SOBRE AS NOTAS DAS ESCOLAS DE SAMBA
01/03/2006
SOBRE AS NOTAS DAS ESCOLAS DE SAMBA
A segunda maior hipocrisia do mundo artístico brasileiro são as notas de escolas de samba. A primeira, claro, é o 'bis' (aquela bobagem do músico voltar e tocar algumas músicas, já de toalhinha, fingindo que o show tinha acabado, mas tudo faz parte da programação normal).
Falemos das escolas de samba, pois.
Essas notas são ridículas, sofríveis. Uma merda, mesmo. Nem falo aqui das sacanagens armadas com esta ou aquela escola, mas sim do esquema em geral. É uma verdadeira piada.
Não são notas de 0 a 10, mas sim de 9 a 10. Ninguém dá menos do que isso, exceto quando há alguma catástrofe. Daí, em vez da escola tirar 5 ou 6, leva no mínimo 8. Nada menos do que isso.
E, convenhamos, para tirar 8 é preciso ter feito uma cagada gigantesca. A Rocinha, neste ano, deixou um buraco no meio da Sapucaí. Sua pior nota, no quesito "evolução", foi 8,5. É esse o espírito da coisa.
Não sei se os jurados têm medo de alguma reação mais violenta por parte das escolas, ou se essa faixa de nota é criada sob a hipótese de que o carnaval é maravilhoso mesmo quando há erros nos desfiles; fica claro, porém, que os critérios são péssimos.
Isso porque, ao final da apuração, com algumas escolas praticamente empatadas na liderança, uma nota 9,5 é considerada um lixo. Não é uma nota simplesmente ruim: é uma bosta. Por quê? Porque equivale a tirar um '5' (pois o universo vai de 9 a 10).
Os jurados são tão caras-de-pau que dão notas do tipo 9,9 / 9,8 / 9,7 para escolas diferentes, como se tal pontuação resultasse de algum cálculo extremamente elaborado. É nada. De fato, houve (respectivamente) notas '9 / 8 / 7' (respeitando-se aquele universo já mencionado).
Nem sei por que alguns dirigentes de escola de samba jogam cadeira em cima dos julgadores, saem no tapa com meia dúzia, entre outras reações pouco amigáveis. A coisa é feita para dar chabu. Não tem como não sair bosta.
Disputas que dependem de 'nota', com critérios não tão objetivos, obviamente dão margem a todo tipo de especulação. Quando se trata de carnaval, aí a coisa se complica mais ainda.
Mas só participa quem quer, então não adianta depois reclamar de marmelada. Claro que é chato, mas carnaval com escolas de samba é algo chato já há décadas, feito para estrangeiros e turistas se esbaldarem. Serve para a Rede Globo, serve de vitrine para moças na avenida (e nos camarotes). E só.
Não que eu seja uma pessoa tradicionalista. Bem ao contrário, odeio tradições que se consolidam simplesmente em razão do tempo. Gosto de coisas que se renovam, que mudam. E o carnaval de escolas de samba faz parte daquela categoria que compreende as telenovelas: "Tradições Que O Povo 'Gosta' Por Falta de Opções e Imposição da Globo".
E a Globo é tão competente em suas imposições que, quando quer variar (como em "Bang Bang"), outra emissora simplesmente a imita (como fez a Record) e ganha audiência. Ninguém manda fazer a cabeça da galera, agora é tarde demais para exigir milagres. O mau gosto já está arraigado.
Nem compensa entrar na crítica estética do carnaval de escolas de samba. É uma porcaria que não presta para nada. Sobreviveu durante décadas às custas de bicheiros, agora sabe-se lá quem paga a festa. Pelo que nos chega, além das vias tortuosas e heterodoxas, há 'investimentos diretos' como o de alguns estados ou prefeituras.
A campeã do Rio, Vila Isabel, recebeu investimento da estatal petrolífera da Venezuela. Emir Sader (o presidente de seu fã-clube é um amigo meu) disse que seria legal a escola ganhar, por conta da 'latinidade' etc. E ganhou. Isso representa alguma tradição carioca? E se a vice-campeã levasse o caneco seria diferente? A vice foi a Grande Rio, escola de playboys, com globais e afins. Pois é, a coisa já era. Faz tempo.
As notas, claro, são uma piada à parte. Um chiste jocoso em meio a esse imenso anedotário. A parte mais autêntica são as emoções (raiva e alegria) da hora da apuração. E hoje em dia nem há mais aquele cara com a voz engraçada, que dizia "Ixtaçáo Primêara dji Manguêaraaa: Déish".
E se você esperava um texto em apoio à Gaviões, dançou. Achei legal a escola ser rebaixada. Corinthiano comemorava título dessa escola de samba, dizendo sempre que seria o 'primeiro do ano'. E agora, comemorarão o quê? O primeiro rebaixamento do ano? Ou o segundo da história da escola?
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transubstanciado por gravata às 01.03.06 | 5 comentários
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Comentários:
(Gravz: Poxa, que pena...
dou um Danette que ano que vem ele tá aí de novo.
(Gravz: Sei não... Ele tá velhinho já)
(Gravz: ricardo, uma história engraçada... João Saldanha, o gênio, falava sobre alguns jogadores de futebol, isso numa entrevista ao Roda-Viva, em 1987. Pelo que lembro, elogiava Mazinho, então revelação no Vasco. Bataglia, do Jornal da Tarde, fez uma ressalva negativa, contestando a observação positiva de Saldanha, ao dizer que Mazinho havia obtido uma nota baixa no jornal. Aí João Saldanha se sai com uma de suas colocações mais geniais - e curiosamente essa nem precisou ser tão prolixa: '-Nota de Jornal? Nota de Jornal? Ah, faça-me o favor!' - quem entende de futebol sabe a profundidade desse desabafo...rs)
(Gravz: Nunca!)
Falei.
(Gravz: De um lado, a patifaria paulistana de imitar o carnaval carioca. De outro, os próprios cariocas - das escolas-de-samba - que vendem a alma para qualquer diabo disposto a comprá-la)
