RELIGIÃO NÃO SE DISCUTE… UH
06/02/2006
RELIGIÃO NÃO SE DISCUTE… UH
Eu acho que nós, ocidentais de formação judaico-cristã, não sabemos aceitar de forma coerente a religiosidade muçulmana. Para nós, eles são os fanáticos, os atrasados, os malucos, os machistas. Nós somos os avançados, temos acesso a uma série de benefícios da tecnologia. Somos os bem-aventurados, os modernos. Eles são os atrasadinhos do mundo.
Não é bem assim. E é ridículo que pessoas minimamente instruídas se prestem a esse tipo de execração religiosa sem pelo menos olhar para o próprio rabo teológico.
Os católicos, por exemplo, comem Jesus. Eles ingerem fisicamente o corpo de Cristo, e além disso fazem questão de dar uma goladinha em seu sangue. Não é uma representação. É Jesus, em carne e sangue (os ossos não fazem parte do menu, talvez por não serem bons para a digestão). É a 'transubstanciação'; não é um simbolismo, mas exatamente o corpo e o sangue de Jesus ingeridos pelos fiéis.
Os judeus, por sua vez, não comem carne de porco, porque é impura. E não cumprimentam mulheres dando-lhes as mãos, porque também são impuras. E acreditam que são o povo escolhido de Deus. Nós, que não somos judeus, não fomos escolhidos por Deus. Então, nós podemos trabalhar ou realizar atividades normais aos sábados. Eles não.
Os espíritas acreditam que as pessoas não morrem tão definitivamente, mas sim passam 'desta para uma outra', de modo que ficam em algum outro lugar remetendo cartas e escrevendo livros. Tudo bem que pagar direitos autorais não é o forte dessa turma. E se você resolve duvidar, principalmente quando é criança, sempre alguém usa a catequese do medo, dizendo que determinado espírito vai puxar seu pé, apagar a luz, ou figuras simpáticas e afáveis como o Exu Caveira ou o Tranca-Rua aparecerão para um papo.
A lista é interminável. As religiões têm sempre fundamentos que, para os outros, são considerados estranhos. Os muçulmanos também são assim. Algumas de suas crenças, obviamente, não fazem o menor sentido para quem não vive na mesma cultura.
Recentemente, um cartunista dinamarquês foi execrado (não sei se chegaram a condená-lo à morte) por fazer charges de Maomé. De fato, condenar à morte eu acho um exagero. Mas eu não sou muçulmano, e não sei qual o grau de ofensa que isso possa significar a eles. Países cristãos, como os EUA, condenam pessoas também à morte. Tudo bem que por motivos muito mais 'graves, mas isso significa que de alguma forma a 'vida' não é uma coisa totalmente absoluta.
E não venham dizer que só condenam à morte quem matou outra pessoa, porque não usam exatamente o Código de Hamurábi (que, vejam vocês, era árabe). Se você for um 'traidor', mesmo sem ninguém morrer com sua 'traição', você pode ser condenado à morte nos EUA.
Cristãos, por exemplo, não gostam muito quando seus símbolos sagrados são postos em situação 'negativa'. Proíbem livros entre os fiéis (como fizeram com 'O Código da Vinci'), ou proíbem filmes usando leis de exceção ('Je Vous Salue Marie' foi proibido no Brasil, pelo literato imortal honesto bonito e fofo José Sarney, apoiado pelo democrático artista Roberto Carlos, que aplicou a Lei da Censura da época do governo militar, que em parte de seu mandato ainda tinha vigência quanto à 'moral' e aos 'bons costumes').
E, sempre que podem, fazem algum tipo de fuá. 'A Última Tentação de Cristo' foi objeto de vários protestos, no Brasil e no mundo. Algumas dessas manifestações não eram simplesmente de quem se indignava com a exibição do filme, mas sim tinham por objeto dificultar ou mesmo proibir o acesso do público aos cinemas; verdadeiros piquetes religiosos.
Os católicos 'não praticantes' acham ridículo o fundamentalismo islâmico. Mas isso porque a Igreja Católica conta com essa variante única de 'fiel', o 'não praticante'. Os católicos não se dividem apenas em conservadores e progressistas; há uma grande maioria, pelo menos aqui no Brasil, que simplesmente não participa dos ritos regulares. Fazem batismo, primeira comunhão e casamento muito mais por satisfação à sociedade do que por devoção religiosa. E ficam só nisso.
Quantos vão à missa semanalmente? E quantos são os que efetivamamente perdoam e amam o próximo (e o distante)? E quem realmente acredita que houve Adão e Eva? Opa! Não entenderam essa do Adão e da Eva? Simples: se você é católico, mas por algum motivo não acredita muito nessa história de Adão e Eva, então é melhor rever seus conceitos. Porque Jesus não é chamado de Salvador porque ter sido simplesmente boa-praça. Ele 'salvou a humanidade' do pecado original.
Sabe quem teve a primazia da pisada no tomate? Ele, nosso amigo Adão, conduzido por sua esposa Eva e a amiguinha-da-onça Serpente. A humanidade vivia em pecado, até que Jesus nos salvou a todos. Ele nos salvou do pecado cometido por Adão e Eva. Então, se você não acredita muito nesse negócio de Jardim do Éden, você também não pode, dentro do cristianismo, acreditar que Jesus seja um Salvador. A menos que tenha todo um edifício teológico (doutrinário e dogmático) próprio, só seu, num misto de autismo com relativismo religioso.
Se você não ama todo mundo, não perdoa ninguém, não freqüenta a igreja, não acredita em Adão e Eva, você não é somente um 'não praticante', mas sim um não cristão. Assim, na boa, é fácil achar que determinados religiosos estão 'errados' em se ofender com algumas ofensas. Como você não é cristão, você naturalmente não se ofende quando fazem troça com o cristianismo ou os símbolos e dogmas de sua suposta fé.
Eu não tenho religião alguma, portanto, não me ofendo com qualquer tipo de insulto religioso. De todo modo, entendo perfeitamente aqueles que se ofendem. Não acho que sejam atrasados por isso, nem acho que sejam menos avançados por alguns hábitos sociais.
Certa vez, um telejornal mostrou o ex-jogador Müller berrando numa igreja evangélica, como se tal catarse significasse um nível de fanatismo totalmente absurdo. Isso é de uma covardia tremenda, pois todas as religiões possuem, em seus ritos, momentos estranhos aos demais. Não custa relembrar o exemplo (já dado neste texto) dos católicos que ingerem Jesus em pessoa. Mas isso ninguém acha um absurdo, pois ao longo dos séculos o canibalismo messiânico foi admitido como normal.
Não só o inferno são os outros, como mesmo o 'céu' dos outros também não é lá essas coisas. Todo religioso, quando morresse, deveria ser levado ao além de outra religião. E nós, os sem religião, não deveríamos morrer nunca. É chato não conseguir acreditar em nada, e ter que sofrer com a verdade da vida. E da morte.
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transubstanciado por gravata às 06.02.06 | 12 comentários
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Comentários:
se hitler tiver se confessado antes de morrer, ele foi pro céu dos católicos.
etc.
acho uma irresponsabilidade criminosa um redator publicar as famigeradas charges: querer discutir liberdade de imprensa com gente desesperada, que está matando e morrendo, é cretinice.
pq afinal de contas, noné o dono do jornal que morre em atentados, que perde negócios, que sofre as conseqüências dessa provocação.
todo mundo sabe que as coisas 'fugiram do controle' ali.
a pergunta que fica é: provocar + atritos para quê?
(Gravz: Sei lá... Eu sinceramente me divido quando à publicação. Mas não acho errado que se ofendam. Parece ambíguo isso que eu falei, mas considero o seguinte: nem tudo que se publica, e se deve ou pode publicar, é feito para agradar a todos; e alguns precisam saber lidar com o que ofende, sem partir para a guerra)
(Gravz: Agradeço o elogio, LK.. Mas.. quais são as palavras alternativas? rs)
(Gravz: Sim, eu soube isso do cineasta. É um caso famoso, e saiu na Veja desta semana, então ficou bem notório. Não dá para compactuar com isso. Nem com as bombas dos cristãos católicos da Irlanda. Ou os cristãos católicos do IRA agem de acordo com o preceito de sua fé? Talvez estejamos cofundindo religião, no geral, com comportamentos extremistas em especial)
(Gravz: Como assim 'vir a público'? O que seria isso? Ir até a Rede Globo, invadir a redação do Jornal Nacional? Bom, assim ele deixaria de ser moderado. Há muitos [mesmo] artigos de muçulmanos 'moderados'. Muitos. Onde você tem procurado coletar as opiniões islâmicas mais moderadas, Matilda?)
(Gravata: Quem não acredita em nada, por óbvio, não acredita que haja uma 'verdade da vida', nesse sentido mais épico, mas sim uma 'verdade' que é composta dos fatos do dia-a-dia, e não das crenças e da ficção em geral)
E os muçulmanos têm todo direito de ficar ofendidos também. Só não dá para aceitar pressões em nome da censura, e ameaças de morte.
Salman Rushdie vive escondido com medo de ser morto. Theo van Gogh foi morto. Ayaan Hirsi Ali, roteirista do filme, está prometida de morte e vive escondida, como Rushdie. Se isso não é barbarismo, não sei o que é.
Claro que esses são os muçulmanos radicais apenas. Mas eles fazem barulho. E matam pessoas. Eu não me incomodo com a cultura e costumes deles, o problema é um punhado de radicais querer ditar como o ocidente deve se comportar, ou até mesmo querer dizimar o ocidente. Aí não há relativismo que salve.
(Gravz: Talvez alguns muçulmanos radicais queiram dizimar o ocidente. Nós, os ocidentais evoluídos, talvez não tenhamos tentado dizimar totalmente o Oriente Médio, mas pelo menos já empreendemos um sem número de ataques [das Cruzadas à recente invasão do Iraque]. Cristãos radicais também matam pessoas. A Ku-Klux-Klan, p.ex., era formada por cristãos. O IRA se diz católico. E assim vamos. Sempre há radicais, em qualquer religião. Quais são os piores? Não sei se é possível responder a isso)
(Gravz: Ops.. nada contra a Globo. Mesmo. Aliás, bem ao contrário de uma turma considerável, eu gosto sim da Globo. Não sou inimigo nem acho que seja a pior emissora do mundo. E, se comparada às concorrentes mais próximas, me parece a melhor opção. Citei a globo como mero exemplo de uma emissora a ser 'invadida' para dar explicações. No mais, talvez a imprensa, aqui no Brasil, não tenha ido atrás dos tais moderados. E quem deu mesmo destaque ao fato foi a Veja. Os demais veículos apenas mencionaram, mostraram uns desenhos, e pronto. Quanto à Veja... Bom, tenho uma ou outra coisinha contra, sim)
Ótimo texto, Gravata!
Abraços.
(Gravz: Jihad??? Não seria Jeha, algo assim?)
(Gravz: Na minha opinião, a melhor é aquela dos mártires chegando ao céu, com Alá [sei lá] dizendo que não havia tantas virgens assim no estoque)
http://www.obusilis.com/arquivos/arq148.htm
(Gravz: Muito boa, né? E bom o texto. Esse negócio do 'adiantamento em vida', das virgens, eu já tinha falado aqui! De fato, não dá para confiar nas setenta só depois de ir pra cucuia)
Bom, não acredito nem na biblia, nem em cristo (ao contrário do que deixei parecer) e, ao contrário de vc, não entendo e nem quero entender nenhum tipo de radicalismo. Seja ele cristão, judeu ou muçulmano.
(Gravz: Valeu pela 'correção', mas nem todos que acreditam no velho testamento são cristãos. Alguns são denominados judeus [aliás, eles que o escreveram], e não têm jesus como messias. Quanto à SUA forma de interpretar a Bíblia, isso diz respeito somente a você. Quando se diz que Jesus salvou a humanidade, pois esta vivia em pecado, não é por outro motivo se não a mancada do Adão. Ele não se sacrificou na cruz para que você deixasse de fazer sua lição de matemática dois mil anos depois, por exemplo)
Valeu!
