FIGURAS CARIMBADAS DE UMA CPI
31/03/2006
FIGURAS CARIMBADAS DE UMA CPI
Vocês sabem o que é uma CPI? Imagino que saibam as palavras da sigla: "Comissão Parlamentar de Inquérito". Mas sabem, exatamente, quais seus poderes? Sabem qual o objetivo de uma Comissão assim?
Pois bem: a CPI tem por objetivo investigar (ok, isso é óbvio). E, como toda boa investigação, o fato precisa ser determinado (não vale, portanto, abrir uma comissão para generalidades; é preciso algo específico). Além disso, é necessário ter um prazo para conclusão dos trabalhos.
Uma vez aberta, a CPI tem poderes bem interessantes de investigação (por exemplo, quebra alguns sigilos, intima etc). Esse é o auge da Comissão. Porque disso não passa.
Explico.
O resultado é sempre (sempre!) um relatório que, quando aprovado, é enviado ao Ministério Público. Nesse momento - e somente a partir daí - é que o trabalho da Comissão se torna algo 'judicial'.
Toda a pirotecnia televisiva dá vez à tecnicidade jurídica dos promotores ou procuradores. Muita, mas muita coisa vai para o vinagre, e tantas outras, que não foram devidamente investigadas, são acrescidas à eventual denúncia.
Porque o político não está lá exatamente para investigar, para buscar lacunas jurídicas, burlas legais ou algo do gênero. O negócio é fazer show, aparecer na frente das câmeras etc etc etc.
Já que ninguém parece muito preocupado em saber das coisas como elas são, vamos pelo menos dar risada com o que há de engraçado nesse universo. E piadas não faltam. Trataremos agora daquelas figuraças clássicas de todas as CPIs; elementos tão necessários quanto alguns arquétipos das telenovelas. A ver:
A Ex Mulher
Não existe um bom escândalo sem que haja uma boa (ou não tão boa) ex-mulher. E ela precisa jogar o máximo possível de merda no ventilador. Persega (acho que foi ele) já falou disso. A ex-mulher serve como índice de medição de um escândalo. Por exemplo: uma denúncia pode ser muito grave, mas ela só se torna efetivamente um problema quando surge a 'patroa de outrora' cheia de sangue nos olhos, ávida para contar todos os podres de seu ex-marido dado a traquitanas políticas.
O Corrupto Fiscalizador
Todo mundo sabe que ele é um safado, um tremendo salafra, mas mesmo assim o camarada não tem um pingo de vergonha na cara e passa a CPI inteira fingindo ser um homem honesto, fazendo perguntas desafiadoras, discursando, gritando, clamando por honestidade. Não faltam exemplos.
A Secretária Arrogante
Parece a Lauren Bacall com crise de enxaqueca. Lembra muito aquelas professoras chatas do colégio. Ela se senta, faz cara de poucos amigos, responde tudo com a maior empáfia do planeta, e sai da CPI como inimiga pública número 1.
O Atrasador Geral
Ele é do governo, e todo governo tem um cara assim. Não importa se é do partido X ou Y. A função desse carinha é atrasar, demorar, dificultar, fazer perguntas inúteis etc. As casas legislativas possuem regimentos pitorescos, e muitas vezes 'bons atrasadores' (bons?) conseguem perturbar de verdade uma CPI.
A Musa
Por pior que seja uma situação, por mais calamitoso que seja um escândalo, sempre há uma 'musa'. Todos ficaram indignados com a deputada que dançou (de fato foi feio, embora tenha sido mais feia a absolvição dos deputados por parte da MAIORIA DA CÂMARA), mas ninguém se indignou quando a Revista da FSP fez fotos 'sensuais' com a moça que depôs na CPI. E assim vamos. Não importa a tristeza do contexto, a feiúra do quadro, a miséria política ou a desgraça republicana: sempre dá tempo de eleger a melhor bunda. Isso é Brasil.
O Cidadão Humilde
Às vezes do bem, às vezes 'treinado', ele está lá para causar uma certa comoção na moçada, e principalmente ganhar a simpatia do povo. Tem todo um jeito simples de falar (em vez dos erros grosseiros da linguagem barrococô de alguns políticos velhos de guerra), e geralmente é pobre. Como todo bom povo maniqueísta (ninguém manda educar a massa com telenovela), alçamos esses caras à condição de heróis. Sem dúvida, é louvável ter coragem para acusar gente 'poderosa', mas é simplista (para dizer o mínimo) atribuir 'heroísmo' ao que às vezes é apenas oportunismo, ou então quase-inocência (não faz sentido louvar um ato, se esse ato não foi deliberado).
Bônus Track: A Pergunta-Discurso
A CPI tá comendo solta. O Deputado Fulano, em razão da presença maciça da imprensa na Comissão, com transmissão ao vivo e alto índice de audiência, resolve se inscrever para fazer perguntas a algum depoente. Na sua vez, faz um tremendo discurso. Começa falando de sua trajetória política, passa pelos agregados e aliados locais, comenta rapidamente algumas mancadas de inimigos históricos, e termina por perguntar qual a cor favorita do pobre-coitado que está lá para depor. E se ele não responder, ou for irônico, ainda corre o risco de ser processado.
Tá, Ta, Tá...
Eu sei que é legal uma CPI. É óbvio que a idéia é bacana, pois algumas investigações são teoricamente mais eficientes quando realizadas por uma casa parlamentar (sobretudo quando se trata e tema grave e de 'gente poderosa').
Não acho que devam ser proibidas as CPIs. Mas, infelizmente, poucas Comissões realmente investigam fatos determinados, sem se transformar em palanques antecipados. Não há partido que se salve quanto ao aspecto negativo das CPIs.
Apenas fiz esta última ressalva porque alguns leitores se recusam a acreditar que este blog seja de humor. Eu sei que meu humor não é sempre tão engraçado assim, mas, acreditem (é sério!), raramente falo sério-sério-sério por aqui. E esta definitivamente não é uma ocasião dessas.
Só mais uma coisa: caso alguém resolva comentar este post, favor não citar nomes. Não serão publicados comentários que citem nomes.
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transubstanciado por gravata às 31.03.06 | 5 comentários
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Comentários:
Mas vim aqui mesmo pra te mostrar isso (se é que vc não viu):
http://www.idelberavelar.com/archives/2006/03/censura_na_blogosfera_do_grupo_folha.php
Abração!
(Gravz: Acabei de ver... Bem legal! Encaminhei o post pra chefa)
(Gravz: FHC? Não, não me referia a ele... Apesar do dito cujo dizer que tem 'um pé na cozinha' e ter comido buchada de bode em época de campanha, bem como se deixar fotografar em cima de um burrico [ou era jumento]. Mas... ele tá de barba agora?)
(Gravz: Eu acho que eles fazem jogo da velha, stop, ou alguma outra atividade para passar o tempo)
(Gravz: Ah, o Lula então precisaria de lições de intimidade e respeito pela 'coisa pública'; ensinamentos estes que só mesmo FHC lhe poderia passar. Afinal, só mesmo um grande respeitador do povo, como nosso ex-presidente, conseguiu enterrar TODOS os pedidos de CPI contra seu governo. Seu filho - sim, isso de 'filho' não é de hoje... - organizou o Pavilhão de Hannover, no qual se gastou milhões de reais [mais do que o dinheiro gasto com a viagem do astronauta, para vc ter uma idéia]. Ainda no quesito 'eu respeito o povo que me elegeu', ele não somente aprovou a emenda da Reeleição sem suspeita alguma (uh, tererê
(Gravz: Que dia você foi às ruas? Ou você é daqueles que 'defende que o povo saia às ruas', mas o máximo que faz é mandar email, comentar em blog e ficar bravinho em boteco? O povo que é passivo? Então, diga: o que você fez, de concreto? Só ficou choramingando por aí, reclamando da passividade 'do povo' enquanto também não fez coisa alguma? Lamentável. Mas qual a alternativa à dicotomia (que de fato não é exatamente dicotômica) PTxPSDB? O PFL? O Enéas? O Maluf? Garotinho??? De novo, repito a pergunta: o que você fez de concreto? Que dia saiu às ruas? Se nunca fez nada, não reclame 'do povo'. Você é o povo. E, se não fez nada, faz parte da passividade. Nâo finja que é o revolucionário nos comentários de blog, quando na 'vida real' é mais um da massa passiva)
