquinho, era pobrinho", é a mesma história de julgar a obra pela pessoa, como não gostar de um quadro por causa da vida particular do pintor (isso já foi falado aqui, né? Ou não?).
Segundo: Não julgo méritos de algum artista por ter ou não influenciado outros, pra você esse é um critério? Ótimo, pra você, não pra mim, eu tenho outros, no caso da Legião, só pra citar um exemplo a qualidade das letras (que não falavam só de amor, existem também putas composições de protesto) e a voz linda do Renato.

Eu entendi que o foco do post não era esse, que a intenção era chamar atenção pro fato de todo mundo falar dos Oitentistas e não dar os devidos méritos ao pessoal do Cacique, tal e coisa. Tudo isso entendi, só não concordo que isso seja usado pra desmerecer quem deu uma importante colaboração sim pro cenário musical brasileiro. Tou comentando isso mais por causa do primeiro comentário que pelo post em si.
Ah, mais uma coisa: Espero Fernando, que você perceba que esse é um debate de opiniões e não uma coisa pessoal, se meu melhor amigo tivesse uma opinião como a sua eu responderia do mesmíssimo jeito. E espero que entre nós a "amizade" também continue a mesma :D

PermalinkPermalink 04.08.07 @ 19:59



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