SOBRE OS TROTES E SOBRE COMO EVITÁ-LOS
15/02/2005
SOBRE OS TROTES E SOBRE COMO EVITÁ-LOS
Nunca levei nem dei trote. Por mais que eu seja uma criança para muitas coisas, para outras acho que sou adulto até demais. Sempre achei trote uma patifaria, nunca vi a mínima graça. Quando muito, valia para dar o golpe da caloura, mas levando em conta que a partir do segundo ano eu já namorava sério, e que no quarto isso não tinha mais graça, não cheguei a dar tais golpes.
Quando entrei na USP (sou chique), o trote era uma coisa super saudável e cívica, tinha umas brincadeiras interessantes, entravam em sala para divulgar atividades sociais do CA. Ou seja, uma merda. Chato demais.
No Mack, era borocoxô, mesmo. Tinha o pessoal da Engenharia, que era bom evitar, e de resto não tinha muito trololó não. Só levava quem queria, e sempre há uma meia dúzia de excluídos que vêem na Faculdade a grande e única chance de: a) fazer amigos; b) aprontar; c) ter contato físico com alguém do sexo feminino que não seja da família.
Para homem, levar trote é ingrato. Não existe veterana que chega querendo transar. Existe é veterano querendo descarregar no calouro a mesma coisa que recebeu. Mas o calouro, levando pescotapas ou passando algum vexame, repara que alguns outros veteranos estão mandando ver na calourada feminina. Isso já lhes dá boas idéias para o ano seguinte.
E então, na sua vez de se vingar, lá está o ex-calouro falando grosso, ou então falando manso até demais, para descontar os petelecos ou faturar alguma caloura. Quanto à segunda hipótese, justíssimo. Não comentarei a primeira para não colocar agora dúvidas sexuais na cabeça de quem eventualmente já esteja resolvido com sua enrustividade.
Lembro de quando estava ainda no colégio, e falavam sobre o trote. Contavam histórias engraçadíssimas, algumas violentas, outras até picantes, a maioria com a seguinte conclusão: ou você deixa, ou então ninguém fala com você o resto do curso. Cascata da braba.
Mais ou menos o tipo de mentira que contam sobre o alistamento militar. Histórias bizarras, de gente que comeu o pão que o diabo amassou na hora de se apresentar ao Exército. Tudo lorota. Só tem algum tipo de coisa mais pesada quando algum idiota se mete a besta de ser o gostosão. De resto, nada vezes nada.
Também é engraçado quando reputam ao trote a idéia de que passando por ele se faz amigos. Bom, é verdade, mas também se faz amigos papeando no elevador, ou numa fila de banco. Alguns fazem amigos conversando, outros preferem servir de saco de pancadas. Vai de gosto, e de vocação.
Já tive a curiosidade de reparar nas "turminhas de trote", aqueles "veteraninhos de segundo ano" que já se consideram casca-grossa e vão pra cima da calourada. O tempo passa, o tempo passa, e lá na formatura eles são aquele grupo que imita barulho de peido com a boca, na hora da foto.
Depois desse "texto curtinho", mando algumas dicas para quem quer evitar o trote:
Nada de Faculdade
Tem muita gente que começa 30 faculdades e não se forma em nenhuma. Imagine-se como integrante desse grupo e faça um favor a si mesmo: nem entre na Facul. Olha que prático! Você evita não somente os trotes, mas também aquela gentarada da família que enche o saco cada vez que desencana de um curso.
Carteirinhas de Outros Cursos
Alguns escapam do trote porque já se formaram em outros cursos, ou fazem outra Faculdade. Que tal mentir? Só evite aparecer com carteirinha da "Faculdade de Moda" ou então de algum curso pra lá de alternativo. Vai apanhar mais. Também não exagera e, com seus 17 aninhos, apareça com carteirinha de formado em algum curso militar de terceiro grau.
Camisetas Assustadoras
Como quem não quer nada, você pode aparecer com camisetinhas que são verdadeiras mensagens semióticas. Aquelas de Jiu-Jitsu são sempre uma boa pedida, mas você corre o risco de ser argüido por algum lutador DE VERDADE, e aí vai ficar pequeno pro seu lado. Uma com as iniciais PCC é mais recomendável (desde que não tenha o infortúnio de cruzar com alguém de quadrilha rival).
Autotrote
Raspe seu próprio cabelo, pinte-se com várias canetas e pincéis, quebre dois ovos na própria cabeça e vá assim para a faculdade. Pode apostar que ninguém vai te fazer nada, até porque tudo já está feito. Sempre que alguém te perguntar quem foi o autor do estrago, diga apenas que foi um grandão com dois gordinhos.
Boato de Doença
Apareça com uma cara doente, e espalhe que precisa fazer logo a matrícula (ou entrar na sala, se for trote do primeiro dia), porque tem que retornar para casa a fim de tomar sua medicação. Deixe claro que é uma coisa bem rara. Ninguém vai te dar trote, e se o boato chegar aos professores vai ser moleza conseguir faltar levando presença em várias matérias. Mas esqueça sexo com as meninas da Facul.
Chegando Acompanhado
Há duas alternativas. Você pode chegar com meia dúzia de caras truculentos, ou como se fossem amigos ou seguranças particulares. Tanto faz. Ninguém vai relar a mão, é verdade, mas quando a galerinha não vier mais, já sabe, é tapão do forte na sua testa. Por outro lado, você pode aparecer com um monte de mulher. Pode ser que consiga convencer os veteranos de que é melhor ser seu amigo do que o contrário.
Truques Manjados: Evite
Não pense que esse negócio de evitar trote por meio de subterfúgios é coisa de agora, não. Isso é das antigas. Assim, há algumas táticas que já estão pra lá de batidas. Evite-as. Segue uma pequena lista:
- Dizer que é também veterano na mesma Facul;
(eles sabem quem é e quem não é)
- Não podem cortar seu cabelo porque você trabalha;
(sim, vai comovê-los... uh)
- Você é amigo de outros veteranos;
(e cadê seu amigo?)
- Você não é aluno;
(e é quem? o entregador de pizza sem pizza?)
- Fantasias em geral.
(sem maiores comentos)
Tem também o Ostrogodo, que falou assim: "eu não vou levar trote e quero ver quem vai dar". Se tentarem isso, contem depois o que houve.
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transubstanciado por gravata às 15.02.05 | Alguém?
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