O IMPRESSIONANTE ‘CRIVO DE ACEITABILIDADE’ E A CAPACIDADE CURIOSA DE SE SOBREPOR A VERSÃO AO FATO
21/03/2006
O IMPRESSIONANTE ‘CRIVO DE ACEITABILIDADE’ E A CAPACIDADE CURIOSA DE SE SOBREPOR A VERSÃO AO FATO
O mundo real é feito de mitos. Biografias são reescritas, fatos são remodelados, versões são impostas e tudo é aceito como a mais inatacável verdade. E isso não acontece somente com 'fatos históricos', mas também com fatos recentes.
É possível, no infinito poço dos sofismas, permanecer atolado diante do quão difícil é conceituar a 'verdade'. O que é verdade? Como defini-la? Por que uma versão não pode ser 'verdade"? E assim se perde o tema. Sabemos bem o que é a verdade; assim como a liberdade, é difícil conceituar, mas é fácil compreender.
Voltemos aos mitos.
Aulas de história são muitas vezes verdadeiras bobagens. Passam aos alunos convenções, versões, distorções. Tudo, menos história. Não sei como é hoje, mas até a última vez que soube, ainda falavam que Pedro Álvares Cabral tinha descoberto o Brasil por acaso, entre outras coisas do gênero (como a transformação da Inconfidência Mineira, que passou de "movimento separatista, anti-tributário, local e escravagista" para "movimento libertário universal, bonitinho e fofo").
Somos levados a crer que essas distorções se devem à falta de documentos e à impossibilidade de se ter certeza do que realmente aconteceu em alguns episódios. Mas não é por aí.
Na verdade, as pessoas parecem ter uma vocação impressionante para acreditar em inverossimilhanças, ao mesmo tempo em que refutam peremptoriamente obviedades científicas. É a arte do achismo aplicada a tudo; o subjetivo acima do objetivo.
É compreensível que um religioso não tenha a mente aberta para assimilar historicamente alguns fatos que são vistos como milagres. Tudo bem, fé é fé. Mas não se pode usar esse mesmo raciocínio em fatos que estão plenamente desatrelados de qualquer religiosidade.
Mas isso parece impossível. A subjetividade impera. E vale tudo: omissão de estatísticas, ignorância seletiva, atribuição de pesos e medidas distintos, entre outras peripécias típicas dessa prática tão deplorável, e tão comum.
Acho que todos, pouco ou muito, somos assim. Precisamos nos desacostumar. Precisamos lutar contra nossa natureza, e segurar os próprios brios na hora de reconhecer que uma antiga convicção estava equivocada. É chato pra caramba, mas com o tempo isso se torna menos e menos doloroso, até que se consegue perder o vício.
Demora, mas vale a pena.
Casos Recentes do Subjetivo Que Supera o Objetivo
Ayrton Senna é aclamado por muitos como 'o melhor piloto de todos os tempos'. Já começa que 90% dos 'aclamadores' simplesmente eram crianças quando ele corria (ou seja, não tinham condições de falar sobre automóveis, e ainda por cima nem eram nascidos nos tempos de Piquet).
Quais os 'documentos' pesquisados? Filminhos que endeusam Senna, a Rede Globo (vez por outra a emissora faz aquelas coisas apelativas enaltecendo o ídolo), livros sazonais escritos por e para fãs, entre outras fontes muito isentas. Basta ter somente conhecimentos rudimentares de aritmética (nem entremos na seara do automobilismo) para ver que Schumacher, por exemplo, foi/é muito superior.
Para quem estava vivo e são (e só esses estão habilitados a comentar), Piquet também foi melhor. Sem contar Lauda, Stewart, entre outros. Enfim, Senna era mesmo um gênio, mas houve outros melhores. Um deles, por sinal, ainda na ativa.
Pelé também serve de exemplo. A chefa escreveu em seu blog que as pessoas se esquecem das más-fases do rei do futebol. E ele teve algumas. Os mais velhos acham 'um absurdo' comparar Ronaldinho a Pelé, mas não é. Não é mesmo.
O brasileiro Arthur Friedenreich, "El Tigre", fez 1239 gols (ou seja, mais do que Pelé, e sem precisar fazer patifaria no 'gol 1000'). Foi o maior artilheiro da história do futebol mundial e é uma estatística que muita gente adora ignorar (outros ignoram porque ignoram, mesmo; ainda que acreditem 'entender de futebol').
Quando comparam qualquer um a Pelé, a reação de muitos é idêntica ao comportamento de um fiel que presencia uma blasfêmia. E todos ouvem, calados, o dito cujo dando conselhos sobre a 'vida pessoal' de Ronaldinho.
Ora, Pelé foi o rei em campo, mas será que merece um hino de louvor por conta de tudo que já fez fora do campo? Uma de suas empresas foi acusada de ter ficado com 700 mil dólares por conta de um evento que nunca aconteceu (e era coisa beneficente, para o UNICEF). Pode ser acusação falsa, sem dúvida. De todo modo, é preciso primeiro esclarecer esse tipo de coisa séria, para depois dar palpite na vida social de quem, no máximo, sai com umas modelos.
Ainda falando de Pelé, é bom lembrar o caso da filha Sandra Regina, fruto de relação extra-conjungal, que só teve paternidade reconhecida por meio de processo judicial. Não é o tipo de encrenca que possa constar da biografia de um sujeito metido a dar pitaco na vida pessoal de outro atleta.
Mas ele continua com a pose de 'eterno atleta' e moço do bem, amparado no mito legitimamente criado dentro do campo. Pelo menos sua vida esportiva foi mesmo louvável. Pior ainda é ver políticos consagrados pela pouca lisura subirem nas tamancas por conta da 'pior crise de todos os tempos'.
E todo mundo acredita que seja a 'pior crise de todos os tempos'. É uma crise, sem dúvida, mas vivemos num País tão desgraçado que essa daí é café pequeno. Bem pequeno. Pra começo de conversa, teve até CPI. Os fatos mais sérios (foram vários, e bem mais sérios) nem chegaram a ser efetivamente investigados.
Do Teratológico Poder de 'Avalizar' a Verdade
A prepotência das pessoas é impressionante. Elas inventam um 'crivo de aceitabilidade' para os fatos, como se eles dependessem de uma aprovação, como se não fossem reais o bastante para existir independente de um aceite.
Esse mundo em que o subjetivo vence o objetivo é também o mundo dos dogmas. Um vício atrás do outro. Não bastasse a bizarrice das pessoas darem um 'aval' para a verdade, ainda é preciso respeitar algumas 'verdades estabelecidas', que - de fato - nem chegam a ser postas em discussão.
As verdades estão aí. Muitas vezes elas doem, e para alguns o melhor remédio é mesmo ignorá-las. Vai de gosto. Para quem precisa e consegue se iludir, a receita é simples e há ficções para todos os gostos.
Links:
Saiba mais sobre o maior artilheiro de todos os tempos por aqui.
Veja por aqui os fatos de Pelé.
Se você ainda duvida da supremacia de outros pilotos sobre Ayrton Senna, instrua-se por aqui. ![]()
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transubstanciado por gravata às 21.03.06 | 10 comentários
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A mesma coisa acontece no caso Senna/Piquet: eu era uma criança quando os dois corriam juntos. O que não me impede de preferir Piquet a Senna, mas por questões de personalidade e não de técnica, coisa que eu não podia e não posso avaliar, como leigo que sou.
Abraço.
(Gravz: Pois é, Guilherme. Piquet era humano: tinha raiva, explosões de alegria etc. Não dissimulava nem se fazia de mocinho do bem. Também o prefiro, sem dúvida)
(Gravz: Vamos por partes. Em primeiro lugar, 'cu' não tem acento. Talvez senta, vai de gosto, mas jamais leva acento. Além disso, seus argumentos são exatamente aqueles dos defensores da supremacia de Senna. Parabéns pela retórica. No mais, você foi identificado. Isso mesmo. Embora tenha assinado com esse 'eu', típico dos anonimatos adolescentes, pude ver que você é de Minas Gerais (provavelmente Uberlândia, ou algum lugar próximo do triângulo mineiro. Para maiores detalhes, veja aqui. É o registro de sua visita; ele mostra o tempo que ficou online, bem como seu IP etc)
Eu não sou uma especialista em Fórmula Um, mas o meu pai é (você sabe) e desde pequena aprendi a preferir o Piquet. Nem dá pra comparar.
(Gravz: Vc sabe tudo de F1)
Mas o que eu quero dizer é que "Eu" é tão coisa da quarta-série, tão insípida, provoca pena. Se é para ser anônimo, que seja de um jeito mais rodrigueano, oras!
Que tal: "um amigo que quer alertá-lo", hein?
(Gravz: Essa do amigo é usada naqueles emails de phishing. O amigo quer 'alertar', e manda um link. O babaca clica para ver o 'alerta' e instala um aplicativo de roubar senha)
(Gravz: Não mesmo. Mas elas ajudam de vez em quando)
IQUET foi campeão mundial 3 vezes ;obteve 23 vitórias e 481 pontos em 204 corridas pela Formula 1 ;24 poles e 4 vitórias em sua melhor temporada . SENNA:foi campeão mundial 3 vezes ; contabilizou 41 vitórias e 610 pontos em 161 corridas (tudo isso disputando 43 GPs a menos) ; seu número de poles ? Pois não : 65 .(Gravz: Poles? Isso significa que o Senna largou na frente mais vezes, mas não ganhou todas elas [largou na frente 65 vezes, mas só ganhou 41...]. Uma fera correndo sozinho. No mais, foi campeão TODAS AS VEZES com o melhor carro. Nunca ganhou com carro ruim. Piquet foi bicampeão com a Brahbam. Como disseram acima, estatísticas não são tudo. Não mesmo. É preciso saber o contexto)
(Gravz: Para quem começou com estatística, convenhamos que é um tanto bizarro o uso da 'suposição telepática'. Fatos: Piquet foi bicampeão pela Brahbam, e ganhou seu terceiro campeonato com a Willians, quebrando uma seqüência da McLaren. O resto é choro de fã do Senna)
(Gravz: A estatística dos gols do Fried peguei no artigo linkado. E, claro, ele fez mais que Pelé
Conheço o site do vascaíno Mauro Prais, mas nessa eu não caio. É muito disse-me-disse, é muito "documento que sumiu", é muito "não conte pra ninguém"... Eu, hein, parece o Governo Lula...
(Gravz: Fried - Eu Acredito
fui muito fã de senna (peguei o piquet ja no fim) mas acho um exagero essa idolatria
o mais legal que acho no senna é o fato dele ter sido um dos primeiros pilotos a inaugurar a era do piloto+tecnologia sendo extremamente profissional e 100% dedicado ao esporte, e ele aprendeu muito com o prost (outro obcecado) schumacher é praticamente uma continuaçao de senna e como o proprio schumy (muito galvao isso) disse , senna morreu e nao tivemos oportunidade de ver o que ele faria, e como fã de senna eu concordo , tanto que as temporadas mais memoraveis de senna pra mim foram as na toleman e seu ultimo ano na mclaren justamente na chuva , monaco e donnington park (onde ele passa 6 carros na largada) onde ele demonstrou um titulo que realmente merece de rei da chuva. e nem por isso eu tb nao era fã de piquet, que transformou a bennetton numa equipe de ponta, e foi fiel ao seu amigo moreno, que depois de ser demitido no gp da belgica tb picou a mula em solidariedade. graças a demissao de moreno e a prisao de bertrand gachot sr schumy teve uma oportunidade na F1, enfim...tem isso tb...e se nada disso tivesse acontecido ? talvez o melhor piloto de todos os tempos nem tenha corrido....
(Gravz: Ou teria corrido em outra equipe, né?)

