SOBRE A CORRIDA DE ONTEM
26/09/2005
SOBRE A CORRIDA DE ONTEM
Neste último domingo (ontem), fui ao Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1. Faz tempo que não vejo uma corrida nem mesmo pela TV, mas não porque o Senna morreu ou algo assim; simplesmente parei mesmo.
Tenho um tio que entende muito disso, o suficiente para desde sempre me explicar - e deixar bem claro - que Piquet sempre foi mais piloto do que Ayrton Senna (não que este último não tenha sido ótimo, mas o primeiro foi excepcional).
Qual motivo me levou à corrida deste domingo? A patroa. Ela é fascinada por Fórmula 1. Já foi a algumas corridas com seu pai (e este, por sua vez, já foi a 13 GPs do Brasil).
Trago a vocês, portanto, comentários sobre fatos desse evento:
Chegada e Saída
Tudo organizadíssimo. Ponto para a Prefeitura. A polícia também estava mais do que presente. Mandou os guardadores de carro para as picas. Toda a região do autódromo estava policiadíssima. Isso é ótimo, mas por outro lado nos leva à seguinte pergunta: se Prefeitura e Estado têm condições de fazer algo tão bem feito, porque só o fazem uma vez por ano? Não se trata de uma pergunta capciosa: é fato. Vocês precisam ver o nível de organização. Foi tudo mesmo perfeito. Não é possível, portanto, que não consigam fazer algo pelo menos medíocre no nosso dia-a-dia. Tudo tem que ser sempre insuficiente, e o pior de tudo é que nos acostumamos com isso porque se trata do Poder Público. Pena.
Setor H
Excelente. Claro que há setores "melhores", como os camarotes e afins, mas para mim já estava de ótimo tamanho. Arquibancadas com carpete, tudo coberto, bem no tal "S do Senna", visão mais do que privilegiada e carros passando na maciota (em vez daquelas arquibancadas descobertas da reta oposta, em que só se pode ver borrões coloridos acompanhados de barulhos ensurdecedores).
Quitutes
Antes de ir, fomos ao mercado e compramos água, bolachinhas e outros acepipes: afinal de contas, chegaríamos às dez da manhã, sendo que a corrida começaria às duas, e nunca se sabe se nesses locais há venda de comidinhas. Pois não havia mesmo lugar algum vendendo lanche: tudo estava incluído no pacote. E tudo muito bom. Vários salgadinhos, docinhos e demais confeitos, além de sucos, toddynho, refrigerante e até cerveja, tudo na faixa.
Cerveja: Ponto Positivo e Negativo
Como dito, a cerveja era gratuita. Muitos podem pensar, de início, que se trata de algo bom. Cerveja à vontade e de graça! Pois é, pois é... Agora, imaginem um monte de homens bebendo, bebendo, bebendo... sem precisar pagar ou se preocupar com o fim da bebida, pois ela é de graça e nunca acaba. Ainda bem que numa corrida - pelo menos no Brasil - não há tanta rivalidade. Já imaginaram a exaltação dos nervos, na hipótese de se distribuir cerveja num Corinthians e Palmeiras?
Mulheres
Boa parte das "gostosas" da Internet (essas de fotolog, blog, orkut etc) são em geral moças tosquinhas que simplesmente aparecem em fotos ousadas e anunciam aos quatro ventos suas intenções. É válido, cada um joga com as armas que tem; ou, como neste caso, compensa diante das que não tem. Havia um grupo de garotas "gostosas" no nosso setor. Na boa, não eram nada disso. Não falo isso para fazer média com a patroa; não temos esse tipo de frescurite. Eram tosquinhas, mesmo. Mas com barriguinha de fora, andar rebolativo, olhar de "sou a estrela" e também as únicas desacompanhadas. Recebiam aplausos, assovios etc. As campeãs mesmo ficam com aqueles guarda-chuvinhas passeando pela pista antes da largada.
Homens
Tem de tudo. Desde aquele mais aristocrata ao assumidamente proletário. Mas na hora de avançar nos quitutes, podem apostar que os mais bem vestidos são imbatíveis. Chegam ao ponto de levar sacolas e as encher de salgadinhos. Triste. Os ricos são ricos e ponto final, os pobres são pobres e ponto final. Aqueles da classe média são os piores, pois posam de ricos mas sabem que mal sobra dinheiro para pagar a prestação do fogão, então o negócio é avançar mesmo nas comidinhas gratuitas e tomar cerveja como se não houvesse amanhã.
Torcedores em Geral
Sim, havia torcida. Muita gente com bonés da Ferrari, muita gente aplaudindo Rubinho (ele fez uma ultrapassagem bem pertinho de nós, houve quem fosse ao delírio). Sempre achei que o público da Fórmula 1 fosse como aquele pessoal dos jogos de tênis, que apenas acompanha tudo e ponto final. Que nada. Além dos aplausos, há também vaias, gritos, urros e até mesmo a tal da "Hola". Sim, faziam a "Hola", com direito a refluxo da maré e tudo mais.
O Efeito Renault
Brasileiro gosta de torcer por conveniência; ou seja, nem mesmo torce, apenas participa da festa da vitória por pura covardia. Por exemplo, nosso negócio é futebol, mas os demais esportes se tornam uma febre à medida que ganhamos alguma medalha ou campeonato. Isso é coisa de quem só torce para quem ganha; prova inequívoca e insofismável da amplitude dessa fraqueza de caráter do povo é o aumento absurdo das torcidas dos times que ganham campeonatos seguidos. Nas corridas, algo parecido aconteceu: muita gente com bonés e camisetas da Renault. Mas, peraí! Não é (óbvio) uma escuderia brasileira. Não há pilotos brasileiros. Por que essa torcida inusitada pela Renault? Eram centenas (mesmo!) com camisetas e bonés! É mais uma vez a falta de caráter dos que se aliam sistematicamente aos vencedores, sem ter identidade alguma com eles. O lado horrível da brasilidade. A covardia, a mais detestável covardia, nossa falta de hombridade para assumir derrotas, e nossa facilidade aderir covardemente aos grupos vitoriosos, tudo isso travestido de "cordialidade" por uns e outros. Que nada, é covardia.
Hino Nacional
O Hino é um símbolo nacional. Nosso Hino tem duas partes. A primeira é a do "Ouviram..." e a segunda é a do "Deitado...". Mas na corrida, como em outros eventos, só cantam a primeira parte. Mutilam o Hino. O que é o Hino Nacional perto do horário da Rede Globo, né? Todos sabem que não gosto de patriotadas, não gosto dos nacionalismos bobos, e por mim a letra do Hino poderia ser outra. Mas, já que querem fazer uma coisa supostamente patriótica e nacionalista (com todos levantando, uns emocionados, cantando em altos brados), que façam pelo menos direito. O Hino pela metade é o mesmo que hastear "meia bandeira". Se você hasteia com o número errado de estrelas, a PM já apreende (sério!). Mas na hora do Hino a turma finge que não percebeu.
Então
Só fiz comentários ranzinzas, né? Mas eu sou assim, o blog é assim etc. A corrida, em si, foi maravilhosa. Recomendo a quem nunca foi, que pelo menos uma vez na vida conheça esse negócio. É muito emocionante. Muito mesmo. E, como visto, há muito do que rir também por ali.
Adendo Musical
Em pleno circo da F1, aquela reunião burguesa, The Clash propagava seu som para os presentes. Engraçado.
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