ACERTAR TAMBÉM É HUMANO

05/04/2006

ACERTAR TAMBÉM É HUMANO

Neste último final de semana, vi o excelente filme "The United States of Leland". Há um diálogo ótimo, no qual se discute essa coisa de que o 'erro' é característica do ser humano - e usamos essa conversa-mole para justificar nossas cagadas.

No tal diálogo, Leland (que é um menino), quando seu professor acaba lhe confessando que traíra a namorada, usando como justificativa o fato de ser 'um humano', pergunta: "Por que sempre que erramos dizemos que somos humanos, mas quando acertamos não?".

Excelente, né? Ao evocar nossa 'humanidade', na hora do erro, fazemos com que a falha não seja somente nossa, mas de todas as pessoas. Buscamos a compreensão - e a cumplicidade - do interlocutor.

Apostamos na idéia de que ele também comete seus deslizes, e de certa forma sabe que ninguém é perfeito e inabalável. São os humanos reconhecendo que são humanos; ou seja, não somente falíveis, mas também sórdidos na hora de evocar pactos tácitos na hora das desculpas.

Nós somos contraditórios, não é mesmo? Ao mesmo tempo em que consideramos a humildade uma virtude, também dizemos 'não me arrependo de nada que eu fiz'. Não há frase menos humilde do que essa; é praticamente uma afirmação de infalibilidade divina.

Quando erramos, na verdade não erramos, pois tudo aconteceu por culpa de nossa humanidade. Pensando friamente, depois de feito, entendemos que foi uma grande mancada (ainda assim, seguindo a regra do parágrafo acima, não nos arrependemos).

É como a lógica pentecostal. Enquanto a doutrina católica prega o arrependimento, jogando sobre o pecador a culpa de seus atos (decorrência lógica do livre-arbítrio), os pentecostais falam que todos os erros são obra do diabo. Livram os pecadores da culpa. Uma maravilha! Alma lavada em um segundo! Ok, mas tem que pagar.

Sobre o Filme
"The United States of Leland" é um filme que trata de nossa humanidade. Aquele diálogo citado é só mais um exemplo, dentre tantos outros do roteiro. Não há heroísmo, não há uma grande trama, não há grandes traições ou algo do gênero.

Em vez de um filme insosso, como as novelas de Manoel Carlos, temos o exato trauma do impacto da humanidade. De quando as coisas se revelam simples, porque são mesmo simples. A descoberta de que sonhamos com fábulas, enquanto o mundo real é obviamente diferente.

Em certo momento, um fã encontra o grande autor literário que sempre lhe serviu de guia. Ele finalmente o conhece, e então o vê como humano. Há uma certa decepção, e a vida é feita mesmo disso.

Há um crime, um crime bizarro, horrível, daqueles que aparecem no jornal. Um menino com problemas mentais é brutalmente assassinado, e o provável (e confesso) assassino não se lembra de nada. O que se esconde por trás da aparente normalidade? Quem encobre quem? Nada, ninguém.

O filme se parece um pouco com "Beleza Americana" (além de ter Kevin Spacey no elenco e também na produção). Além do genial Don Cheadle, o grande destaque fica com o protagonista, Ryan Gosling.

Esse jovem ator fez um trabalho maravilhoso naquela história do judeu neonazista (baseada - acreditem! - em fatos reais). Agora, novamente, dá um show. Ele precisa ser escalado mais vezes.


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transubstanciado por gravata às 05.04.06 | Alguém?



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