APRENDA A FAZER UM SAMBA-ENREDO

23/03/2006

APRENDA A FAZER UM SAMBA-ENREDO

Samba-enredo (ou samba de enredo?) é uma coisa conservadora. Reacionária, até. É o tipo de música mais previsível do mundo. Não há novidade, não há variação. É tudo a mesma merda.

Idéia, letra, ritmo blábláblá... sempre do mesmo jeito. Não mudam coisa alguma. Desse modo, qualquer um pode fazer um samba-enredo. Basta seguir um simplíssimo manual.

Tema
Alguma coisa da história, claro. Mas é preciso fazer uma abordagem falsa. Nada de falar a verdade, porque aí complica. Imaginemos que o desfile tratará dos bandeirantes. Obviamente, não haverá versos como "eles estupravam / índios chacinavam / invadiam tudo e matavam geral / que mal, que mal...", mas sim algo como "a história progrediu / graças aos brilhantes pioneiros do Brasil..."

Abertura
Sempre a abertura é feita com frases que remontam ao passado. Não adianta fazer firulas. Versos clássicos para se iniciar um samba-enredo:
- "nos tempos remotos"
- "no passado imperial"
- "no Brasil Colônia"

Desenvolvimento
É hora de contar mentiras. Invente tudo que puder. Use e abuse de lendas, mitos, fábulas, histórias da carochinha etc. Suprima toda e qualquer mínima menção desonrosa ao tema. E não se esqueça de abusar de adjetivos como "glorioso", "apoteótico" etc.

Mãe África
É preciso haver raízes afro. Não importa qual o tema, é de bom alvitre carnavelesco relacionar alhos históricos com bugalhos umbandísticos. Não é preciso ter muita lógica, basta reservar algum espaço na letra para falar o nome de meia dúzia de orixás. E já tá ótimo.

Encerramento
Deve-se terminar a sucessão de lorotas com um final épico. Não importa se o legítimo fim da história é meio triste ou apático. No samba-enredo tudo acaba bem, muito bem, maravilhosamente bem. Faz qualquer 'happy end' de comédia romântica hollywoodiana se parecer com um final de livro de Kafka.

Patrocínio
Com a queda de arrecadação do jogo do bicho, é preciso recorrer a outras fontes. Deixando de lado o tráfico, é possível levantar um trocado com empresas, governos, estatais, entre outras entidades dispostas a pagar uma fábula para que determinado tema seja adotado por uma escola de samba.

Viram como é fácil? Mãos à obra. E nem precisa pensar em melodia, pois todas são iguais.


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transubstanciado por gravata às 23.03.06 | 4 comentários


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Comentário de: patrícia · http://www.blogdanaka.zip.net

Mais fácil ainda compor um axé: é só colocar Bahia, bundinha, Salvador, eô eô, Pelô, mãozinhas pro alto, eô eô, vai descendo, vai subindo, tira o pé do chão, eô eô. E verbos de múltiplo sentido como: encaixa, arrocha, atarraxa, encaçapa...

(Gravz: O Arrocha é outra coisa. E ainda pior)

PermalinkPermalink 24.03.06 @ 14:35



Comentário de: Dani

No quesito samba-enredo, somente Hermes e Renato ganham dez desta juíza aqui. O samba do Unidos do Caralho a Quatro é contagiante. Já ouviu?

(Gravz: Já sim. E também o axé "Pira Pira Pirou")

PermalinkPermalink 24.03.06 @ 15:09



Comentário de: Thiago

Completando o comentário da Dani:

"Desde os tempos mais primórdios...
O caralho está aí, taí, taí"

Sensacional samba enredo, com toda a profundidade lírica que se espera. Nota 9,989 (seguindo os critérios de nota já mencionados em um post anterior deste blog).

(Gravz: E eles ainda reclamariam da nota)

PermalinkPermalink 24.03.06 @ 20:27



Comentário de: luioneal

vai tomá no cu comentarista de merda


PermalinkPermalink 18.04.09 @ 22:46



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