CAETANO VELOSO E OS MUTANTES

18/02/2004

CAETANO VELOSO E OS MUTANTES

Em trecho do texto anterior, o leitor leo acreditou que foi cometido um deslize, pois dei a entender que Caetano fizesse parte dos Mutantes. Acho legal essa parte da história da MPB, então vamos falar sobre esse assunto chato para todos, mas agradável para mim.


Caetano já teve o Mutantes como banda, sim, mas nunca a integrou. Ou seja, a banda tocou com ele em shows, gravaram discos e se apresentaram em festivais. Vamos aos fatos.


Nos primórdios da chamada Tropicália, Rogério Duprat, então um dos organizadores do movimento, apresentou a todos uma banda formada por meninos de Sampa (Rita Lee, Arnaldo e Sérgio Dias Baptista). O mais novo, Sérgio, tinha 16 anos na época.


Todos se impressionaram com o talento daquele conjunto, e obviamente eles tocariam com Gil ou Caetano no festival que se aproximava (o de 1967, da Record). Acabou que tocariam com Gilberto Gil, enquanto Caetano seria acompanhado pela banda argentina denominada Beat Boys.


Nesse festival, Caetano Veloso mandou brasa em "Alegria, Alegria" e Gilberto Gil apresentou ao mundo "Domingo no Parque". Deixando de lado o debate sobre melodia e letra, indiscutivelmente a banda que acompanhava Gilberto Gil era muito mais casca-grossa do que os portenhos acompanhantes de Caetano.


Ainda em 1967, participaram da última faixa do disco de estréia de Caetano (seu primeiro discão foi com a Gal, "Domingo"). No final de "Eles", composição de Caetano e Gil, o cantor diz assim: "Os Mutantes são demais!"


No ano seguinte, eles o acompanharam na apresentação de "É Proibido Proibir", no festival da Globo. Foi talvez o momento alto da Tropicália, principalmente no sentido de marcar posição quanto sua independência em relação à esquerda - o que não o impediria de também ser contrário à direita.


Gilberto Gil foi liminarmente desclassificado nesse Festival, o que irritou Caetano (sobretudo porque fora hostilizado nas primeiras apresentações). Havia um clima pesadíssimo para a próxima apresentação de Caetano. O pior estaria por vir.


No meio da música, ele recitava versos de Fernando Pessoa. Para a tal apresentação fatídica, havia programado um desagravo a Cacilda Becker, pois a atriz fora demitida da Bandeirantes (acho), a pedido dos hómi do pudê.


Mas os esquerdistinhas da platéia não quiseram nem saber, e vaiaram do começo ao fim. Puseram-se de costas para o palco; ato contínuo, os Mutantes ficaram de costas ao público. Detalhe: Arnaldo e Sérgio Dias estavam DE TAILLEUR!!!!


Em vez do desagravo (ele tentou incluí-lo, mas ficou estranho), Caetano vociferou contra a platéia. Um discurso de improviso, que acabou gravado pela Philips do começo ao fim. Eles editaram a parte em que acusa de autoplágio um outro participante, e lançaram em compacto simples (no outro lado do compacto, a gravação de estúdio).


Esse foi o primeiro disco de Caetano com Mutantes.


Depois de se retirar do Festival (com frases do tipo "o júri é muito simpático, mas é incompetente" e "se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos!"), Caetano se apresentou regularmente com os Mutantes na boate Sucata, no Rio de Janeiro.


Gravaram aquela coisa toda, e lançaram um compacto duplo, consagrando em disco a parceria já consagrada em shows.


Também em 1968 foi lançado o primeiro disco dos Mutantes, e Caetano é autor de boa parte das músicas. Eles chegaram a gravar Baby três vezes (uma no primeiro disco, e também em "Jardim Elétrico" e "Technicolor").


Depois disso, Sérgio Dias deu uma força aqui, Arnaldo uma acolá (em Araçá Azul, p.ex.), e Rita Lee atrapalhou mais para a frente. Mas os Mutantes, mesmo, nunca mais. Não com Caetano (e, mais um pouco adiante, nem entre os próprios integrantes).


Quando disse que Caetano estava com sua banda, e essa banda era os Mutantes, era porque REALMENTE os meninos, naquela época, serviam mais de banda de apoio do Caetano do que uma banda própria (o primeiro disco dessa galerinha sairia somente em 1968 - mesmo ano em que participaram do disco Tropicália -, mas já tocavam com os baianos desde 1967).


Que bela enrolada para explicar uma coisa que poderia ser sintetizada num parágrafo, né? Bom, eu não obrigo ninguém a ler isso aqui. Poderiam ver as fotos da Antonella. Ninguém manda ser nerd.


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transubstanciado por gravata às 18.02.04 | 1 comentário


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Quem disse que esse assunto é chato?

Adoro, também!

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