CONSELHEIROS POPULARES: A GRAÇA E A MAGIA DOS CARECAS QUE VENDEM TÔNICO CAPILAR

13/03/2006

CONSELHEIROS POPULARES: A GRAÇA E A MAGIA DOS CARECAS QUE VENDEM TÔNICO CAPILAR

O povo diz que conselho, se fosse bom, seria vendido. Só essa máxima já mostra o nível da ignorância popular. Afinal, conselho se vende, sim. E bem caro. Não vivem de outra coisa as milionárias e multinacionais companhias de consultoria.

Quanto melhor e mais qualificado um 'conselho', maior seu valor. A idéia da gratuidade é difundida pelo povão porque, como sabemos, os 'conselhos' que circulam por aí são da pior estirpe e, de fato, seria um acinte pagar por isso.

Ainda assim, muitos pagam. Muitos gastam uma grana com videntes em geral, entre outros estelionatos. Pagam caro (diante do que possuem) para saber o futuro sentimental da pessoa amada, entre outras questiúnculas.

Mas verdadeira desmoralização dos 'conselhos', na esfera popular, não se dá somente por meio da constatação da ignorância quase geral quanto à existência de 'conselhos cobrados'. A coisa vai para o vinagre, mesmo, diante da situação muitas vezes ridícula daqueles que se arvoram a aconselhar.

Algumas pessoas estão proibidas de dar determinados conselhos. Não podem, simplesmente não podem, e ponto final. Ninguém deve ouvi-las. Elas podem falar disso, mas não daquilo; ou daquilo, mas não disso.

Explico.

Já notaram o quanto é popular, entre os pobres, o ditado de que 'o dinheiro não traz felicidade'? Como é que alguém, sem dinheiro, pode falar acerca do que ele traz ou deixa de trazer? Simplesmente não podem falar disso. Os pobres estão proibidos, pela lógica e pelos fatos, de falar sobre as conseqüências de se ter muito dinheiro.

Nas telenovelas, os ricos são tristes e são os vilões. Os pobres, nesse mesmo universo, são sempre felizes e são os heróis. Mas a vida real é um pouco diferente, e se pode notar facilmente qual dos dois extremos é mais (ou menos) feliz.

Pobres, portanto, não podem falar sobre dinheiro. Tanto menos de 'muito dinheiro'. É ilógico, inconcebível, inaceitável.

Outra coisa: os mais contundentes conselhos sentimentais são sempre dados por pessoas totalmente fracassadas nesse campo. Garotas que nunca namoraram na vida, curiosamente, têm na ponta da língua a receita do sucesso amoroso para a amiga que está com alguma dúvida. São como empresários falidos ensinando 'vencer na vida'.

Não consigo entender isso. Aquela pessoa que nunca deu certo em namoro algum, que quebra a cara das formas mais estapafúrdias e tragicômicas, ainda assim tem sempre conselhos ótimos para todas as situações.

E há quem ouça levando a sério. Ridículo.

Mas não é somente o submundo dos conselhinhos rastaqüeras que conta com esse tipo de gente. Os jornais, por exemplo, possuem alguns articulistas congêneres.

Delfim Netto, cuja política econômica criou o Milagre Brasileiro (e, mais adiante, o "desmentido de Padre Quevedo", que veio a ser a crise fenomenal em que nos metemos), ainda dá conselhos sobre economia em jornais e revistas. Ele escreve bem, mas deveria gastar a retórica com outros temas. Artes plásticas, quem sabe, mas não economia.

Quem quer apenas alguma opinião sobre determinado tema, invariavelmente acaba recebendo farto e inútil material, produzido por gente de incompetência notória.

Quais os amigos mais destacados na hora de um conselho amoroso? Aqueles que nunca deram certo na vida sentimental. Quais os maiores críticos da fortuna? Os pobres. Quem condena mais veementemente o sexo por puro prazer? Os padres.

Isso me faz lembrar daquele apresentador falecido, o Bolinha (em seu programa havia uma dançarina sempre brava), que vendia um tônico capilar, mas era careca. Ele dizia "sou careca porque gosto". Mas, pelo menos nesse caso, havia certa graça na alegação, seja pelo absurdo do contexto, seja pela figura cômica do apresentador.

Há muito disso no mundo, não é mesmo? Esses carecas que nos vendem tônicos capilares. Eles sabem que são carecas, nós sabemos que são carecas, eles sabem que sabemos, mas mesmo assim tentam empurrar o tal do tônico, nas mais variadas formas e versões.

Só resta mesmo fazer piada disso. Embora a anedota já venha mais ou menos pronta.


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transubstanciado por gravata às 13.03.06 | 1 comentário



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Comentários:


Comentário de: Patroa · http://www.liubliu.blogspot.com

E não é que isso sobre os conselheiros é uma grande verdade? Incrível.

Beijos, meu amor.

(Gravz: Sempre os conselheiros mais exaltados são os que menos podem falar a respeito do que falam. Veja alguns críticos literários... Quanto mais vão ficando bravinhos e elitistas, mais são aqueles que escrevem livros horríveis, sem sucesso algum. Essa amargura se repete nos conselhos sentimentais, dado por quem não tem efetivamente uma vida a dois, e assim por diante)

PermalinkPermalink 14.03.06 @ 14:00



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