SOBRE O MESTRE CAETANO VELOSO E SEU NOVO DISCO
22/04/2004
SOBRE O MESTRE CAETANO VELOSO E SEU NOVO DISCO
Introdução (aaaiiiiiiii!)
Meus amigos e alguns inimigos sabem que sou fã de Caetano Veloso. Não qualquer fã, mas sim uma pessoa que conhece profundamente a obra do compositor. Desde o assovio composto antes de todas as outras músicas, mas que só foi gravado no interlúdio de “Livros” a “Clever Boys Samba”. Da Tropicália ao show com Chico Buarque, das participações de gênios desconhecidos como Tomás Improta à provocação de Odara.
Do Chacrinha como convidado de honra em uma noite especial do ano de 1968 ao slogan “Seja Marginal, Seja Herói”. Da platéia de esquerda que não entendia nada ao conservadorismo truculento de direita do delator Randall Juliano.
Do disco Transa ao disco Transa. Do Cinema Olympia ao Electric Cinema. E do Electric Cinema ao Cinema Olympia.
Do Manifesto Jóia e do Manifesto Qualquer Coisa ao texto que ninguém lê no verso da capa de Tropicália II. Das fotos da capa de Jóia e Araçá Azul às fotos de “Un Caballero de Fina Estampa”. Da parceria com Odair José em 1973 à gravação do Funk do Tapinha.
Das músicas “Gravidade”, “Aracaju”, “Two Naira Fifty Kobo” às músicas “A Voz do Vivo”, “O Conteúdo” e “Santa Clara, Padroeira da Televisão”.
Da moda de se adorar Caetano Veloso à moda de odiá-lo. Da moda de odiar à de adorar e assim por diante.
Se existe uma regra na carreira de Caetano Veloso ela é a seguinte: não há regra alguma. Muitas vezes, talvez por pura provocação adolescente, ele faz exatamente o contrário daquilo que dele esperam.
Noutras, para surpreender os que o jogavam na vala grande, ele surge com alguma idéia mirabolante que “obviamente dará errado”. Assim foi com seu primeiro “acústico”, lançado nos EUA em 1986, pela Nonesuch Records, e somente prensado no Brasil em 1990. Como vimos, parece que esse negócio de acústico pegou por aqui. Dez anos depois dele.
Seu disco em espanhol foi considerado, por pessimismo e má-vontade antecipados, um fiasco de público (além disso, uma preguiça de crítica). Vendeu bem, principalmente comparado ao que venderam os demais “medalhões da MPB”. Ainda rendeu um CD ao vivo, e também um vídeo (e DVD).
O Disco em Inglês
Todo esse boquete para falar do disco em inglês. Eu ouvi inteiro, e não vou aqui dissecar tecnicamente música por música. É um álbum excelente. Muito bom, mesmo. Caetano é um cantor extraordinário e um intérprete muito acima de qualquer média.
A música do Nirvana foi gravada com um carinho que não se veria por parte de nenhum roqueirinho brazuca. O dedilhado no violoncelo é a melhor adaptação possível daqueles acordes iniciais da canção. E daí para frente a coisa vai que vai.
Caetano com certeza surpreendeu a todos ao evitar o falsete para fazer graça com a canção do grupo vocal “The Platters”. E mandou muito bem também na do Bob Dylan. A do Elvis lembrou o arranjo da percussão tonal de “Um Tom”.
Esse disco pode ser tudo, menos uma obviedade. E também menos uma coisa ruim.
E talvez seja esse o maior ódio de quem tem raiva do Caetano: ele manda bem pra caralho. Deve ser foda odiar um cara assim. E tenho pena, mesmo, se a pessoa também odiava os Beatles na época em que os FabFour inventavam o que seria da música pop de seu próximo álbum em diante.
É esse o papel de Caetano Veloso em relação à MPB.
Alguns fãs de Chico Buarque, embora apaixonados pela música popular brasileira e também afeitos ao som elitizado e inominável que se abarcou, por preguiça e preconceito, na sigla MPB, são levados a odiar Caetano.
Um pouco por rivalidade, um pouco por divergência estética. E alguns até porque ele apoiou Fernando Henrique. Legal era o Chico, pois apoiava o Lula. Ouvi muito isso na Faculdade e fora dela.
Outros preferem Chico, também, porque ele não é exibido como Caetano. Discreto, sossegado, joga seu futebol, come suas mulheres e compõe as melhores músicas do mundo. Caetano fala, dança, rebola, estrebucha e discorre sobre todos os assuntos do mundo. Sua música não estaria à altura de seu exibicionismo, e tanto menos do talento de Chico.
Acho bobagem esse bairrismo. Chega a ser infantil. Gosto de Caetano e gosto de Chico, nunca vi problema em gostar dos dois. Prefiro Caetano sem deixar de considerar as letras de Chico, em muitos aspectos, bem mais tocantes e poéticas e talvez melhor compostas que boa parte das de Caetano.
Minha predileção por Caetano Veloso tem muito a ver com essa capacidade mutante, que é acima de tudo uma capacidade criativa. Quando todos diziam, na época da gravação do show de Noites do Norte, que ele se repetia por não criar coisa alguma, o caboclo lança o disco com Jorge Mautner. Complicado.
Esse disco agora em inglês, álbum de intérprete, é coisa das mais complexas e ao mesmo tempo simplórias. Complexas porque o disco envolve uma pesquisa apurada, arranjos muito bem feitos, e uma execução – principalmente vocal – sem margem de erro.
É simplória porque, para quem cantou Jokerman daquele jeito, e ao vivo, bancar o crooner de estúdio chega a ser uma piada. O cara canta pra cacete, essa é a verdade.
Quem tiver a sorte de ter o vídeo (e não o meu azar de tê-lo e não saber a quem emprestou) do Gilberto Gil, gravado em parceria com a HBO, vai ver as brincadeiras vocais que Caetano faz, junto de Gil, nas músicas “Back in Bahia” e “Cores Vivas”.
Aos "fãzinhos" puristas de Chico Buarque, principalmente os anti-caetano, dedico o clipe com Arnaldo Antunes. Chico dublando Arnaldo. E gargalhando de vocês, seus panacas! Porque vocês, para Chico Buarque, são como os metaleirinhos idiotas que atiraram garrafas plásticas no pessoal da escola de samba. Mas esse lado de Chico não tem a ver com Axl Rose. É Caetano Veloso na veia. Arnaldo Antunes é o Odair José de Chico Buarque, e vocês ficam aí com essa cara de vocês mesmos.
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transubstanciado por gravata às 22.04.04 | 1 comentário
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