A LIGA EXTRAORDINÁRIA

30/12/2003

A LIGA EXTRAORDINÁRIA

Filme excelente. Muito bom, mesmo. Seria quase perfeito, caso aproveitasse a ousadia da história em quadrinhos que lhe deu origem. Mas tudo bem, fizeram o que era preciso (as tais “ousadias” eram mesmo do balacobaco – falarei sobre algumas delas logo mais).


Quem está acostumado com os filmes de aventura no estilo Indiana Jones ficará surpreso com a maravilha que é “A Liga Extraodinária”.


Uma vez um desses caras da Folha de São Paulo desceu o porrete no filme. Não lembro quem era o jornalista, mas sei que faz parte dessa gente burra que agride tudo aquilo que não alcança. É uma tática velha, adotada por marginalizados, rejeitados e, obviamente, burros.


O argumento de Allan Moore é brilhante: uniu numa mesma história personagens de diversos romances, contos e afins. Tudo numa trama muito bem amarrada (no gibi, pelo menos, é impecável).


Imaginem convivendo num mesmo mundo: Allain Quarterman, Capitão Nemo, Hyde/Jeckyll, Drácula, Homem Invisível, Sherlock Holmes, Moriarty, Jack Estripador, Orangotando da Rua Morgue etc etc etc.


Pode parecer coisa de debilóide uma trama com todos eles que seja minimamente amarrada. Mas não é. Moore costurou uma história perfeita. Tudo é bem explicadinho, e as referências não são eructações de erudição (corram ao dicionário, panacas, e vejam o que é eructação), mas sim pontos fundamentais do roteiro.


Dr. Jeckill, ao tomar uma poção por ele elaborada, transforma-se num gigante mostruoso denominado Mr Hyde. Isso é da obra “O Médico e o Monstro”, de Stevenson. Na trama, ele foge de Londres pois cometera os crimes atribuídos a um tal Jack. Em Paris, seu exílio, Hyde volta a praticar crimes hediondos. Dessa vez, atribuíram os homicídios a um orangotango (ou seja, a trama de “Os Crimes da Rua Morgue”, de Poe).


E é em Paris que, tanto no gibi quanto no filme, localizam médico e monstro.


Mas Quarterman, no gibi, não é um herói venerado pelo povo africano. Na trama original, ele é “resgatado” de uma casa de ópio, no Cairo, completamente viciado, jogado pelos divãs, fora de si. A mocinha, Harker, que o convence a participar do grupo. E ele só aceita porque tá pra lá de Bagdá (na verdade, estava pra cá de Bagdá, ao menos geograficamente – mas estava pra lá de Marrakesh, sem dúvida).


Como encontram o Homem Invisível é uma das mais brilhantes sacadas das histórias em quadrinhos. Seguinte: uma porção de freiras revelam um milagre. São fecundadas pelo Espírito Santo. A trinca (Nemo, Harker e Quarterman) desconfia da existência de caroço nesse angu. Vão ao tal convento (detalhe para a Madre Superior, com tendências de Dominatrix – com direito a ceninhas de spank com as noviças... uhuuu!!!) e conseguem flagrar uma freira de pernas abertas, suspensa no ar, gritando e chorando, em êxtase, dizendo-se possuída pelo Espírito Santo.


Harker joga algum pó de maquiagem (ou algo do gênero), e o Espírito Santo se revela o que os três já desconfiavam: Homem Invisível. Nosso serelepe “herói”, já que ninguém o via mesmo, bancava o freirático e descia a marreta nas noviças – com direito a ser o Espírito Santo.


No filme, infelizmente, o Homem Invisível já aparece (bem entre aspas) fazendo parte da turma. Sem graça, né?


A história cinematográfica, porém, tem também suas vantagens: “M” e Dorian Gray. No gibi, “M” aparece bem pouco, e suas jogadas são apenas resultados de maquinações de outra pessoa bem mais inteligente (Holmes). Dorian Gray não existe no gibi, e sem dúvida ele é um dos mais carismáticos do filme.


Tom Sawyer não tem no gibi, mas também só piora as coisas no filme. Foi um acréscimo que não somou nada – se é que me entendem.


Harker, no gibi, é uma mulher severa, extremamente polida e educada, conservadora ao extremo, porém inteligentíssima e uma brilhante investigadora. No filme é agressiva, anti-conservadora e.. vampira (???). Prefiro a do gibi, até porque formava uma espécie de anti-par romântico com Quarterman (imagine o que seria para uma donzela toda certinha – do século retrasado – encontrar aquele velho entupido de ópio).


Mas vejam o filme.


Mr. Hyde está muito bem feito. Impressionante mesmo. Ninguém fez alardes dos efeitos especiais de “A Liga Extraordinária”, mas a meu ver são tão bons quanto os de Hulk (embora sejam os do verdão bem mais aclamados – além de, nas primeiras cenas, o Hulk parecer mais o Shrek).


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