IMBECILIDADES EM DEBATE: A METODOLOGIA CIENTÍFICA A SERVIÇO DO ESOTERISMO ou DE COMO DETURPAR O MÉTODO CIENTÍFICO DE OBSERVAÇÃO PARA USAR SEMPRE A MESMA CUECA

06/09/2005

IMBECILIDADES EM DEBATE: A METODOLOGIA CIENTÍFICA A SERVIÇO DO ESOTERISMO ou DE COMO DETURPAR O MÉTODO CIENTÍFICO DE OBSERVAÇÃO PARA USAR SEMPRE A MESMA CUECA

Uau! Que título grande... Mas então... Sabemos bem que a moçada tem uma dificuldade imensa para pensar.

Não que sejam todos debilóides, mas quase todos são quase isso. Vejamos o caso das "coincidências" que são tratadas como "causa".

Por incrível que pareça, boa parte das crendices esotéricas não nascem simplesmente da "fé". Não se trata daquele fenômeno transcendental de "acreditar por acreditar", sem ligar para os procedimentos científicos.

Nada disso.

A grande maioria das baboseiras esotéricas são oriundas do "raciocínio". Mas como? Simples: não sabem pensar, então fazem a maior bagunça de modo a supor que determinadas coisas sejam a causa de outras.

Antes de prosseguir, vejamos três elementos muito distintos, mas que são toda hora confundidos pela mocidade independente: 'Coincidência', 'Correlação' e 'Causa e Efeito'.

Para não perder tempo com os conceitos, passarei um exemplo com os três fatores:

"João e José assistem ao jogo da Seleção Brasileira de Futebol. O jogo termina em dois a zero para o Brasil. Está chovendo. O jogo é à noite, no meio do mês de março. João se sentou no lado esquerdo do sofá, e José no direito, durante todo o jogo. O Brasil jogou com dois bons atacantes."

Coincidência: local onde João e José se sentaram.
Não influi no resultado.

Correlações: Horário, data do jogo e chuva.
As "correlações", claro, só podem ser assim denominadas quando se analisam vários outros casos e elas tornam a aparecer. É preciso muito, mas muito cuidado mesmo, para saber se influem mesmo no resultado, ou se são somente fatores que se repetem. Ou, ainda, caso influam, se a influência é positiva ou negativa.

Causa: dois bons atacantes.
Influi no resultado, positiva ou negativamente (neste caso, positivamente).

É extremamente complicado saber o que exatamente é a "causa" de algo, bem como saber quais fatores correlatos não se inserem nesse grupo.

Mas é pra lá de simplório saber o que efetivamente foi "coincidência". De todo modo, acreditem ou não (claro que acreditam, porque se não fizeram isso já devem ter cansado de ver), AS PESSOAS INSISTEM NOS FATORES COINCIDENTES (sem qualquer relação de causa) SIMPLESMENTE PORQUE (elas acreditam) ELES "DÃO SORTE".

Isso não é somente uma idiotice. É uma "idiotice sub-raciocinada".

Se "João" e "José" acham que o lugar dá sorte, é porque observaram a repetição desse fator. Esse é um procedimento científico; nesse caso, pra lá de deturpado. Então, ambos já sabem onde se sentar em todos os futuros jogos da seleção. E se por acaso, justo quando isso não for possível, o Brasil perder... Aí sim é que se criou u ma regra para todo o sempre.

Os idiotas usam, portanto, uma metodologia pseudo-científica para justificar a imbecilidade. Ela é, querendo ou não, fruto do "raciocínio".

Quanto aos fatores correlacionados, eles podem ou não exercer influência no resultado. O horário do jogo pode ou não fazer efeito. Bem como a data. De repente, algum jogador se cansaria durante o dia, ou então dependendo da época do ano um determinado craque não estaria confundido.

A presença de dois bons atacantes, de todo modo, é algo que indiscutivelmente interfere no resultado. Talvez com outros craques seria ainda um resultado maior, que seja, mas mesmo negativamente os tais "dois craques" influem.

A essa altura, vocês podem estar pensando que só falei obviedades. É verdade. Mas é estarrecedor o fato de que tais obviedades são desprezadas no dia-a-dia.

Vocês têm idéia do número de "simpatias" e mandingas em geral decorrentes desse tipo de prática? Já pararam para pensar, por exemplo, no número de pessoas que usam as mesmas peças de roupa, em alguns eventos, "porque deram sorte"?

Isso, em parte, é resultado da total falta de autoconfiança das pessoas. E também da necessidade de submissão. De um lado, não se acham assim tão bons para atingirem certos resultados apenas pelo próprio talento; de outro, acham perigosa a "prepotência" de se sentir "o bom", então dividem os méritos com, sei lá, um par de meias azuis.

Claro, pode-se interpretar pelo outro extremo da falta de autoconfiança: excesso de prepotência. A pessoa se acha tão boa, mas tão boa, que quando algo dá errado só pode ser culpa da cor da roupa, ou do perfume, ou do cabelo, de modo que JAMAIS repetirá algum desses fatores.

De um jeito ou de outro, porém, o início de tudo é a metodologia científica empregada de forma estúpida.

Como visto, é coisa de idiota.

Repetição de Coincidências e Fatores Correlatos em Geral
Mas o que mata, mesmo, é quando despejam milhares de estatísticas com infinitos fatores, todos misturados. Poucas análises separam o que é efetivamente uma relação "causa/efeito" daquilo que é meramente "coincidência".

Voltando ao futebol (baixou o Lula, aqui)... Se o Time "A" ganhou do time "B" mais partidas à noite, pode-se dizer que ele seja "melhor jogando à noite"? Isso seria uma coincidência, ou um fator que apenas diz respeito ao passado? Ou até mesmo, naquelas ocasiões, se não fosse à noite, poderia golear ainda mais, pois o adversário se cansaria com mais facilidade?

Imaginemos uma situação bem extrema: o time "A" sempre ganha jogando à noite contra o time "B". Então, quando voltarem a se enfrentar num jogo noturno, é vitória garantida?

Praticamente todas as "estatísticas futebolísticas" são inúteis em análises futuras. Isso porque "cada jogo é um jogo", e esse raciocínio também vale para praticamente todos os momentos em todos os campos da vida.

A presença de três atacantes pode garantir uma goleada, mas o mesmo esquema, contra um adversário mais ofensivo, pode significar uma fragorosa derrota em razão do enfraquecimento da própria defesa.

Isso nos leva à conclusão de que mesmo fatores de inequívoca relação "causa/efeito" podem também servir para o resultado oposto em outra circunstância; ou seja, são geralmente aplicáveis somente a determinado caso concreto, não valendo como regra universal.

Então, meus amigos, se nem mesmo os fatores que realmente importam podem ser repetidos com segurança, por que cargas d'água, senão por idiotice, as pessoas repetem elementos de pura e simples coincidência?


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transubstanciado por gravata às 06.09.05 | 2 comentários



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Comentários:


Comentário de: Trotta · http://claquette.blogspot.com/

Ah, vai! Crendices e superstições são tão divertidas! Não estrague tentando racionalizar em cima delas.

Eu que não abro mão da minha cueca vermelha pra passar o Reveillon. Vc devia experimentar (a superstição, não minha cueca)! :)

(Gravz: a questão é exatamente essa... Não sou eu que 'racionalizo', mas sim a própria superstição - nesse caso - nasce de um raciocínio - pra lá de primário, mas raciocínio. É um procedimento de observação que poderia até ser denominado 'científico', mas nesse caso é deturpação.)

PermalinkPermalink 08.09.05 @ 10:51



Comentário de: Vitao

Gravz, seguindo sua linha de raciocício, então também seria imbessilidade repetir o jogo da mega toda semana?!?!?!?!?
Já sei, já sei, vc vai dizer que são coisas diferentes....
abraços

(Gravz: sim, são coisas diferentes... a Mega Sena é um JOGO, e não um investimento. Recomendo, a quem queira ganhar, que jogue muitas e muitas vezes; a chance de galhar obviamente aumenta, além de haver aquela prazerzinho (quem joga tem, eu não tenho) de sempre torcer etc e tal)

PermalinkPermalink 14.09.05 @ 12:17



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