E DÁ-LHE ANOS OITENTA…
07/01/2005
E DÁ-LHE ANOS OITENTA…
Lembro perfeitamente de, em meados da década de noventa, ter ouvido de várias pessoas, e em várias ocasiões, que a década anterior fora “perdida”. Diziam e repetiam que nos anos 80 nada de muito útil foi produzido no campo da cultura. Aliás, em campo algum.
Em 2001/2002, lembro obviamente melhor ainda, qualquer coisa que remetesse à outrora “década perdida” era imediatamente cultuada. Tem sido assim até hoje.
Vamo que vamo.
Fator Temporal
A coisa mais normal do mundo é tratar como porcaria aquilo que foi produzido recentemente, mas já superado. Vejam os anos noventa: ainda são lixo, são década perdida etc etc etc. Aguardem a partir de 2011, e a ‘garotada descolada’ então com 19/20 anos vai venerar tudo que esteve entre New Kids e Backstreet Boys. Imitarão Britney de forma caricata.
Quanto à música brazuca, da lambada ao ‘axé/tcham’, todos serão tratados como deuses. Haverá shows de Carla Perez, já com uma certa idade, bem como duplas sertanejas emergirão do limbo.
Impossível? Então voltem no tempo e digam a algum modernoso alternativo, em 1995, que dali a oito anos haverá uma fila quilométrica para um show da Rosana.
Tudo que é da década imediatamente anterior não é suficientemente novo pra ser chamado de novidade, nem velho o bastante para despertar nossa memória afetiva. Assim, tratamos como algo que sempre foi: uma bela porcaria.
E, quando é algo bom, porque obviamente houve muita coisa boa nos anos 80, não é preciso esperar duas décadas para trazer à tona; simplesmente não sai de evidência. Entre milhares de exemplos, fiquemos com U2 e Paralamas do Sucesso.
Memória Afetiva da Infância
Quando sentimos o peso da jaca da maturidade, nada melhor do que voltar à infância. É o que faz a grande maioria dos que curtem a moda oitentista. Dessa maioria, os mais velhos têm no máximo 30 anos. Mas o grosso mesmo tem 24, 25. Sem contar a galerinha que nasceu em 1985, 86 ou até depois. Sem comentários.
Os que efetivamente PARTICIPARAM da década, ou seja, que tinham pelo menos 18 anos em 1985, hoje têm 38 anos. E têm mais o que fazer.
Claro que essa turma do revival conta com verdadeiros prodígios, uma molecadinha que com seis, sete anos, já se ‘lembra’ do início do New Wave, bem como de vários lançamentos. Pura bobagem.
Viam o irmão ou o primo mais velho usando calça quadriculada, ouviam Michael Jackson por tabela na vitrola, e assim por diante.
Do que eles se lembram de verdade? Músicas e especiais infantis. Bingo.
Fora da época
Há uma outra coisa engraçada, prova cabal do fato de que os grandes apreciadores dos anos oitenta são aqueles que, em tal década, eram criancinhas. Vejam.
O que têm em comum Trapalhões, Chaves, Ultraman, Spectreman, Hanna Barbera, Pica-Pau, Os Saltimbancos, entre outros?
Simples: SÃO ANTERIORES À DÉCADA DE OITENTA.
Não por isso que sejam ruins. Eu mesmo adoro tudo isso. De todo modo, são coisas associadas à infância de quem ERA CRIANÇA NA DÉCADA DE OITENTA.
Conclusão
Não temos saudade das coisas dos anos oitenta pelo que elas são, ou foram, mas sim porque naquela época éramos crianças. É pura e simples memória afetiva de todo o contexto, que se torna mais viva quando as coisas daquele tempo nos são reapresentadas.
E é nesse sentido que surgem as festas e mais festas, cujo único objetivo é divertir. E isso fazem com perfeição. Odeio baladas, mas sou obrigado a dizer que uma exceção é a Trash 80’s, por ser um ambiente de pura e simples alegria. Muito legal mesmo.
A punheta começa quando alguns (graças ao Criador, minoria) começam a evocar as coisas dos anos 80 como se fossem ‘bem feitas, mas esquecidas pelo tempo’. Não, meus caros, a grande maioria do que se fez nessa época não era legal. Tanto que não ficou. O tempo é sábio, irmãozinhos, e quase sempre o que fica para trás é porque deveria ter mesmo ficado.
Como convencer um molequinho de agora, por exemplo, que Atari é legal? Como ele vai gostar de saber que o quadradinho menor é a bola e o retângulo a raquete? Os videogames de hoje são maravilhosos, com cores e sons perfeitos, imagens impecáveis.
E o futebol???? Precisa de muita lábia para fazer algum rapazinho acreditar que em 1982 tínhamos o melhor time do planeta (e tínhamos mesmo, embora o salto fosse alto), sendo que tal petiz já viu a seleção ganhar duas copas e ser vice em outra.
Cinema nacional? Outro que dispensa comentos. Chanchadas babacas ou filmes chatonildos, nada além. Hoje, é possível ir ao cinema, ver um filme brasileiro e, PASMEM!, encontrar uma história legal. Não tivemos esse luxo na década de 80.
Era muito legal ir à locadora, voltar com um tijolo para casa, ver o filme cheio de chuvisco na tela, e devolver no dia seguinte. Mas o DVD é bem melhor, não? O mesmo quanto à troca do vinil pro CD.
Pesquisas no colégio eram super batutas. Ou rolava na casa de algum camarada que tinha Barsa, Mirador, Conhecer etc, ou então era na biblioteca do colégio, com direito a tirar xerox e escrever o trabalho em folha de almaço, colando a figura. Quem disser que o Google e a impressora não ajudam um bocado, é um palerma.
Dizem, aliás, que isso pode tornar as crianças mais burras. Será? Poucos são os amigos meus, daquela época, que desenvolvem qualquer assunto filosófico ou cultural geral. Aliás, amigos ou inimigos. O nível sempre foi baixo. Panacas são panacas com ou sem Google.
Bibliografia
Não, não é bibliografia deste texto. Tudo aqui é bobagem sem responsabilidade alguma. Quero indicar livros pros que gostam dos anos 80. Já que é para falar do assunto, que seja com especialistas.
O primeiro, restrito à música nacional, é o “Dias de Luta”, de Ricardo Alexandre. O outro, que trata da cultura geral da década aqui no Brasil, é o “Quem tem um sonho não dança”, de Guilherme Bryan.
No mais, é isso aí.
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transubstanciado por gravata às 07.01.05 | Alguém?
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