ENTREVISTA COM PAPAI NOEL

30/12/2004

ENTREVISTA COM PAPAI NOEL

Depois de mais uma temporada de presentes, Papai Noel nos recebeu em sua casa de praia. Embora viva parte do ano na Lapônia, é normal passar um período no litoral brasileiro, geralmente do dia 27 de dezembro ao final de fevereiro.


A única condição da entrevista foi não revelar seu endereço brasileiro, por motivos óbvios. Medo da criançada? Não, nada disso, seqüestro mesmo. Desse modo, prefere continuar sendo chamado de Sivuca ou Hermeto Paschoal. E ele brinca: “quando falam que sou um, digo que sou o outro e, por se tratar de uma confusão normal aqui no Brasil, todos entendem”.


Tudo transcorreu muito bem, e não houve resposta evasiva, com exceção talvez daquela da primeira pergunta. Ao final, curiosamente, ele já se preparava para nos dar um punhado de balinha barata. “É a força do hábito”, disse.


Vamos à entrevista:


Gravataí Merengue: Você Existe?
Papai Noel: O que é a existência para você? O que é a essência? Pensa, logo existe? Existe, logo pensa? Ahá! Papai Noel é cultura, amigão! Segura essa!


GM: Por que você... Bom, antes de tudo, posso chamá-lo de ‘você’?

PN: Sim, claro. Depende do presente que eu entrego, chamam-me até de Filho da Puta. E fica bem pior quando não entrego presente.


GM: A pergunta era nesse sentido. Por que você entrega presentes ruins para os pobres, e ótimos para os ricos? Não deveria ser o contrário? Porque um pai rico pode compensar comprando do próprio bolso, mas o pai pobre só tem essa oportunidade de ver seu pequerrucho com um brinquedão caro.
PN: É um pensamento pedestre, meu filho. Imaginem o filho do pai pobre ganhando, vamos lá, um brinquedo de mil dólares. Como fica depois esse pai no dia das crianças, no aniversário e outras efemérides? Ele não vai poder manter o nível, entende? Fora, claro, os problemas com o fisco. Como explicar presentes caros sem uma renda compatível? A Receita Federal cai matando. O mesmo problema, claro, não ocorre com os pais ricos.


GM: Mas há pais ricos que não declaram a riqueza à Receita, e mesmo assim você dá presentes caros aos filhos...

PN: Eu sou o bom velhinho, não o bom dedo-duro. Não gosto de cagüetar ninguém. Eu dou presente. A Receita que fique ligeira e repare no que andam ganhando os rapagotes para depois perguntar para o pai cadê a compatibilidade.


GM: É verdade que você passou a usar a roupa vermelha depois de uma propaganda da Coca-Cola?
PN: Sim, evidente. Isso é fato público. Qual o problema em ser patrocinado? Acha fácil manter esse ritmo? Essa humanidade não sabe procriar, ela prolifera. Parecem uns insetos. Neste ano mesmo, veja você, contratei mais de noventa mil duendes como TEMPORÁRIOS. Sabe o que é isso? Temporários! Fora os que já mantenho na minha fábrica.


GM: Você usa poluentes na fabricação dos brinquedos?

PN: Se você me ensinar um outro jeito de fazer os tantos brinquedos idiotas que me pedem, farei com o maior gosto. Como disse, sou o Papai Noel, não um ativista do Greenpeace.


GM: E os direitos trabalhistas dos duendes?
PN: Não existem. Primeiro porque não há Direito do Trabalho na Lapônia. Em segundo lugar, toda norma trabalhista volta-se à proteção dos HUMANOS. Duendes não são humanos.


GM: Mas recentemente houve uma greve...

PN: Sim, mas ela foi furada por uma leva de imigrantes de Governador Valadares e da Bolívia. Nunca deixei de dar presentes por isso, aí os duendes voltaram e ficaram na maciota, porque eu sou aquele que presenteia a molecada, e não um devoto de duendes. Aliás, no meu trenó há o adesivo “Eu Atropelo Duendes”, mas é só de sacanagem.


GM: Por que passa pela chaminé?
PN: Pois é, tentei debaixo da porta e não consegui.


GM: Tentou entrar num envelope e aí passar?

PN: A primeira vez que ouvi essa piada estava entregando o presente do décimo primeiro natal da Dercy Gonçalves.


GM: E qual era o presente?
PN: Uma tartaruga. Mas ela não quis. Disse que tinha medo de se apegar, daí o bichinho morrer logo.


GM: Uau! Essa sim é nova! Você é católico?

PN: Eu não. Gosto de criancinha, mas não tanto quanto um padre! (gargalhadas gerais) Não tenho nada a ver com igreja alguma, sou o que eles chamam de símbolo pagão. Mas também ninguém quer nada com nada, né? Católico é o único no mundo que tem mais não praticante que o contrário...


GM: E por que te chamam de Santa por aí? Não pega mal?
PN: Pega mal pra caralho, mas fazer o quê. Apelido é assim mesmo, eles colocam e depois não tem como chorar. Vai levando.


GM: Você gostou quando apareceram na TV fazendo o diabo para provar que você não existe? (no programa Pânico)

PN: Eu existo. Ao mesmo tempo bebo, fumo, saio com a mulherada, freqüento inferninhos etc etc etc. Ou seja, eu EXISTO.


GM: E a Mamãe Noel?
PN: Que mamãe, rapa! Acorda pra cuspir! Só tem gatinha novinha! Sou macaco velho! Já viu nos Shoppings? Tudo novinha, filé... Dezoito aninhos, já to mandando brasa. Sobrinha-neta Noel seria mais adequado.


GM: Para finalizar, tem algum recado pra criançada?

PN: Tenho nada. Quer dizer, tenho sim... Alguns recados, vamos lá: a) não mandem cartas longas, é inútil. Apenas digam o presente e fim de papo, chega de hipocrisia; b) peçam coisas de plástico ou alumínio, porque presentinho de ferro, chumbo etc, na boa, é o cu da cobra; c) se fizer xixi no meu colo eu não dou presente e coloco purgante na balinha para depois você fazer cocô no colo da mamãe.


Notinha: OBVIAMENTE vários humoristas, programas, sites, blogs etc etc etc já ‘entrevistaram’ ou fizeram ‘reportagens’ com o papai noel. Desse modo, é simplesmente IMPOSSÍVEL dar todas as ‘fontes’ dessa idéia. Eu digo que não de minha autoria, coisa que quase todos os demais não fizeram. A quem mantenha protesto, recomendo o plantio de tubérculos.


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transubstanciado por gravata às 30.12.04 | Alguém?



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