BAGDÁ
21/08/2004
BAGDÁ
A todo minuto passa um carro de som cantando que "Salvador é César". Não agüento mais. Dizem que esse ritmo é "ritmo de arrocha". Porque a música parece com aquelas outras músicas de uma tal Nara Costa. Arrocha é uma palavra usada no refrão de sua música mais famosa, e então passaram a chamar de "arrocha" todas as músicas que imitam o ritmo. As pessoas não têm criatividade para criar um ritmo, tanto menos teriam para criar um nome de ritmo. O "César" da música que se repete sem parar é o candidato a Prefeito apoiado por ACM. Peguei estrada para a praia, hoje, e vi em duas cidades candidatos apoiados por ele. Em todas as fotos, seja aqui em Salvador ou nas outras duas cidades, há a mesma imagem de ACM no outdoor. Camisa vermelha, todo sorridente. Em alguns anúncios seu neto também aparece, para dar aquela força a um ou outro candidato a vereador. Várias personalidades aparecem na propaganda eleitoral de César, aquele que é Salvador e cuja música não pára de tocar. Gal Costa, por exemplo, surge na televisão abraçando o canditato. Zélia Gattai também. Eu acho que eles se merecem. Entre a atual voz da Gal Costa e qualquer libreto da Zélia Gattai, sou mais letra e música da marchinha em ritmo de Arrocha do "Salvador é César". Fidel Castro surge da mesma forma que Gal e Zélia, abraçando César. Nos outdoors a cabeça do candidato aparece cortada para esconder sua calvície. É um truque velho da fotografia política. A primeira vez que vi essa jogada foi com Marcos Cintra; como só o via nessas imagens, levei um susto ao vê-lo na televisão, mostrando uma testa que ia até a nuca. Mas Marcos Cintra aparecia sozinho, sobre um slogan que tratava de sua idéia de imposto único. César não. César aparece com o povo, pulando, sorrindo. Seu slogan é algo que diz sobre saber fazer, fazer, e depois mostra obras. Não deixa de ser uma boa tática. Ele é apoiado pelo atual Prefeito. Um taxista, ao me levar da Boca do Rio para o Campo Grande, perguntou se eu preferia ir pela orla ou por dentro. Por ser um caminho mais rápido, preferi por dentro, e então no caminho ele me disse que a EMTURSA, órgão municipal, recomendava que se fosse pela orla, para mostrar ao turista as coisas boas da cidade. Além da orla há uma pobreza terrível. Eu trabalho com mais 17 advogados, e a maioria não é daqui de Salvador. Mas meu melhor amigo do trabalho é; e não se parece em nada com a idéia que fazemos do soteropolitano. Fazemos uma idéia errada, em todos os sentidos, de todas as pessoas de todos os lugares. Como a que aqui se faz dos paulistanos. Isso é culpa desses órgãos públicos, como a EMTURSA, que transformam pessoas em figurantes de comercial de festa. As emissoras de TV dão força para os estereótipos, mas o sotaque de Suzana Vieira vai além de todos os limites. Há um candidato que ficou quieto no horário eleitoral. Não falou nada. No fim do programa, virou-se de costas. Dizem que numa outra eleição ele não apareceu, apenas ficava como o "Sombra", aquele do Ratinho, mas seu nome é "Da Luz". O canditato que lidera as pesquisas faz um discurso sabonete, dizendo que quer a paz. Seu vice renunciou depois de umas acusações gravíssimas. O canditato, então, alegou que não conhecia o vice. Por incrível que pareça. E o candidato do PT, que não tem mínima chance de ganhar, até agora não fez um discurso emblemático como os que sempre marcaram o partido. Faz sentido. O PT não tem mais emblema. Há uma candidata que já foi prefeita, e é de partido esquerdista, mas faz uma campanha no estilo de Paulo Maluf, explorando falha de saúde pública na atual gestão, dizendo que em seu tempo a raiva foi erradicada. Isso porque aqui houve, bem recentemente, dois casos de raiva humana. E a raiva humana não tem cura. Eu fiquei com medo de levar mordida de cachorro, e acho que mais gente ficou. Ela faz a tal campanha e atinge em cheio gente medrosa como eu. Aqui continua tendo o pior atendimento do mundo no comércio. Os comerciários da Inglaterra são secos, náo abrem um sorriso, mas cumprem pelo menos com os deveres. E olha que lidei com os de Portsmouth, que ainda por cima é cidade portuária. Não há nem isso por aqui. A queixa não é só minha, pois todos meus amigos daqui também falam a mesma coisa. Mas ninguém reclama, eu presumo, porque o péssimo hábito se mantém. Talvez isso tenha sido sorte, mas gostaria de registrar que meus amigos daqui têm um papo mais politizado e intelectual do que os de Sampa. Mesmo os colegas mais avoados lá do trabalho conversam sobre filmes e música num nível elevadíssimo. Eu gosto disso. Hoje eu paguei dez reais de pedágio para conhecer uma praia que fica a menos de cem quilômetros da minha cidade. Aqui é o Iraque. Há um líder que manda e desmanda, sua imagem está em todos os pontos da cidade, e o nome de sua família consta de praticamente todas as grandes avenidas. Ele é adorado por uma grande parcela da população, mas esse sentimento é associado a um pouco de medo. As pessoas poderosas o temem e a ele devem reverência. Ele apóia César, aquele da música que toca o dia inteiro.
Eu só espero que Salvador se mostre bem maior que César.
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transubstanciado por gravata às 21.08.04 | Alguém?
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