CHICO E CAETANO: MALAS E BACANAS EM CAMPOS OPOSTOS
23/05/2006
CHICO E CAETANO: MALAS E BACANAS EM CAMPOS OPOSTOS
No final da década de sessenta, a MPB se dividiu em dois grupos bem nítidos: de um lado, Chico e sua turma; de outro, Caetano e seus asseclas. Hoje, essa briga é minimizada, os próprios envolvidos fingem que nunca existiu, mas os críticos mais sérios confirmam que o bicho pegou de verdade.
Chico estava com os 'tradicionalistas', enquanto Caetano comandava uma revolução estética que era vista como 'americanização da MPB'. Como vivíamos um período de impressionante idiotice política, o Regime Militar viu na Tropicália um inimigo político (e não somente estético), de modo que o exílio de seus dois principais mentores (Caetano e Gil) inseriu o movimento no grupo dos anti-ditadura, e a briga começou a se diluir.
Melhor assim. A paz foi definitivamente selada com o show realizado por Chico e Caetano em 1972 e registrado em álbum (miseravalmente poluído pelas sonoplastia da Philips, que inclui palmas ensurdecedoras no meio das músicas, inclusive para censurar - como em "Bárbara").
Mas hoje, vejam vocês, há uma nova dicotomia. É possível dizer que Chico e Caetano estão novamente em campos opostos, e desta vez em dois campos: carisma pessoal e carisma musical. Explico.
Chico é o cara gente boa. Suas entrevistas são bacanas, ele é divertido, parece ser uma companhia agradável em qualquer roda. Seu humor é refinadíssimo, de modo que até o cinismo sarcástico se torna algo legal. Chico é um camarada bem vindo em qualquer turma. Ainda por cima é bom de bola e toma uma cervejinha.
Caetano, por sua vez, é um maleta. Fala pelos cotovelos sobre exatamente todos os temas do universo, usando uma sintaxe atípica, que mais parece arrogância estilística do que seu jeito normal de falar. Suas opiniões políticas são dignas de constrangimento (como o apoio velado a ACM ou a "candidatura Mangabeira Unger", o intelectual que é filiado ao partido da Igreja Universal). Ele dificilmente seria aceito numa turminha, é o tipo de mala que ninguém convida para qualquer programa (exceto, talvez, uma festa de blogueiros).
Isso tudo é sabido por todos, não há novidade alguma em colocá-los em campos opostos no que diz respeito ao carisma pessoal. Mas e o carisma musical? Não falo da 'qualidade da música', mas sim de algo menos objetivo: a canção ser bacana. Se podemos considerar uma pessoa 'bacana', ou mesmo aplicar regra geral à chatice de alguém, também podemos usar o mesmo mecanismo para avaliar as músicas.
Caetano, aquele mala insuportável, tem feito músicas bacanas e continua cantando muito bem. Já Chico, o gente boa, faz músicas cada vez mais chatas. Ninguém gosta de assumir isso, mas todos sabemos que é verdade. As músicas do Chico andam muito chatas, mesmo. Demais! Ele próprio dá umas desculpas divertidas etc. Quando um disco precisa ser 'apreciado com calma', é porque simplesmente as músicas são bem dureza.
Chico é legal, mas faz músicas chatas; Caetano é chato, mas faz músicas legais. Não sei qual o motivo desse fenômeno, mas ele é real.
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transubstanciado por gravata às 23.05.06 | 6 comentários
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Comentários:
(Gravz: Nunca os vi de galochas. Mas já vi Caetano, por exemplo, de sarongue paquistanês. É bem mais chique que galocha!)
Porra, ficou com nome de cantor de forró.
(Gravz: Aí a experiência dá errado e ele nasce com a chatice do Caetano e a chatice das canções mais recentes do Chico)
(Gravz: Não mesmo.. Ele gravou muito lixo nesse período também)
Nos últimos dez anos Chico gravou um disco-duplo ao vivo de enorme sucesso ("Chico Ao Vivo", 1999), escreveu um livro muito bom (Budapeste), participou da adaptação para o cinema de outros dois livros seus (Estorvo, de Ruy Guerra e Benjamim, da Monique Gardenberg), e lançou também, entre outros, um box de 6 DVDs com entrevistas e retrospectiva de carreira.
Muito produtivo. Mas você falava de canções.
"Paratodos" é de 1993, então não vale. Desde 1996, Chico lançou dois discos de inéditas: "As Cidades", em 1998 e este novo, "Carioca", de 2006. Isso além dos projetos mais experimentais, como "Cambaio" e "Terra", que também incluíram canções novas.
O álbum "As Cidades" tem muita música boa: "Iracema Voou", "Sonhos Sonhos São", "A Ostra e o Vento", "Cecília", "Chão de Esmeraldas", entre outras.
O disco novo ainda não ouvi. Mas deve term muita coisa boa também.
Vc vai dizer que Chico não faz mais sucesso. Concordo, ele se sofisticou, claro. Chico não continuou uma carreira de sucessos populares. Isso pra mim é ótimo, se olharmos por aí o que significa fazer sucesso popular hoje em dia.
Mas segue com qualidade. O que vc chama de "música chata" pra mim é muito relativo. Tirando "Nothing But Flowers", que é linda, acho o resto do Caetano muito chato.
É claro que vc vai retrucar a altura. Mas, convenhamos Gravz, essa discussão é idiota. Ambos são grandes artistas. O resto é questão de gosto. :-)
Abz!
(Gravz: As canções novas de Chico são chatas. Sei que falar mal do cara dá cadeira elétrica em 34 estados norte-americanos, mas ainda assim corro o risco
(Gravz: Caetano Buarque? Acho Buarque menos estranho do que Veloso)
(Gravz: E quem escrevia os livros do Sérgio era o Chico?)
